O que está por trás da demissão de Emily Lima?

Nada justifica a saída prematura da primeira treinadora da Seleção Brasileira de Futebol Feminino.

A primeira técnica da Seleção Brasileira de Futebol feminino (Foto: Reprodução/Lucas Figueiredo/CBF)
Por Victor Portto, CE

Dia 1º de novembro de 2016 a Confederação Brasileira de Futebol apresentava ao público a nova (e primeira!) treinadora da Seleção Brasileira de Futebol Feminino, Emily Lima. O anúncio de uma mulher para o cargo mais importante da modalidade representava um avanço histórico na luta por igualdade de gênero dentro de uma instituição historicamente marcada pelo pensamento retrógrado como a CBF. Entretanto, apenas 10 meses depois da contratação de Emily, em 22 de setembro de 2017, o alto escalão da confederação reguladora do esporte no Brasil decidiu que era o momento de encerrar a trajetória da profissional na seleção.

Demitir Emily do cargo de treinadora da seleção reforça mais uma vez toda a incongruência entre ideias e ações da Confederação Brasileira de Futebol no manejo do futebol brasileiro. Alçá-la ao cargo de técnica não foi um avanço de ideais por vontade própria da confederação, mas somente a aceitação de uma orientação da FIFA para incentivar a entrada das mulheres na beira do gramado, na função de treinadoras e em outros cargos de maior importância dentro da estrutura do futebol. Parece nunca ter sido, de fato, a vontade da CBF colocar uma mulher no cargo mais alto da hierarquia da modalidade no país — e a demissão depois de um breve período no comando técnico reforça esta visão.

Mas por que Emily foi demitida? Bom, a CBF alegou a falta de resultados. Emily teve sete vitórias consecutivas no início de seu trabalho, e como se tratava de amistosos resolveu testar opções, fazer experiências contra seleções mais bem ranqueadas que a brasileira. A partir daí, nos últimos seis jogos perdeu cinco e empatou um. Entretanto, é preciso pontuar que estamos em um ano de preparação para campeonatos que serão realizados nos próximos anos (Copa América e Copa do Mundo de Futebol Feminino), então somente disputamos amistosos, e com a confederação brasileira recusando-se a colocar o time para disputar a Copa Algarve que serviria ainda mais para dar ritmo competitivo ao time. Mas se a justificativa é de resultados, por quê os técnicos das seleções de base da categoria continuam a frente do cargo se têm um desempenho pior que o de Emily? Por quê Vadão ficou muito mais tempo como técnico da seleção mesmo com vários resultados ruins antes das Olimpíadas? Ficam os questionamentos.

É importante salientar que Emily ajudou a pensar e implementar um trabalho que pode dar muitos frutos no futuro do futebol feminino no Brasil: um banco de dados das Seleções Femininas. Esta ferramenta permite saber quantas e quem são as garotas que estão jogando ou buscando jogar futebol de forma profissional no país, e é elaborada através de várias seletivas feitas em diversas cidades do Brasil. As variações táticas, a mudança da metodologia de trabalho proposta pela treinadora e seus auxiliares e as propostas de jogo não seriam coisas assimiladas pelas atletas da noite para o dia: eram parte de um projeto pensado pela profissional a longo prazo, buscando resultados somente nas competições oficiais dos próximos anos.

Emily pagou o preço da sua ousadia frente a CBF por pedir para enfrentar algumas das melhores seleções da modalidade, por testar opções diferentes e dar tempo de jogo a atletas que serão o futuro da seleção. Foi defendida pelas atletas que queriam a sua manutenção no cargo — estas enviaram uma carta à Confederação pedindo a continuação do trabalho — porque elas enxergaram que o modelo atualíssimo de proposição de jogo da treinadora (pressão alta, valorização da posse de bola, dentre outras características) iria render bons frutos se tivesse mais tempo. Para alguns setores da imprensa já há um lobby pela recontratação de Vadão ao cargo, mas por que não continuar com a Emily? Machismo, misoginia, contradição, incoerência… podemos enxergar por diversos prismas a demissão da técnica da seleção brasileira, mas por nenhum se faz justificada a saída tão prematura da primeira treinadora da Seleção Brasileira de Futebol Feminino.

A carta enviada pelas jogadoras pedindo a continuação de Emily Lima no comando técnico (Foto: Reprodução/Arquivo pessoal de Juliana Cabral)
A carta enviada pelas jogadoras pedindo a continuação de Emily Lima no comando técnico (Foto: Reprodução/Arquivo pessoal de Juliana Cabral)
Fontes: Espn; Uol; CBF.com e Planeta Futebol Feminino.

1 Comentário em O que está por trás da demissão de Emily Lima?

  1. E atualizando o artigo… Sim, recontrataram o Vadão. Q anteriormente teve rendimento igual ao da Emily à frente da seleção, mas foi mantido no cargo.

    CBF sendo retrógrada como sempre. Aliás, CBF retrógrada deve ser pleonasmo

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*