Os 93 anos da Resposta Histórica: a maior glória do Vasco é contra o racismo

Documento, escrito em 1924, irritou os grandes clubes da época - e se impôs como um marco na luta racial no esporte mundial

Os Camisas Negras, quase todos pretos, que deram ao Vasco o campeonato carioca de 1923, o primeiro título de sua história. (Fonte: Reprodução)
Os Camisas Negras, quase todos pretos, que deram ao Vasco o campeonato carioca de 1923, o primeiro título de sua história. (Fonte: Reprodução)
Por Marcelo David, RJ

A formação do Brasil, país racista “pela própria natureza”, é também conhecida pela resistência de seu povo diante da violência de sempre contra as minorias sociais. O futebol, trazido ao país em 1894, apenas seis anos após a abolição da escravidão legalizada (1888), não escapou desse verniz elitista: praticado em espaços refinados, de expressões e gestos ingleses e fidalgos, era um esporte restrito a plateias brancas.

Os negros, arrancados de seu continente de origem, explorados como mercadoria por séculos e, após isso, “libertos” de um sistema que lhes negava a chance de serem humanos, não foram integrados de forma igualitária à sociedade brasileira – cenário que perdura até hoje. Porém, em 1923, no Rio de Janeiro, algo histórico mudaria para sempre os rumos do futebol carioca e brasileiro: a Resposta Histórica.

Naquele ano, o Vasco da Gama, até então um clube do subúrbio do Rio que vinha em franca ascensão, conquistou o primeiro título carioca de sua história. Com um uniforme todo preto, ainda sem a faixa diagonal (no time que entrou para a história como os Camisas Negras), o Vasco quebrava a hegemonia dos clubes da zona sul da cidade, Botafogo, Flamengo e Fluminense, bem como a do America (grafia inglesa, assim mesmo, sem acento), representante da elite do bairro da Tijuca – todos eles clubes grandes onde atuavam somente jogadores brancos.

Já o elenco vascaíno era formado, em sua maioria, por jogadores pretos, pobres, operários e nordestinos. Após uma campanha avassaladora (11 vitórias, 2 empates e 1 derrota), o time se sagraria campeão carioca de 1923 após vencer o São Cristóvão, por 3 a 2, de virada – o que era a tônica de um time que se impunha pela técnica e também pelo vigor, graças a uma novidade trazida ao Rio pelo técnico uruguaio Ramón Platero: a preparação física.

O time do Vasco, sensação suburbana de um campeonato elitizado, passou a incomodar: no ano seguinte, Flamengo, Fluminense e Botafogo abandonaram a Liga Metropolitana e, apoiados por outros clubes, criaram a Associação Metropolitana de Esportes Atléticos (AMEA). O estatuto da nova entidade revelava, contudo, o caráter racista e excludente da manobra: o regulamento da AMEA impedia a inscrição de clubes com jogadores “sem profissão definida” e analfabetos – em uma sociedade cuja taxa de analfabetismo alcançava criminosos 65% da população brasileira nos anos 1920, segundo dados do IBGE.

E é isso mesmo: há quase um século, mais da metade dos brasileiros não sabia ler e, por isto, estava impedida de jogar futebol na cidade do Rio de Janeiro. Tais medidas visavam barrar o avanço do emergente Vasco: entre elas também havia uma regra que proibia clubes sem estádio de participarem do campeonato, e os cruzmaltinos não o tinham, mandando seus jogos no estádio do America, na Tijuca.

Ao receber o pedido de inscrição dos vascaínos, a AMEA impôs uma condição: a exclusão de 12 jogadores de seu elenco – todos pretos e/ou pobres. Em resposta, o Vasco redigiu uma carta em que o presidente do clube, José Augusto Prestes, recusava a proposta. Nascia assim a Resposta Histórica, a maior glória da história vascaína, e um dos movimentos antirracistas mais importantes do esporte em todo o mundo. Abaixo, o documento:

A Resposta Histórica: o passo definitivo do Vasco da Gama rumo à grandeza. (Fonte: C.R. Vasco da Gama/Site Oficial)
A Resposta Histórica: o passo definitivo do Vasco da Gama rumo à grandeza. (Fonte: C.R. Vasco da Gama/Site Oficial)

E nestes termos, a inscrição do Vasco foi negada. Em 1924, os grandes clubes jogaram o campeonato da AMEA, enquanto os cruzmaltinos participaram do campeonato organizado pela abandonada Liga Metropolitana. Vítima do racismo, o Vasco acabou sendo aceito pela AMEA no ano seguinte, em 1925, mantendo todos os seus jogadores no elenco. Porém, ainda havia uma regra na AMEA que ameaçava a participação do Vasco: a que impunha restrições à participação no campeonato de clubes sem estádio.

Dessa forma, o Vasco decidiu iniciar uma ampla campanha de arrecadação visando a construção de um estádio próprio. Não se sabia mas, naquele momento, após os Camisas Negras e a Resposta Histórica, o Vasco dava mais um passo contra o racismo: surgia o Estádio de São Januário.

O episódio mostra a coragem de um clube que, contra tudo e todos, resolveu dizer “não”. A Resposta Histórica, hoje exposta na sala de troféus de São Januário, é um contundente enfrentamento ao racismo e ao classismo no futebol, ajudando-o a se consolidar, a partir daí, como um esporte popular e das massas, traço fundamental da cultura brasileira.

No fim das contas, a maior glória da história vascaína é uma vitória de todos e todas nós, torcedores e torcedoras de todos os times, que lutam por um futebol e uma sociedade cada vez mais decentes.

Fontes: Club de Regatas Vasco da Gama, IBGEBiblioteca Nacional.

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