O sonho de ser jogador de futebol

Vivendo entre o sonho e a lama

Os momentos em que somos observados (Foto: Reprodução/Doentesporfutebol)
Por: Victor Portto, CE

Somos observados quando estamos no topo, usufruindo e desfrutando dos nossos melhores anos de nossas carreiras e vivendo os sonhos de todo apaixonado por futebol. Poucos sabem o que passamos para chegar até aquele momento de glória ao levantar um grande troféu ou estar em um grande clube (às vezes do clube que amamos desde criança). Foram poucas as pessoas que choraram com a gente nas derrotas e agora vibram conosco nas vitórias. Esta é uma carta sobre o sonho, mas também da ótica do outro lado que poucos enxergam da vida do jogador(a) de futebol.

O primeiro brinquedo foi à bola dada pelos pais, as primeiras lembranças de vida são feitas das corridas com a pelota no pé ou em baixo do braço correndo para jogar com os amigos na rua, no campinho de terra e sobre qualquer lugar que desse para separar dois times. Muitos de nós, apaixonados por futebol, temos estas imagens de nossas infâncias bem nítidas e misturadas com um sentimento de saudade. Mas chega um momento que todo esse aspecto de brincadeira e de prazer começa a virar coisa séria, competitiva e mercadológica. O que antes era apenas um sentimento bom de estar em contato com o futebol vira um mar de incertezas e de anseios.

Na rua e em qualquer lugar se joga futebol (Foto: Reprodução/diariodepernambuco.com.br)
Na rua e em qualquer lugar se joga futebol (Foto: Reprodução/diariodepernambuco.com.br)

São peneiras, testes, várias tentativas para agarrar uma única chance de viver o sonho. E aí vem o medo de não dar certo: “Será que eu vou ser um grande jogador?”. São muitos os questionamentos e a eterna necessidade de se provar melhor, de buscar evolução e sair da condição difícil que boa parte dos jogadores de futebol se encontra. Eduardo Galeano em seu livro, “Futebol ao sol e à sombra”, diz em determinado texto que “o jogador profissional salvou-se da fábrica ou do escritório, tem quem pague para que ele se divirta, ganhou na loteria.” De fato pode parecer bem mais simples viver do esporte, mas todos os percalços e as dificuldades que surgem no caminho fazem esta trajetória ser muito dura e de muitas desilusões.

As pré-temporadas, os treinos físicos, a distância da família pelas constantes viagens, os problemas particulares ignorados, o risco de lesões, a pressão das torcidas por resultados, a super exposição da vida privada, dirigentes e empresários desonestos são só algumas das desvantagens e dos riscos que surgem no dia a dia de um operário da bola. Sim, operários, pois são menos de 10% dos jogadores no Brasil que ganham mais de 3000 reais, a realidade feminina nesse caso consegue ser ainda pior. Vivendo sem o glamour dos grandes salários, vestiários equipados, clubes com estrutura e todo o básico que os torcedores acham que todos os locais onde se faz futebol de alto rendimento deve possuir. Viver da bola por aqui ainda é um sonho distante para muitos de nós. O futebol é um esporte que engana por todo o aspecto comercial e ilusório que existe nele, a realidade é bem diferente das que os grandes astros esbanjam mundo afora.

Apesar dos sonhos parecerem muitas vezes impossíveis de serem alcançados, é possível ver a frustração de quem desistiu da bola para poder sobreviver. É duro desistir do que mais se sabe fazer na vida, mas é o que mais vemos acontecendo no Brasil afora. Pouquíssimos conseguem chegar a uma Primeira Divisão do Campeonato Brasileiro, jogar em grandes times europeus, defender a Seleção e viver bem com o que ganhou. Não é fácil ser jogador no país do futebol, é uma eterna gangorra entre viver o sonho e a desmotivação pelas derrotas. No entanto, nada abala essa paixão que temos por esse esporte. Futebol é apenas um jogo sim, mas também perpassa muitas coisas para ser considerado apenas futebol.

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*