Olaria: a ascensão e queda do Azulão da Rua Bariri

Olaria, o autêntico clube de bairro que conquistou o Brasil

Olaria campeão da Taça de Bronze 1981. (foto FutRio)
Olaria campeão da Taça de Bronze 1981. (foto FutRio)
Por: Diego Giandomenico, PR

A minha história com o Olaria não tem nenhum capítulo especial que eu possa contar aqui para vocês. Nunca fui para o bairro, não passei pela sua famosa rua, nem tenho nenhum jogo marcante na memória. O que me faz escrever sobre o Olaria são duas coisas. A primeira é que desde criança há clubes que me chamam a atenção. Portuguesa Santista, Novorizontino, XV de Jaú, Desportiva Ferroviária, Ferroviária de Araraquara, América de São Paulo, Tuna Luso, Nacional-SP, Botafogo-PB e mais um monte. Normalmente são times lado b. O segundo ponto, que tem um pouco a ver com o primeiro, é que o Olaria lembra o meu time, a Juventus da Mooca. Os dois têm uma cor predominante junto com o branco, os dois têm seu estádio conhecido por nome de rua (Bariri e Javari – até rimam), São conhecidos por suas sedes sociais, são times de bairro que já ganharam divisões do campeonato brasileiro e estão encalacrados entre gigantes em suas metrópoles. Muitas coincidências, convenhamos.

Como um bom time de bairro, antes de contar a história do time, temos que contar um pouco do seu bairro. O nome Olaria já diz muito sobre sua origem. Ali, surgiu uma das primeiras olarias do Brasil e desde a construção das primeiras linha ferroviárias da cidade, o bairro foi chamado assim. O bairro, por ser distante do centro, tem seu próprio comércio e vida social, além de um clube de futebol, por que não?

O Olaria foi fundado em 1915 exatamente para representar o bairro em competições suburbanas Os seus fundadores são: Alfredo de Oliveira, Carolino Martins Arantes, Sylzed José de Sant’Anna, Elmano Jofre, Hermogêneo Vasconcellos, Manoel Gonçalves Boaventura, Isaac de Oliveira, Jaci de Oliveira e outros. A medida foi considerada ousada, já que o futebol na época ainda era algo da elite. No começo, os seus jogos eram mandados na Rua Leopoldina Rego. Suas cores eram preto e branco e o escudo original era um losango escrito OFC no centro, Olaria Futebol Clube. Porém, outras atividades foram incorporadas com o passar do tempo e isso mudou algumas coisas. Primeiro, o nome passou a ser Olaria Atlético Clube, as cores passaram a ser azul e branco, o escudo começou a ostentar, além do futebol, o tênis e o escotismo no mar, praticado na antiga praia de Maria Angu.

Antigo cinema de Olaria (foto: Diário do Rio)
Antigo cinema de Olaria (foto: Diário do Rio)

No começo, participou de divisões amadoras, porém quando efetivamente participou da primeira divisão nacional, acabou ficando ao lado de uma nova liga criada no Rio, a Liga Carioca de Futebol. Isso custou um bocado ao Olaria que quase foi extinto quando o campeonato ficou na mão da Federação. Suas atividades voltaram apenas em 1947, em alto estilo, já que foi inaugurado o seu estádio, o Alçapão da Rua Bariri. Nele, eles voltaram à principal divisão estadual, foram terceiros colocados no Campeonato Carioca de 73 (apesar dele estar em obras nessa época) e também conquistaram o seu maior título: a Taça de Bronze de 1981, o único nacional. Para ser bem sincero, seu único título de verdade. Mas ele é essencial para entender um pouco a história do Olaria, já que ele ganhou até um livro, escrito pelo jornalista Marcelo Paes, que narra a aventura do clube após 30 anos de conquista.

Rua Bariri, a casa do Olaria (foto: Mapio)
Rua Bariri, a casa do Olaria (foto: Mapio)

A Taça de Bronze estava em seu primeiro anos em 1981. Foram escolhidos 24 clubes de 18 federações. Quem conhece um pouco o futebol nacional, sabe que nessa época, um pouco graças ao governo militar, a primeira divisão nacional chegou a ter quase 100 clubes. Aos poucos começaram a perceber a loucura que era e organizou divisões. Como organização não é lá nosso esporte favorito, a competição rolou de 8 de março até 1º de maio. Nas duas primeiras fases o bom e velho mata-mata. A terceira foi uma enfadonha fase de grupos, com três times em cada chave. Ao final, o melhor de cada grupo se classificava e realizava a final.

