O impacto de Cristiano Ronaldo no Calcio

O CRAQUE PORTUGUÊS CHEGA À BOTA PARA MARCAR UMA NOVA ERA NO FUTEBOL MUNDIAL

O novo palco de CR7 aprendeu aplaudi-lo de pé antes mesmo do gajo ser um bianconero (GiveMeSport)
Por Lucas Oliveira, GO

Amigo leitor, por que alguém em sã consciência decide colocar fim em um vínculo que lhe foi tão proveitoso? Por que acabar com uma história tão rica e vencedora? Por que sair da sua zona de conforto? Cristiano Ronaldo tomou essa decisão no dia 10 de junho de 2018. O gajo poderia muito bem retornar a Madri, depois de suas férias na Grécia. Ele certamente voltaria para mais uma temporada que iniciaria nos braços dos torcedores merengues. Mas não. Ele optou por outro caminho. Escolheu virar aquela que até o momento é a mais bela página de sua carreira como jogador.

Não é de hoje que os desafios são uma constante para Cristiano. Ainda com 12 anos de idade, o português deixava sua família, amigos e todos que conhecia na Ilha da Madeira para ir tentar a sorte em Lisboa. Foram seis anos com o Sporting. O futebol de Ronaldo atraiu Sir Alex Ferguson, que o levou para Manchester. Na terra da rainha, o gajo deixou de ser uma jovem promessa do futebol português para figurar de vez entre os grandes nomes do continente. Títulos, gols, destaque e o primeiro Ballon d’Or vieram atuando pelos Diabos Vermelhos. O protagonismo assumido na Inglaterra despertou o interesse do poderoso Real Madrid.

Durante o verão europeu de 2009, os blancos realizaram a maior transferência do futebol até aquele momento ao desembolsar €94 milhões para contar com Cristiano em seu elenco. De lá para cá uma rica história foi construída. Ronaldo se tornou o maior artilheiro do clube com a marca surreal de mais de um gol por partida, ao total foram 450 bolas na rede em 438 jogos disputados. Títulos também não faltaram, o destaque, óbvio, vai para os quatro triunfos na Liga dos Campeões da Europa, sendo os últimos três canecos conquistados de forma consecutiva nas temporadas 2015/2016, 2016/2017 e 2017/2018.

Na terra de Juan Gris e José Avrial, Cristiano é autor de uma obra que seguramente estará entre as mais lembradas em toda história na cidade de Madrid. Testemunhar um clube como o Real, que teve grandes jogadores ao longo de sua história, ratificar seu apreço pela figura de Ronaldo publicamente é algo belo. Para muitos, o gajo é o maior jogador da história dos blancos, superando até mesmo o imenso Alfredo Di Stéfano. O argentino é o terceiro maior artilheiro da história dos merengues com 308 bolas na rede; alguns desses gols foram marcados nas cinco conquistas da Liga dos Campeões da Europa, nesse quesito, La Saeta Rubia supera o gajo em um troféu. Para aqueles que acreditam que Cristiano Ronaldo não é capaz de superar Di Stéfano como maior atleta da história do Madrid, certamente aceitam o fato que o português, ao menos, senta ao lado do craque do passado na mesa que ainda conta com nomes como Carlos Santillana, Ferenc Puskás, Hugo Sánchez e outros.

Com a ida de Ronaldo, chega ao fim também uma era do futebol na Espanha. Nos últimos dez anos o mundo se acostumou a olhar para a La Liga como o campeonato que possuía os dois maiores jogadores do planeta. A eterna batalha entre Cristiano e Messi, que havia começado muito antes do gajo se juntar ao Madrid, foi potencializada com os dois craques tão próximos um do outro. Ao longo dos anos, ambos os jogadores estiveram em posições diferentes no mundo da bola. Em seus primeiros anos na capital espanhola, o português fora obrigado a assistir Lionel e seus coadjuvantes dominarem o cenário nacional e continental. Assim como o mundo, o futebol também dá suas voltas, e essas voltas, ao menos nos últimos anos, indicam uma superioridade de Ronaldo sobre o argentino, superioridade essa que é refletida em conquistas coletivas e individuais.

Com tantos títulos seguidos , o Ballon d’Or se tornou apenas uma consequência (AFP)

A decisão selada no dia 10 de junho 2018, citada no início deste texto, provavelmente estava tomada já há algum tempo. O relacionamento entre Ronaldo e a diretoria do Real Madrid vem sendo desgastado através dos anos. O gajo cogitou – mais de uma vez – deixar os blancos nas últimas temporadas devido às acusações recebidas do fisco espanhol e a suposta falta de apoio por parte dos diretores merengues em toda o ocorrido. Em uma entrevista após a conquista do tricampeonato europeu nesta temporada, Cristiano, já em tom de despedida, deu a entender que o fim de sua história com o Madrid era iminente: “Foi bonito estar no Real Madrid”.

Não sabemos o que se passa na cabeça de Florentino Pérez, mas a conduta do presidente madridista em toda essa situação é bastante questionável. O mandatário disse que o jogador poderia deixar Madrid caso algum clube pagasse 10 % de sua multa rescisória, que é de € 1 B. A mensagem foi interpretada por Ronaldo e seu estafe como um ultraje. O mandatário chegou a se reunir com os empresários do gajo para discutir o aumento salarial pedido pelo jogador, parte da impressa espanhola noticiou que os valores conversados no encontro foram de €30 milhões anuais. O fato do português ter ido à Rússia disputar a Copa do Mundo sem um novo acordo assinando com os merengues deu a entender que não houve acordo entre as partes na reunião antes citada.

