O jeito mineiro de ver o futebol

O futebol mineiro é o meu pai. Bença pai!

Por: Daniel Bravo, MG

Ser mineiro é ter um modo particular de torcer, mas é difícil entender. É acreditar mais que duvidar. Quem não confia, não vence. A palavra tem poder. É não comemorar antes e muito menos entregar a vitória de forma antecipada. O jogo só acaba quando termina. Quem comemora precocemente corre risco de passar de bobo. Os argentinos do Rosário e do Estudiantes nos ensinaram isso. Quer ver um time mineiro em apuros? Aposte nele! Por isso os times de Minas sempre são perigosos quando não são favoritos.
Chega, vai com calma, come pelas beiradas. É capaz de falar bem do adversário só para tirar o peso. Falar mal deles é perigoso. Quer tirar de dentro dele toda raiva? Ria dele. Chega a aceitar gozação do rival,  mas não é fã de cariocas e paulistas quando o assunto é futebol. Mineiro é reto, ganha no campo, nunca fora dele.

Apesar de ser calado e quieto, joga para frente, futebol precisa ser clássico, como o próprio Estado é. Se solta em campo, mas nunca sem perder a seriedade. Quem muito se mostra chama atenção e fica vulnerável. Mineiro é bicho que veio do mato e da ordem, mantendo tanto seu padrão que virou hino do futebol com o Skank (É Uma Partida de futebol), ditando cada forma dos jogadores atuarem. “O meio campo é o lugar dos craques… O centroavante o mais importante”. Só chama a atenção na hora H, no momento certo.

Mineiro não perde o limite, não parte em desespero para o ataque se não for de extrema necessidade. Sair correndo sem motivo é bobagem. Por isso Ronaldinho, o Bruxo, e Alex, o Talento, deram tão certo aqui. Dominar a bola com calma e atacar com mais calma ainda.

O jogador aqui aprende a olhar por cima, mas nunca de cima. Se for muito falante e gozador dura pouco. Para falar é reto, direto, aberto e sem disse me disse. O cara em Minas é mais da ordem, do campo, não do pré-jogo. É mais esquema que deu certo com Dirceu e Piazza ou Cerezo e Reinaldo que aventura vista no moderno futebol europeu. É mais Tele Santana que Emerson Leão. Porque para o mineiro basta explicar com calma e jeito que tudo se faz entendido, sem precisar gritar ou mesmo falar mal.

Já o torcedor mineiro é isso tudo que o jogador é e muito mais. Porque nasceu aqui e sabe das raízes do Estádio Governador Magalhães Pinto. Como mascotinho de campo é apaixonado por ídolos vários, depois, como torcedor de radinho se torna ainda mais alucinado. Criando ídolos não pelo que falam, mas pela forma como jogam. Sabendo sempre que apesar de todo o talento, jogador precisa entender onde anda pisando e quem ela representa. Precisa conhecer Raul e Nelinho, saber quem foi Éder e Luizinho. Deve ainda ter uma breve noção da história do Bel e da Salomé, só para começar.

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Mural do projeto CURA retratando a rivalidade mineira. (Foto: Thiago Mazza, ilustrador)

E tudo pode ser visto e admirado, pode até ser sentido a quem vier ao Estado. Pode ser descrito, mas nunca fundamentado. É porque veio da raiz do interior e nunca saiu dele. Italiano fugido de sorriso farto. É porque veio dos estudantes novos e surgiu nas fábricas ou no parque. É porque cresceu contando caso, sempre mantendo suas origens. É porque teme a Deus, mas se ajeita com o diabo. Sempre desconfiando das promessas de um futebol que vai dar certo tentando acertar o que parece errado. O mineiro chega a rir do moderno, porque sabe que tudo na verdade já é antigo e foi por Telê ensinado.

Minas é um ninho de histórias. É um Belo Horizonte eternizado na risada do Pinguim e nas noticias do Roberto Abras, na voz marcante do Willy Gonser ou do Alberto Rodrigues. Minas é cada trecho narrado pelo Pequetito ou por cada “Caixa” do Mário Henrique. É o carinho pelo América ou o passeio ao Alçapão do Bonfim para ver o Vila. Minas é minha mãe e o futebol mineiro é o meu pai. Bença pai!

Inspirado no texto “Minas é a Mãe. Bença, Mãe” de Hebert de Souza.

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