Na primeira fase, o time comandado pelo histórico técnico Duque, enfrentou o Colatina do Espírito Santo. Na primeira partida, vitória fora de casa por 3 a 1. Na volta, empate em casa por 1 a 1. O suficiente para passar. Na segunda fase enfrentou o Paranavaí, que havia atropelado seu conterrâneo, o Madureira, na primeira fase. Mas o Azulão soube se impor vencendo as duas partidas por 2 a 0 em casa e 1 a 0 fora. Na fase de grupos, as coisas não foram simples. Dividindo a chave com São Borja do Rio Grande do Sul e Dom Bosco do Mato Grosso, o Olaria venceu nos critérios de desempate, já que todos no grupo acabaram empatados. Olaria venceu suas duas partidas em casa e perdeu as duas fora. Levou sorte pois São Borja e Dom Bosco empataram ambas as partidas, possibilitando a primeira colocação ao Azulão. Na final, enfrentaria o Santo Amaro, de Pernambuco. Vitória por 4 a 0 em casa e derrota por 1 a 0 fora. O Olaria se sagrava campeão da Taça de Bronze de 81 ou como Marcelo Paes escreveu em seu livro “um dos motivos de manter em pé o pequeno clube da Rua Bariri.”. Sem dúvida a conquista foi extremamente importante. Mesmo que o Olaria tenha disputado o Brasileirão de 73 e 74 e vencido o Santos fora de casa em uma oportunidade, uma conquista sempre lava a alma da torcida. O mais bizarro é que esse título não valeu acesso à Taça de Prata. Aliás, o campeonato foi descontinuado e só voltou a existir em 1988. Ou seja, o Olaria era o único campeão da Série C em oito anos de história de campeonato. O calendário brasileiro já foi bem maluco.

Depois disso, aos poucos, o Olaria foi perdendo sua força. Ainda participou mais quatro vezes (entre 2000 e 2003). Depois disso, veio o rebaixamento no estadual, em 2005. Voltou apenas em 2010, onde ganhou o troféu Mathias Andrade, uma espécie de campeão do interior que fazem em São Paulo e outros estados. Em 2011 voltou a ser campeão da mesma taça e chegou à semifinal da Taça Rio, perdendo para o Vasco. Em 2013, acabou sendo rebaixado e até agora não conseguiu voltar.

Romário no centenário do seu primeiro clube (foto: Olaria Atlético Clube)
Romário no centenário do seu primeiro clube (foto: Olaria Atlético Clube)

Mas o centenário clube da Rua Bariri não é feito apenas de títulos e vitórias, é feito de craques. Alguns grandes nomes passaram por lá. Antônio Lopes, Jair Pereira, Charles Guerreiro, Joel Santana, Pedrinho, Robert e dois mestres: Romário e Garrincha. O primeiro começou a sua história na Rua Bariri, marcando seus 7 primeiros gols de vida profissional. Já Garrincha terminou sua carreira jogando 10 partidas pelo Azulão e balançando as redes por uma vez. Ele não era mais o mesmo, mas virou ídolo para o torcedor do Olaria.

Olaria: o último clube de Garrincha (foto: total football)
Olaria: o último clube de Garrincha (foto: total football)

Atualmente na segundona carioca, o Azulão da Bariri tenta se reerguer. Me lembrando das semelhanças que tem com a Juventus, ela também está na segundona do paulistão, louca para voltar. Ambos são times de bairro, como o meu e o seu. E para um time de bairro, chegar onde chegaram não é nada mal. O Azulão da Bariri vai voltar e honrar o valoroso bairro de Olaria.

Torcida Olaria marca presença na Segundona carioca (foto: 4 BP blogspot)
Torcida Olaria marca presença na Segundona carioca (foto: 4 BP blogspot)

Fontes: Uirauna, OGlobo, ÚltimaDivisão, Nilo Dias, Olaria Atlético Clube

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