Ronaldo chega à terra dos bons vinhos para elevar a Juventus de potência nacional, para equipe dominante no certame europeu. A busca obsessiva pelo título continental é algo vem sendo frequente nas últimas temporadas da Velha Senhora. O último triunfo continental dos bianconeros foi nos idos de 1996. Os comandados de Allegri chegaram a duas finais da Liga, porém perderam em 2015 para o Barcelona e em 2017 para o Real Madrid; neste último com direito Cristiano Ronaldo protagonizando papel de algoz dos italianos ao marcar dois gols na final.

A manutenção de Allegri e a chegada de reforços pontuais nas temporadas anteriores dão indícios de que os diretores juventinos acreditam no trabalho que vem sendo feito. A busca pela supremacia no continente, ao menos na teoria, se torna algo “mais simples” com a chegada de Cristiano.

Ronaldo sai do Real Madrid com a conquista do tricampeonato europeu, literalmente no topo. Chega à Juventus, onde provavelmente conquistará mais alguns títulos para a sua já imensa galeria. Mesmo em um time com plantel e modo de jogar consolidados, Cristiano não tem a responsabilidade de vencer a Liga dos Campeões, visto que existem equipes tão qualificadas quanto a Juve. Caso o título continental aconteça, isso apenas impulsionaria o tamanho do português entre os maiores do esporte. Isso, meus amigos, é a mais clara definição de gestão de carreira.

Cristiano é um vencedor nato, isso ele vem provando desde sua chegada em Lisboa. Agora, o craque deixa seu reinado em Madrid, deixa o clube e a cidade onde, segundo a carta do próprio jogador aos madridistas, viveu os anos mais felizes de sua vida, para rumar a um novo ato que pode ser o último de sua extraordinária carreira. O craque que marcou época na Inglaterra e também na Espanha chega agora à Bota para escrever uma nova página da sua história. Na terra de Leonardo e Michelangelo, Ronaldo também já produziu a sua mais bela obra, e por capricho do destino, justamente contra a Juventus.

Em sua última passagem por Turim, Ronaldo fez isso aí (DeSporto)

Como Cristiano pode afetar o futebol na Itália

O discurso por aí é o mesmo: a superioridade da Juventus frente aos concorrentes pelo título nacional acaba de aumentar de forma exponencial. Sim, é verdade. De fato, o favoritismo juventino nas competições nacionais foi elevado a níveis estratosféricos com a chegada de CR7. A Velha Senhora inicia a temporada 2018/19 sendo a heptacampeão da Serie A e tetra da Coppa Italia. Se antes já era fácil apontar a Juve como campeã antecipada dos torneios nacionais, agora ficou quase que impossível não o fazer.

Mas calma lá. Não é porque o final está supostamente definido que o caminho até ele será desinteressante.

É fato que nos últimos anos a busca pelo Scudetto tenha se tornado algo desestimulante de se acompanhar. Entretanto, a última temporada do Calcio deu indícios de que as coisas podem estar tomando novos rumos na Itália.

Roma e Inter fizeram ótimas temporadas e vem se mostrando ativos na atual janela de transferências; o destaque fica por conta da equipe de Eusebio Di Francesco, que conseguiu reverter um déficit de três gols para cima do Barcelona no Estádio Olímpico, eliminando os catalães da Liga dos Campeões da Europa nas quartas de final. O Napoli também certamente chega forte para a temporada que se inicia em agosto. A equipe do sul da Itália fez uma excelente campanha que culminou na conquista do vice-campeonato, alcançando a incrível marca de 91 pontos, ficando somente a quatro dos bianconeros, que conquistaram seu sétimo título em sequência. A equipe napolitana trouxe Carlo Ancelotti de volta ao Calcio. O agora comandante tem a dura missão de montar um Napoli capaz de fazer frente a essa temível Juventus.

O lado dos negócios também se torna algo mais interessante na Bota. Cristiano é uma máquina de gerar dinheiro, uma espécie que parece ser tão boa no futebol quanto na publicidade O interesse na Serie A por parte dos torcedores e também das marcas certamente gerará uma receita inigualável para a Juventus, o que futuramente pode vir a influenciar a Liga como um todo.

Cristiano chega à Turim com um contrato assinado até 2022 e salário de €30 milhões anuais. O financeiro da Juve vai muito bem, obrigado. Entretanto, os vencimentos do gajo são maiores do que a soma dos outros cinco jogadores mais bem pagos no clube. Por se tratar de cifras tão elevadas, a fabricante de automóveis, Fiat, patrocinadora da Velha Senhora, aceitou a possibilidade de futuramente arcar com parte do salário de Ronaldo, isso para os bianconeros não desrespeitarem as regras do fair play financeiro da UEFA.

Desde a chegada de Ronaldo, o Fenômeno, na Internazionale em 1997, o futebol italiano não vivia um momento de tanta euforia causada por um só jogador. O Calcio, que já foi a liga das grandes estrelas do futebol mundial, como Platini, Maradona, Paolo Rossi, Baresi, Weah, Baggio, Ronaldo, Zidane e muitos outros, foi enfraquecido na década passada graças a uma série de escândalos financeiros protagonizados por alguns clubes e também devido a uma crise do futebol nacional. Nos últimos anos, o mundo se acostumou a olhar para a Serie A e enxergá-la somente como um campeonato de transição para os jovens e promissores jogadores, ou uma liga confortável para os já consagrados atletas que entravam na fase final de suas carreiras. Agora não mais. O mundo certamente voltará a olhar para o futebol na Bota com a atenção que este merece.

Fontes: CalciopediaESPN

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