Óscar Tabárez: os ensinamentos do Mestre

Independente das suas dificuldades físicas, o treinador uruguaio é a grande força de sua seleção

Óscar Tabárez, técnico da Seleção Uruguaia (Foto: AFP /Martin Bernetti)

Disputando a sua quarta Copa do Mundo, o técnico Óscar Tabárez é o exemplo da garra uruguaia no Mundial da Rússia. Sob o seu comando, mesmo com muitas dificuldades para se locomover à beira do campo, ele conseguiu levar a seleção do seu país mais uma vez a classificação para a fase de oitavas de final da competição.

Aos 71 anos de idade, Tabárez é o treinador mais velho da Copa. Portador da Síndrome de Guillain-Barré, doença autoimune que afeta o sistema nervoso e provoca fraqueza muscular a até paralisia, pode ter sua carreira de muito sucesso abreviada após onze anos à frente da Celeste Olímpica. El Maestro, como é conhecido, despista sobre a sua saúde, diz que consegue trabalhar normalmente e que nada atrapalha o seu desempenho na função de treinador. Tanto que na última Copa América fez uso até de um carrinho elétrico para que o ajudasse nos treinamentos do Uruguai.

Óscar Tabárez em um dos treinamentos do Uruguai na última Copa América (Foto: Reuters)

Em seu país, os rumores sobre a sua saída após o Mundial são grandes, mas foram deixados totalmente de lado com a proximidade da Copa do Mundo e, principalmente agora, após as duas vitórias e a classificação para as oitavas de final. El Maestro tem uma aceitação quase unânime dentro de seu país, e chegou até a mobilizar um grupo grande de torcedores que vão vestidos com uniformes escolares para torcer nos jogos do Uruguai na Rússia. Mesmo após duas vitórias de 1 a 0 contra seleções, teoricamente, mais fracas em seu grupo. Foi a primeira vez em sua história que a Celeste venceu seus três jogos no grupo, algo que elevaria ainda mais a idolatria por Tabárez.

Para que se entenda a forma como é chamado o técnico uruguaio, Óscar Tabárez exerceu a profissão de professor durante muitos anos, e é um grande apaixonado pela arte de lecionar. Tanto que no início da sua carreira, chegou a conciliar a profissão com a vida de jogador de futebol. Devido a uma lesão grave no joelho, teve que abandonar os campos, mas continuou a dar aulas na periferia de Montevidéu até retornar ao futebol, dessa vez como treinador. Mas sua formação até hoje chama a atenção dos jornalistas que cobrem sua seleção, o que só fortalece sua fama de mestre ou professor, tradução do seu apelido.

Tabárez nos tempos em que ainda alfabetizava crianças (Foto: Reprodução)

A coisa mais importante é que ele conseguiu que jornalistas estrangeiros – aqueles que não entendem como um país com apenas 3,5 milhões de habitantes tem tantos grandes jogadores e uma história de se fazer inveja dentro do futebol – se entusiasmem, porque para eles era como se Tabárez os iluminasse para descobrir o gene celeste e entender o incompreensível.

“Desde o início do futebol somos uma potência no mundo. Nós vencemos os Jogos Olímpicos de 1924 e 1928, o que significou títulos mundiais, já que naquela época não havia a Mundial organizado pela FIFA. Em seguida, as Copas do Mundo de 1930 e 1950 foram conquistadas, mas desde então isso foi perdido entre as gerações. Uma das coisas que nos perguntamos quando não estávamos trabalhando, tempo em que preparamos o que foi nosso projeto a partir de 2006, foi como faríamos para recuperar esse fio, e neste momento acho que, modestamente, podemos dizer que conseguimos porque somos uma equipe difícil para quem nos enfrenta. O Uruguai está ao lado da Argentina e do Brasil, somos um país sul-americano com cultura do futebol; mas com inúmeros problemas sociais em comum. Na Europa, eu diria que Inglaterra, Alemanha e Espanha podem ser colocadas no mesmo patamar que o nosso no futebol, mas se nós sul-americanos não tivéssemos tantos problemas, incluindo nós uruguaios, o cenários mundial do futebol poderia ser muito mais favorável a nós”, disse ele.

Óscar Tabárez na coletiva de imprensa após a classificação uruguaia (Foto: AFP)

Para completar a coletiva pós jogo, Tabárez exalta o sentimento que desperta dentro de si mesmo pelo que a Copa proporciona ao seu povo. “Sinto orgulho de como o futebol é vivido no meu país. Espero que possamos continuar ganhando e gerando grande comoção como a que aconteceu depois da África do Sul, quando uma senhora com mais de 80 anos escreveu-me uma carta dizendo que odiava futebol, mas depois de ver o que havíamos feito ela sentiu um desejo incontrolável de sair abraçar cada um dos uruguaios “, disse o professor para uma “plateia” de jornalistas, com admiração em muitos casos, que o escutava atentamente.

Ele confessou que os jogadores de futebol estão cientes do que eles geram no público uruguaio e que eles o transformaram em algo positivo e não emocionalmente carregado. “Os jogadores conhecem o sentimento gerado pelo futebol no Uruguai porque conversamos muito e faz parte da motivação deles no campo, e é atrás disso que a Celeste vai atrás.”

Óscar Tabárez transformou uma sala de imprensa em uma classe de universidade, onde os comentários sobre a partida acabaram se tornando irrelevantes ao final de uma aula de cultura e política sobre o futebol.

Ao final da Copa, independente da classificação final da Seleção Uruguaia, o técnico de 71 anos pode estar definitivamente trocando o futebol pelo convívio mais afinco com a sua família, mas o legado deixado ao longo dos seus 38 anos de carreira como técnico, tendo passando por clubes pequenos como o pequeno Bella Vista do Uruguai ou de gigantes como Boca Juniors, Peñarol e Milan, até o seu ápice diante da histórica Celeste Olímpica, nunca serão esquecidos. Nem mesmo os jornalistas que estiveram por perto ou pelo menos em uma coletiva irão deixar de lembrar os ensinamentos do Mestre Tabárez.

Fonte: Ovación, Clarín, Tenfield, GloboEsporte.com

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