Ouvi o Tricampeonato do Grêmio no radinho, no templo Angkor Wat, no Camboja

Angkor Wat | Camboja | Nov. 2017
IPor: Marcella Lorandi | RS

A mudança do formato da Copa Libertadores da América e um mochilão planejado para o fim do ano de 2017. A saga para acompanhar o os passos finais do Grêmio em busca do tricampeonato estando do outro lado mundo.

Me despedi do Grêmio na Copa Libertadores quando avançamos a semifinal, foi contra o Botafogo, no dia 20 de setembro, na Arena do Grêmio. A eliminação na Copa do Brasil contra o Cruzeiro era recente, algo precisava ser provado, então Lucas Barrios fez questão de provar, com único gol a vaga ficou do lado da tradição em copas. Naquela época ainda nem queríamos acabar com o planeta, mas estávamos muito perto disso.

Embarquei para a África do Sul no dia 22 de outubro, e por puro capricho do destino não consegui ver os próximos passos como gostaria. Trouxe todas as camisas que mais revelaram sinais de sorte junto comigo na mochila, que não fosse por falta de superstição, que não fosse por culpa minha.

26 de outubro de 2017: partida de ida da semifinal contra o Barcelona de Guayaquil. No mesmo tempo que a bola rolava no Estádio Isidro Romero Carbo, no Equador, eu sobrevoava o continente africano, saindo de Joanesburgo, na África do Sul, com conexão em Dubai, e destino final em Sydney, na Austrália. Horas e mais horas no céu, sem nenhuma forma de comunicação, dormindo, acordando e procurando alguma notícia naquela pequena tela disponível nos acentos. Sem esperança e sem sucesso. Afinal, pior do que já estarmos atrás no placar, é não ter conhecimento disso. 8h20 da manhã nos Emirados Árabes Unidos, 2h20 da madrugada no Brasil, pouso tranquilo em Dubai, temperatura suportável, densidade do ar adequada, Wi-Fi para descobrir o placar encontrada. Grêmio três gols fora de casa. Barcelona zero. Procurei uma Heineken para beber e comemorar sozinha, 15 dólares a longneck, optei por uma Coca Cola. No grandioso aeroporto de Dubai eu andei com a camisa tricolor cheia de orgulho, mesmo que ninguém mais além de mim soubesse do que se tratava.

1 de novembro de 2017: jogo de volta, fuso horário de Sydney, 11 horas a mais que o Brasil e partida ás 8h45 da manhã. Acompanhar o Grêmio em solo canguru foi fácil, os muitos brasileiros que vivem na Austrália idealizaram o Consulado Gremio Sydney, procurei essas pessoas e fui convidada a assistir a partida no Cheers Bar, um famoso pub na área central de Sydney, que com certeza já virou Grêmio, talvez não por gosto ou entendimento, mas por admiração aos seus devotos. E foi lá que eu me senti em casa, vários gremistas também longe de casa, cerveja acessível, barras tricolores penduradas nas paredes e instrumentos musicais, estava formado o descontrole. Se fora de campo cada um dava o seu jeitinho para fazer parte do espetáculo, dentro de campo derrota tricolor, mas vaga garantida a final. Fiz amigos naquela manhã de quinta-feira, e acho que encontrei o meu próprio sentido para a frase tão pronunciada: “viva o Grêmio e sua gente”.

Ah a final! Não chegávamos tão longe desde 2007, o destino queria mesmo mexer com o emocional gremista. Afinal, desde 2007 os anos não foram lá muitos fáceis, então, exatos dez anos depois estávamos ali, com chances reais de erguer pela terceira vez na história o peso da América. Dessa vez nenhum Riquelme pela frente, nenhuma tradição maior que a nossa, nenhuma camisa mais respeitada que a do Grêmio. Chegamos com clube e torcida jogando juntos na missão acabar com o planeta.

22 e 29 de novembro de 2017: Estava marcado. Sem escapatória, eu não estaria nem perto do Brasil nesses dias. As duas quarta feiras de aproximavam e meu mochilao, indicava Vietnã e Camboja como próximos destinos.

22 de novembro de 2017: primeiro jogo da grande final contra os argentinos do Lanus. Ingressos esgotados, e a Arena do Grêmio era o único lugar no mundo que todo gremista gostaria de estar. Eu também. Mas um roteiro com meses de planejamento me colocou na cidade de Hue, no Vietnã. A cidade pequena e famosa por ter sido casa do império vietnamita pouco liga para o futebol, pouco sabe o peso de uma final de Libertadores, e tampouco está preocupada se tem gremistas a fim de acabar com o planeta. Hue é um amor cidade, e o máximo que consegui foi uma boa Wi-Fi para ouvir a narração fervorosa de Pedro Ernesto Denardin, na Radio Gaúcha. Minutos finais do segundo tempo, gol do Grêmio, uma felicidade só minha, como um lobo solitário comemorando algo que ninguém mais ao meu redor sabia do que se tratava. Agora sim, só faltavam 90 minutos para o fim oficial do planeta.

29 de novembro de 2017: nunca uma Libertadores durou tanto, e até que enfim era o fim. Daqui desse cantinho da Ásia eu posso imaginar o quanto o dia se estendeu, as horas se arrastaram e o quanto sob Porto Alegre pairou um clima diferenciado, um clima de final de Copa Libertadores da América. Eu ouvi esse jogo, e com mais uma sorte do destino, meu plano de internet faz cobertura no Camboja. Eu ouvi Fernandinho marcar numa final de copa em solo argentino diretamente do templo Angkor Wat, em Siem Reap, no Camboja, declarado Patrimônio da Humanidade, pela Unesco. A essa altura eu já pedia a benção dos monges que circulavam por lá. E mais uma vez eu carregava orgulhosa as três cores que me vestiam, mesmo que só eu soubesse o que significa o azul, o preto e o branco. Então, gol do Luan, o nosso guri, o menino do Grêmio.

Durante o intervalo, quando a torcida já havia esquecido qualquer resquício de razão e vivia somente, e tão somente de emoção, minha transmissão no radinho foi interrompida por uma ligação no FaceTime. Meu pai. Colorado. Me ligou por vídeo para me mostrar os melhores momentos na televisão, ele sabia que estava sendo difícil, e só um amor tão grande de um pai por uma filha é capaz de fazer essa rivalidade descansar um pouco pra ver o sorriso no meu rosto. “O do Fernandinho foi uma bucha”, disse ele, “mas o do Luan foi um golaço”, observou. Eu me derramei em lágrimas, pelo momento, pela atitude, pelo tricampeonato e por tudo mais que eu senti nesse dia.

Eu sonhei. Torci. Pedi aos deuses e aos monges. Chorei. Mais uma vez ninguém ao meu redor entendeu, mas essa paixão não quer ser compreendida, ela só quer a insanidade de ser sentida pela nossa gente.

Acabamos. Acabamos em Porto Alegre, em Buenos Aires, no interior, na fronteira, em Sydney, no Vietnã, no Camboja, e onde mais alguém vestir as três cores. Afinal, como já canta essa torcida apaixonada, numa das melhores versões de Despacito: não há distância que possa nos separar, desde que nasci sou tricolor.

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