O Grêmio no início dos anos 80

Time teve o ápice na conquista do mundial de 83 (foto: arquivo/GFPA)

Houve um período em que o futebol brasileiro era não só respeitado lá fora, mas competitivo. Nenhuma equipe tupiniquim levava traulitada de gringo do naipe do 8 a 0 entre Barcelona e Santos, ou mesmo o 7 a 1 da Seleção. Isso acontecia porque dentro do campo havia raça, respeito às cores do clube e vontade de vencer, não apenas de encher as burras de grana e ganhar likes com selfie.

No início dos anos 1980, o Grêmio sintetizou o espírito raçudo de um time brasileiro. A reação a anos de inércia tricolor – motivo de chacota do principal rival, o Internacional, octacampeão gaúcho nos anos 1970 e tricampeão brasileiro naquela década – iniciou assim que a sequência de triunfos do adversário encerrou. Se o Colorado de Figueroa, Paulo Roberto Falcão e Caçapava (!) pintou o Rio Grande de vermelho entre 1969 e 1978, o Grêmio com o esquadrão composto por De León, Tarcísio e Renato Portaluppi reverteu isso entre 1979 e 1983.

Reformulação na equipe e entrega do Olímpico

Este grupo ficou conhecido como Esquadrão Imortal justamente porque o rival portoalegrense afirmava que o Grêmio estava morto, enquanto eles gozavam de glórias em cima de glórias. O tricolor gaúcho, primeiramente, tratou de encerrar a sequência de estaduais do Inter, vencendo os títulos de 1979 e 1980.

Foi também em 1980 que o saudoso estádio Olímpico Momumental teve suas obras concluídas. Era prenúncio do que estava por vir. O técnico Ênio Andrade fez uma verdadeira limpa no grupo para renovar o pelotão. Para ele, o grupo tinha mais experiência do que velocidade, e era hora de dar um “gás” na turma. Talentosos jovens como China e Paulo Isidoro davam a leveza ao meio-de-campo. O sistema defensivo era encorpado com o icônico Emerson Leão no gol, o uruguaio Hugo de Léon na zaga formando dupla com Baidek.

 

Equipe foi reformulada pelo técnico Ênio Andrade (foto: arquivo/GFPA)
Equipe foi reformulada pelo técnico Ênio Andrade (Foto: Arquivo/GFPA)

O primeiro título nacional

O brasileiro de 1981 não foi fácil de encarar. Nada menos do que 44 clubes entraram no páreo. Na primeira fase, a qual conquistou classificação, o time gaúcho não surpreendeu, classificando apenas na quarta posição e atrás de Portuguesa, Goiás e Operário de Campo Grande. Mesmo assim, Baltazar conseguiu dar show na etapa, marcando três gols no 3 a 2 diante do Botafogo em pleno Maracanã.

A segunda fase foi ainda mais complicada, mas o time passou. Contudo, foi sufocado pelo São Paulo de Sérginho Chulapa – o atleta marcou os três gols da vitória do tricolor paulista diante do gaúcho. O time de Ênio Andrade avançou para as oitavas de final, disputado em duas partidas contra o Vitória. A classificação veio com vitória no Olimpico.

O caminho até a final foi traçado com uma bela campanha dos 11 de Andrade. Duas vitórias contra o Operário de Campo Grande nas quartas, depois vitória e derrota para a Ponte nas semis, mas classificação graças à melhor campanha. O segundo jogo contra a Macaca, no Olímpico, chegou a registrar quase 90 mil pessoas.

Foi assim que o Grêmio chegou à sua primeira decisão nacional, contra o São Paulo que já havia aprontado para cima dos Imortais. No primeiro jogo, no Olimpico, 2 a 1 para o tricolor, depois de sair perdendo com gol de Serginho. Paulo Isidoro fez os dois do Grêmio. Com um Morumbi marcado pela presença de 95 mil pessoas, a pressão caiu sobre os ombros dos paulistas. A obrigação de fazer gols era da equipe que contava com Zé Sergio, Waldir Peres, Darío Pereyra além do já citado Sérginho.

Mas foi Baltazar, o artilheiro de Deus, quem marcou o único gol da partida. O lance é antológico e está marcado na cabeça de todos os tricolores: Paulo Roberto levanta bola longa em direção da área pelo flanco direito, Renato ajeita de cabeça, Baltazar mata no peito e senta o sarrafo para dentro das redes.

 

Imagem de Baltazar comemorando gol no Morumbi é usada de estampa para camisetas (foto: reprodução/Pansu Camisetas)
Imagem de Baltazar comemorando gol no Morumbi é usada de estampa para camisetas (Foto: reprodução/Pansu Camisetas)

Um hiato em 1982

Na sequência campeã do Grêmio, 1982 foi uma pedra no meio do caminho. Mantendo praticamente a mesma base que faturou o título nacional do ano anterior, Ênio Andrade não foi bem na Libertadores. Foi a primeira vez que o time disputou a competição, e acabou despachado na fase de grupos, que contava com São Paulo, Defensor e Peñarol, sendo que este último sagraria-se campeão do torneio. Pouco depois, o técnico deixou a equipe para a chegada de Carlos Castilho.

