Os templos esquecidos do futebol carioca

Uma das manchetes mais repetidas dessa temporada, é sobre a falta de estádios para os times do Rio de Janeiro. Mas não é de hoje que todos sabiam que o Maracanã e o Engenhão estariam fechados boa parte do ano devido as Olimpíadas, e que isso obrigaria aos times sem estádio a procurem uma solução para mandar seus jogos. A situação foi tão crítica que o Campeonato Carioca teve jogos disputados em Manaus, Brasília e até São Paulo.

Independente da falta de organização habitual dos clubes do Rio, o descaso pelos históricos e antigos estádios pertencentes aos clubes menores é algo que revolta até mais. Durante anos o Cariocão era disputado em vários campos da cidade, onde sempre foi muito comum assistirmos aos times grandes disputando jogos em Campo Grande, Olaria, Madureira e Bangu, com partidas televisionadas e tudo mais.

A gourmetização do futebol afastou os clubes dos seus torcedores, grandes estrelas como Romário, Renato Gaúcho, Edmundo, Zico, Roberto Dinamite, Garrincha e tantos outros, arrastavam verdadeiras legiões de aficcionados por futebol para os bairros mais afastados da cidade, onde muitas vezes a torcida era para o time do bairro.

Há pouco mais de 15 anos, muito por ordem dos grupos que controlam os direitos televisivos, houve uma grande pressão para que os chamados “grandes”, não disputassem mais partidas nesses estádios. Eles jogariam apenas no Maracanã, Engenhão, São Januário e em outros 4 estádios determinados, alguns até menores mesmo, mas isso obrigou os times pequenos a jogarem longe dos seus campos. Com isso, automaticamente a arrecadação deles diminuiu de forma brutal, impossibilitando um maior investimento na manutenção desses palcos que um dia foram tão importantes para o futebol. Algo que também refletiu na decadência de algumas dessas equipes dentro do cenário regional.

Agora, se lá atrás o tão democrático campeonato carioca não tivesse modificado sua essência e continuasse atuando nesses estádios, será que a falta do Maracanã “Gourmet” seria tão sentida? E vamos lembrar que o Flamengo jogava no Estádio da Gávea, assim como o Fluminense, que já disputou até final de Copa do Brasil no histórico Estádio das Laranjeiras, e sem esquecer do Botafogo, que utilizou toda a força do Caio Martins quando precisou voltar para a primeira divisão em 2003.

Então vamos conhecer alguns dos palcos esquecidos em prol do futebol de arena!

Italo del Cima
Capacidade: 18.000 pessoas
Público Recorde: 16.842 pagantes (Campo Grande 3 x 0 CSA, pela decisão da Taça de Prata de 1982)

Estádio Ítalo del Cima (Foto: Jornal Extra)
Estádio Ítalo del Cima (Foto: Jornal Extra)

O Campo Grande, time da Zona Oeste do Rio de Janeiro, já teve seus dias de glória. O time campeão da Taça de Prata de 1982, a segunda divisão da época, não disputa uma competição oficial desde 2014, quando jogou pela última vez a terceira divisão carioca. O campusca, como é conhecido, já incomodou muito aos grandes do estado, principalmente no início dos anos 90. Seu estádio, o Ítalo del Cima, abrigou diversos jogos importantes, inclusive um Fla-Flu no campeonato brasileiro de 1992, ano em que o Maracanã estava fechado para reformas. Hoje a fase decadente do clube se reflete diretamente em seu estádio.

O Campo Grande já teve Roberto Dinamite jogando com a sua camisa, e sua estréia pelo alvinegro foi motivo de festa para a torcida do campusca!

Rua Bariri
Capacidade: 5.141 (Atual, porém com reformas a previsão é de 12.000 lugares)
Recorde de público: 18.500 pagantes (Flamengo 3 x 1 Olaria, campeonato carioca de 1997)

Estádio Mourão Vieira Filho (Foto: FutRio)
Estádio Mourão Vieira Filho (Foto: FutRio)

O Azulão da Leopoldina tem orgulho de ter marcado a história de dois dos maiores jogadores da seleção brasileira. Descobriu um certo baixinho marrento para o futebol, ninguém menos que Romário, e foi o clube em que Garrincha fez a sua despedida dos gramados. Seria impossível o clube do bairro de Olaria não morrer de orgulho do seu estádio, que por décadas recebeu Vasco, Fluminense, Botafogo, e o Flamengo, recordista de público do “Alçapão da Leopoldina”. No campeonato brasileiro de 1996, o Vasco teve que mandar um de seus jogos em casa na Rua Bariri, devido a problemas com o gramado de São Januário. Nessa partida, quase 10.000 torcedores assistiram ao clube cruzmaltino vencer o Guarani por 2 a 0.

Conselheiro Galvão
Capacidade: 8.000
Recorde de Público: 11.714 (Madureira 1×1 Fluminense, campeonato carioca de 1981)

Estádio Conselheiro Galvão, em Madureira (Foto: Futrio)
Estádio Conselheiro Galvão, em Madureira (Foto: Futrio)

O famoso estádio da Rua Conselheiro Galvão, localizado no coração de Madureira, recebe todos os jogos com mando de campo do time da casa. Inclusive, essa é uma das forças do clube do subúrbio carioca contra seus adversários, já tendo derrotado diversas vezes os times grandes quando joga em seus domínios. No campeonato carioca de 2015, o tricolor suburbano não perdeu nenhuma partida para os grandes jogando em casa.

Moça Bonita
Capacidade: 15.000
Recorde de Público: 32.700 (Bangu 1×1 Seleção Brasileira, amistoso em 1970)

Estádio Proletário Guilherme da Silveira Filho (Foto: Divulgação)
Estádio Proletário Guilherme da Silveira Filho (Foto: Divulgação)

Esse é um daqueles estádio brasileiros que já chama atenção pelo curioso nome, o Moça Bonita fecha com chave de ouro essa pequena série sobre os grandes templos do futebol carioca, já que a história cheia de glórias do Bangu Atlético Clube, não seria a mesma sem o seu famoso estádio. Nele já foram disputados diversos jogos da primeira divisão de campeonato brasileiro, e só não recebeu jogos da Libertadores da América de 1986, porque o Bangu mandou seus três jogos no Maracanã. Mas a história reservou pelo menos uma Supercopa da Libertadores para o charmoso estádio da Zona Oeste carioca, isso aconteceu em 1992, quando o Flamengo teve que mandar seus jogos no torneio enquanto o Maraca estava em obras.

Enquanto o Botafogo joga no distante Los Larios, estádio que fica à 50km de distância do Rio de Janeiro, onde não existe nem ao menos sinal de telefone,  Flamengo e Fluminense se revezam para jogar no Estádio da Cidadania em Volta Redonda, com médias de público abaixo dos 4 mil torcedores por jogo, temos pelos menos 4 estádios que se bem cuidados, poderiam tranquilamente receber jogos da Série A do campeonato brasileiro. Todos com boa localização, próximos a regiões populosas e estações de trem para que o público possa acessá-los. O futebol do Rio de Janeiro não está se afastando apenas do seu público, está deixando de lado a sua história.

Nos últimos dias, o Botafogo confirmou que irá utilizar o Estádio Luso Brasileiro, na Ilha do Governador, assim como fez em 2005. As obras já estão se iniciando, mas a previsão é que o clube alvinegro atue lá apenas no segundo turno, algo que pode ser tarde demais para a sua campanha nessa temporada. O estádio da Portuguesa Carioca, com certeza é um desses que merece estar nessa galeria histórica dos grandes templos do futebol.

 

Texto: Wagner Ponce @wagnerponce

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