O triste fim do gerenciamento futebolístico brasileiro

O futebol é algo formador de caráter, sublime e mágico, portanto, pertencente a todos.

(Foto: Divulgação / Uol)
Por: Pedro Portugal, MG

Administrar algo nunca foi e nunca será uma tarefa corriqueira, simples e de fácil aprendizagem. Gerenciar é uma arte que demanda estudo, dedicação e perseverança, e como tal, exige-se do administrador uma certa dose de sagacidade. Isso pode parecer introdução de algum livro acadêmico de administração ou de autoajuda e, apesar de ser bem clichê, é o que falta a moralmente falida e precariamente administrada Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e a seus clubes afiliados.

Houve um tempo em que o futebol tupiniquim era similar a um volumoso rio, que com o seu curso bem definido e infinito de água, mostrava-se uma força da natureza, algo inexorável ao tempo. A quantidade de craques revelados, nível técnico praticado em nossos gramados e de títulos conquistados são a prova cabal desses tempos de bonança. Hoje, isso acabou.

O futebol tornou-se um negócio, muito lucrativo diga-se de passagem. Segundos dados, apenas em 2011, a Fifa registrou mais de 5 mil vendas e compras de jogadores, com uma movimentação de US$ 2,3 bilhões. Mas isso, segundo a Federação, seria apenas parte da história e quatro de cada dez dólares negociados nunca aparecem nas contas oficiais. Ou seja, o volume total pode facilmente ultrapassar a casa dos US$6 bilhões.

(Foto: Lancenet)
(Foto: Lancenet)

No que tange aos clubes brasileiros, a receita acompanhou uma tendência de crescimento vertiginoso, o que corrobora com o crescimento e desenvolvimento do futebol como um mercado valioso.  O faturamento dos 20 maiores times brasileiros cresceu 23,75% em 2015 em comparação ao ano anterior, alcançando 3,7 bilhões de reais, segundo estudo anual de Amir Somoggi, consultor de marketing e gestão esportiva.

(Foto: Espn)
(Fonte: Espn)

O melhor desempenho dos times reflete o aumento das receitas com transferências de atletas, que passaram de R$406 milhões para R$638 milhões. Posteriormente, vêm os ganhos com os direitos de TV, que cresceram 28% e superaram R$1,39 bilhão. Os patrocínios, por último, atingiram R$489 milhões, alta de 7%, e a bilheteria chegou a R$339 milhões, 14% a mais que no ano anterior. Ao mesmo tempo em que as receitas subiram, os custos dos times com futebol também foram 11% mais altos em 2015 que no período anterior. E apesar do do aumento dos custos com futebol, nosso campeonato padece de deficiência técnica. Os clubes são culpados? Certamente sim. Porém, a CBF é um catalizador para o fracasso do futebol brasileiro.

(Foto: Divulgação/ Internet)
(Foto: Divulgação/ Internet)

A Premier League é o exemplo claro de como um campeonato bem administrado reflete em um elevado nível técnico. O campeonato nacional inglês, hoje, é o melhor do mundo, com folga, porque adotou uma distribuição financeira justa aliada com um rigor administrativo sem precedentes. Enquanto isso, a CBF consegue exaurir uma fonte de talento e de identidade nacional que parecia ser infinita. O futebol brasileiro sobrevive com ajuda de aparelhos, e o reflexo dessa doença fica visível toda quarta e domingo.

Infelizmente, a CBF é uma síntese da sociedade brasileira afundada em um crise ética e moral sem precedentes. Inúmeros dirigentes acusados formalmente de crimes financeiros, sendo que um ex-presidente cumpre pena em território estadunidense. Uma ineficiência administrativa que reflete em um esdrúxulo calendário de competições, um papel secundário e quando muito sofrível perante a Conmebol e uma total desconexão com a realidade econômica brasileira, que imputa aos torcedores, ingressos e preços de camisas impraticáveis para o atual momento. Esses sintomas revelam que o gerenciamento futebolístico brasileiro como se dá atualmente está morto, e juntamente com ele, seu principal órgão administrativo.

(Foto: Divulgação/ Internet)
(Foto: Divulgação/ Internet)

A cura para essa doença passa inevitavelmente pela formação de uma liga pelas principais agremiações do futebol brasileiro. Caso o futebol doméstico continue sendo administrado por uma entidade com valores éticos e morais duvidosos, que protege o monopólio de transmissões de outra entidade igualmente com valores questionáveis, o óbito será uma mera questão de tempo. A reformulação tem de ser profunda, baseada em critério mais justos de divisão de cotas televisivas e concatenada com a realidade da população brasileira, que mais uma vez, paga a conta dessa total irresponsabilidade gerencial. Basta aos preços abusivos de ingressos praticados por todo o país, o futebol é algo formador de caráter, sublime e mágico, portanto, pertencente a todos. A elitização dos estádios é mais um reflexo de como a CBF vem, de maneira sistemática, deturpando e corroendo o maior patrimônio imaterial da nossa nação.

(Charge: Bessinha)
(Charge: Bessinha)

Chegamos ao ponto de ruptura. A manutenção dessa velha e desastrosa prática de gestão pode significar a morte do futebol canarinho. O 7 a 1 foi um aviso, doloroso, de que devemos escolher um novo caminho, adotarmos uma nova postura. O nível do esporte praticado em nossos gramados prova que chegamos a exaustão. Atletas com idade avançada, alguma das vezes superior à casa dos quarenta anos, mantem-se em atividade, justamente porque o nível técnico exigido e desempenhado no Brasil é condizente com sua capacidade física.

A falta de investimento na base e o elevado número de exportação de talentos promissores, juntam-se aos pontos já destacados. O futebol, inúmeras vezes, é o espelho de uma sociedade, e como a nossa, carece de reformas. Mas não de reformas regressivas que cobrem nossas vistas de fumaça. Ele necessita de reformas progressistas, que rearticulem e visem uma melhor prática e, ao mesmo tempo, que redemocratizem o acesso das pessoas a sua singular magia para, então, começarmos a respirar sem a ajuda de aparelhos.

Fontes: ExameEstadãoRTP Notícias, Relatório BDO, Espn

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