O novo comandante não teve uma má sequência, chegando a levar o Grêmio a mais uma decisão. O sonho do bicampeonato, contudo, foi por água abaixo. O Flamengo foi o grande campeão depois de uma decisão que precisou de três partidas – 1 a 1 no Rio de Janeiro, 0 a 0 no Rio Grande do Sul. Nunes foi o autor do gol único, calando dezenas de milhares de gremistas no Olímpico.

 

Nunes dá de dedo em Emerson Leão na final do Brasileirão 82 (foto: Revista Placar)
Nunes dá de dedo em Emerson Leão na final do Brasileirão 82 (Foto: Revista Placar)

1983 – Um ano pra ficar na memória

O ano das maiores conquistas do Grêmio começou diferente. Um certo Valdir Espinosa chegou para comandar da casamata. O nome era pouco conhecido do cenário nacional de treinadores. Antes de seu trabalho com o Grêmio, ele havia sido técnico apenas do Clube Esportivo Bento Gonçalves, do interior gaúcho. Foi ali que chamou a atenção da diretoria tricolor, já que foi vice-campeão gaúcho com a equipe em 79, perdendo justamente para o Imortal.

Espinosa chamou o zagueiro Baidek, o meia Tita e promoveu o garoto Renato Portaluppi do banco para a titularidade. Nem ele sabia o grande feito que havia acabado de realizar. O time iniciou a Copa Libertadores da América em um grupo com Flamengo, Blooming e Bolívar, terminando invicto e eliminando o Fla, curiosamente o time que havia sido campeão para cima do Grêmio no ano anterior.

Na fase seguinte, o tricolor foi para um triangular com América, da Colômbia, e Estudiantes. Começou vencendo dos argentinos em casa, perdeu para o América na Colômbia, venceu o América no Olímpico e empatou na argentina com o Estudiantes. A campanha rendeu passe para a grande decisão com o então atual campeão, Peñarol, que em 1982 havia conquistado também o título de campeão mundial, vencendo o Aston Villa, da Inglaterra.

Na primeira decisão, Tita, aposta de Espinosa, abriu o placar para o Grêmio fora de casa. Os adversários empataram e o placar fechou em 1 a 1. Vitória simples do time gaúcho consagraria o primeiro título intercontinental do Imortal. Com a defesa bem montada, o Grêmio não desperdiçou a grande oportunidade de sua vida. Em uma final conturbada e violenta, o time venceu por 2 a 1 com gols de Caio e César, enquanto Morena empatou para os uruguaios. Com sangue escorrendo do rosto, o valente time tricolor ergueu o troféu de campeão da Libertadores dentro do Olímpico Monumental.

 

De León ergue a taça com sangue escorrendo pelo rosto (foto: Revista Placar)
De León ergue a taça com sangue escorrendo pelo rosto (Foto: Revista Placar)

 

Quando o mundo ganhou três cores

A cereja no bolo veio para esse esquadrão antológico com o título mundial, mas o cenário antes disso era nebuloso. O time brasileiro era considerado zebra diante de um poderoso Hamburgo, da Alemanha, campeão da Liga dos Campeões UEFA. Para piorar, o Grêmio havia perdido Tita para o Flamengo.

Espinosa tratou de mexer os pauzinhos. Chamou Paulo César Caju e Mário Sérgio, que na época já eram veteranos. Era exatamente o que Espinosa queria: Experiência para não tremer as pernas diante dos endiabrados alemães.

Em jogo único, os times se enfrentaram em Tóquio, no Japão, no inesquecível dia 11 de dezembro de 1983. Aos 38 minutos do primeiro tempo, Renato Portaluppi, o eterno Renato Gaúcho, marcou um belo gol. Diante da marcação de Hieronymus, ele o driblou duas vezes antes de bater cruzado para o fundo do gol de Stein. Interessante perceber a época em que o futebol era jogado sem grife, quando Renato vai comemorar com Espinosa, o técnico está tragando um cigarro e toma todo cuidado para que o objeto não caia de seus dedos.

 

Espinosa cuida para o cigarrinho não cair na comemoração de Renato (foto: reprodução/internet)
Espinosa cuida para o cigarrinho não cair na comemoração de Renato (foto: Reprodução/internet)

Os alemães chegaram ao empate com Schröder, azedando tudo aos 40 minutos. A partida precisou de uma prorrogação, em que novamente Renato fez história. Espinosa fez uma acertada substituição, apostando em Caio. O atleta alçou bola para área e Tarcisio deu uma casquinha nela. O camisa 7 recebeu, driblou mais uma vez o marcador e colocou ela no cantinho.

O segundo gol de Renato Gaúcho deu o título mundial para o Grêmio e colocou de vez a equipe no cenário dos grandes campeões do planeta. O time, que havia sido apontado como morto, provou que estava mais vivo do que nunca, trazendo os primeiros títulos internacionais para o Rio Grande do Sul.

 

 Renato Gaúcho foi o grande nome da final do Mundial (foto: arquivo/GFPA)

Renato Gaúcho foi o grande nome da final do Mundial (foto: arquivo/GFPA)

 

Texto: Cristóvão Vieira

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*