Os 15 anos da façanha do XV: a campanha do XV de Novembro na Copa do Brasil 2004

(Foto: Julio Cesar Guimarâes/Lancepress)
Por Pedro Kessler, RS

A Copa do Brasil completa em 2019 seus 30 anos de existência. Desde 1989 o campeonato mais democrático do país, que abrange clubes dos 27 estados da federação, tem agraciado os amantes do futebol com diversas zebras. Em sua terceira edição, em 1991, o já campeão e favorito Grêmio enfrentava a Criciúma, de Santa Catarina. Deu zebra! Criciúma campeão, com Luiz Felipe Scolari na casamata. Em 1999, o Juventude, de Caxias do Sul, eliminou o Fluminense nas quartas, com um 6×0, o Internacional na semifinal, com um 4×0 e derrotou na final o Botafogo, sagrando-se campeão. Nos anos seguintes também houve outras zebras. O Brasiliense foi à final contra o Corinthians em 2002, enquanto Santo André e Paulista foram campeões contra Flamengo e Fluminense, respectivamente em 2004 e 2005. Porém a zebra que falaremos hoje não foi campeã, nem mesmo chegou à final. Nunca participou da Série A do Brasileirão, muito menos da Série B. Falo da jornada épica do XV de Novembro, de Campo Bom, na Copa do Brasil de 2004.

O clube, que já havia conquistado o vice-campeonato gaúcho nos dois anos anteriores, era treinado por um, até então, desconhecido Mano Menezes e tinha como destaque o atacante Dauri, que teve passagem pela dupla Grenal e pelo Botafogo. A equipe estreou na competição nacional contra a Portuguesa Santista, em casa. Levou para o jogo de volta um perigoso 1×1 (gol de Dauri, para o XV), já que o gol fora de casa da equipe paulista dificultava a classificação. Em Santos, uma semana depois, a equipe gaúcha conseguiu um novo empate, agora por 2×2, com dois gols de Nando, carimbando sua classificação para a segunda fase.

A segunda fase é a mais expoente na saga quinzista rumo a sua maior marca. A equipe gaúcha recebeu, em casa, o poderoso Vasco da Gama. Mais uma vez a equipe empatou em 1×1, tendo saído atrás no placar e só igualando graças ao gol do veterano Dauri. No Rio de Janeiro, o XV não tomou conhecimento do Vasco, aplicando um assustador 3×0, com mais dois gols de Dauri e um de Canhoto.

O Rio de Janeiro foi novamente o destino do XV na Copa do Brasil. Na terceira fase, o clube enfrentou o Americano, de Campos. Venceu as duas partidas: fora de casa  por 2×1, com mais um gol do artilheiro Dauri, e Gerson. Em casa, venceu por 3×2, com os gols de Bebeto, Canhoto e… Dauri.

A Copa do Brasil foi afunilando, mas os deuses do futebol vestiam canarinho naquele momento. Nas quartas de final, o XV de Novembro teria que enfrentar o Palmas, de Tocantins. Com o primeiro jogo em casa, a equipe tratou de resolver a questão logo de cara, aplicando mais um 3×0, com gols de Bebeto, Canhoto e Belmonte. Na volta, mais uma vitória. Ainda que pudesse perder por até dois gols de diferença, o XV aplicou o placar mínimo. Uma chance para adivinhar de quem foi o gol: sim, mais um gol de Dauri.

Quando todos imaginavam que o adversário quinzista nas semifinais da competição seria o Palmeiras, que recém regressava à elite do futebol brasileiro, o Santo André também produziu a sua zebra. Desclassificou a equipe alviverde e chegou às semifinais da competição.

Primeiro jogo fora de casa. Pacaembu com 594 pagantes. Chegando a abrir 4×1, o time de Campo Bom permitiu a chegada do Santo André e resultando assim na vitória apertada por 4×3, com gols de Patrício, Dauri e dois de Bebeto. No jogo de volta, no Olímpico, em Porto Alegre, uma invasão amarela tomou conta da cidade. Com um público de quase 10 mil torcedores, tornaram o estádio da capital gaúcha um caldeirão a sua maneira, fazendo jus à fama de Campo Bom, que é a cidade mais quente do estado.

A segunda partida da semifinal começa com um gol de Bebeto, aos nove minutos da primeira etapa. Com isso, a equipe paulista precisava de três gols para avançar às finais. Numa disputa entre um clube com mais experiências em campeonatos mais disputados e outro com experiências mais regionais, o XV não consegui segurar o Santo André. Em noite inspirada de Sandro Gaucho, a equipe paulista venceu por 3×1.

Esse foi o auge da história quinzista. Em 2005, a equipe foi mais uma vez vice-campeã gaúcha, em um dos episódios mais polêmicos da história da disputa do Gauchão.

A equipe de Campo Bom, que perdeu para o Internacional, fora de casa, na primeira partida por 2×0, devolveu o placar em Campo Bom. Na prorrogação, o colorado descontou o placar. Na troca de campo, do primeiro para o segundo tempo, o árbitro Carlos Eugenio Simon não parou o cronometro e contou a troca como tempo de jogo. Aos 13 minutos do segundo tempo da prorrogação, quando o XV fazia pressão na equipe da capital, Simon apitou o final da partida. Até hoje esta partida é assunto para mesa de bar no Rio Grande do Sul.

Em 2006, a equipe foi campeã da Copa Emidio Perondi, campeonato que dava vaga para a Série C do Brasileiro. Também fez ótima campanha na Copa do Brasil, eliminando o Grêmio e chegando até às quartas de final. Em 2007, infelizmente não obteve o sucesso de campanhas anteriores e acabou rebaixado no Campeonato Gaúcho. Sem patrocínio, a equipe encerrou seu departamento de futebol profissional, retornando somente em 2013, vencendo a Terceirona (quarta divisão) do Campeonato Gaúcho. Porém voltou a desativar o departamento profissional em 2015.

A saga do XV de Novembro mostra porque  o futebol é  tão incrível, pois além de ser feito por vitórias, derrotas, empates, alegrias e tristezas, o futebol é feito de histórias. Feliz de quem as vive e de quem as conta.

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