Paraná Clube e seus muitos pais

Entenda de uma vez por todas como foi o histórico de fusões que formaram o Paraná Clube

Paraná Clube e o seu primeiro título em 1991. (foto: PRCpédia)

Imaginem se Grêmio e Internacional se fundissem para formar uma força maior, ou Corinthians e Palmeiras buscassem uma hegemonia nacional e juntassem forças, ou Flamengo e Vasco deixassem suas rusgas de lado e tentassem combinar forças para ganhar tudo. Isso seria impossível, né? Pois saiba que tem um clube que fez isso e deu muito certo para os seus padrões. Esse clube é o querido Paraná Clube.

Claro, a comparação é exagerada, mas a união que formou o Paraná Clube veio de dois clubes relativamente tradicionais no cenário regional, apesar de suas curtas existências: Pinheiros e Colorado. Até aí não tem muito segredo para ninguém. O que talvez você não saiba, é que esses dois clubes também vieram de fusões. Tem Britânia, Água Verde, Ferroviário, Savóia, Palestra Itália e muito mais. Vamos tentar explicar um pouco dessa maluca do clube curitibano.

O Paraná Clube nasceu oficialmente em 19 de dezembro de 1989. Mas suas raízes datam de 1914, ano do amistoso entre as equipes do Tigre Futebol Clube e Leão Futebol Clube – time da empresa Mate Leão – num churrasco no quarteirão do tigre, localizado na Rua João Negrão com a Desembargador Westphalen. Lá, Carlos Thá teve a ideia de unir as equipes e formar o Britânia Sport Club no dia 19 de novembro de 1914. Tigre também foi o apelido dado à equipe, que trajava o vermelho e branco em seu uniforme e que conquistou muito títulos entre as décadas de 10 e 20.

Ao todo foram 7 campeonatos paranaenses e 7 torneios início. Em seu currículo, além dos títulos, tem resultados expressivos contra grandes times. Em 1925, numa excursão ao Rio de Janeiro, enfrentou Botafogo e Vasco da Gama. Empate com o primeiro em 1 a 1 e vitória contra o segundo: 2 a 0. O Britânia passou por muitos estádios, porém sempre com o mesmo nome: Estádio Paula Soares – médico do exército brasileiro. O último deles era localizado na Avenida Comendador Franco (atualmente é o hipermercado BIG).

Estádio do Britânia, o Paula Soares (foto: blog historia do paraná clube)
Estádio do Britânia, o Paula Soares (foto: blog historia do paraná clube)

A decadência do Britânia se deu exatamente pelo surgimento daquele com quem se fundiria anos mais tarde, o Clube Atlético Ferroviário, fundado em 12 de janeiro de 1930. O Britânia tinha muito apoio da Brazil Railway, contava com jogadores afrodescendentes de lá (algo raro na época) e a com a torcida dos funcionários. Por uma cisão interna no Britânia, alguns membros criaram uma equipe genuinamente dos ferroviários e tudo passou para o lado do Clube Atlético Ferroviário, mais conhecido como Boca Negra – devido ao apoio de torcedores negros. Foi através deles que surgiu o atual estádio do Paraná Clube, a Vila Capanema, construída na década de 40 como o mais moderno estádio do Paraná. O Ferroviário fez bastante sucesso, foi campeão por 8 vezes do campeonato paranaense (37-38-44-48-50-53-65-66). Dois títulos por década. O Ferroviário foi o primeiro participante paranaense da saudosa Taça Gomes Pedrosa. Com dificuldades financeiras, o clube decidiu se fundir com seu antigo formador, o Britânia e também com um clube de imigrantes italiano, o Palestra Itália.

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Clube Atlético Ferroviário foi 8 vezes campeão estadual (foto: cecallain)

O clube de origem italiana, talvez não tenha tido o sucesso de seus homônimos de São Paulo e Belo Horizonte, mas conquistou 3 vezes o campeonato estadual (24-26-32). Foi fundado por imigrantes italianos na Sociedade Dante Alighieri de Curitiba, no dia 07 de janeiro de 1921. O clube ficou conhecido por seu grito de guerra “Nem que Morra”, pelas duas maiores goleadas já registradas no campeonato estadual (16 a 0 e 15 a 2) e por ser perseguido durante a época da Segunda Guerra Mundial. Trocou de nome diversas vezes durante o período. Primeiro se chamou Paranaense, depois Comercial, ainda Palmeiras, até que em 1950 voltou a se chamar Palestra Itália. Porém, nunca mais foi o mesmo e deixou de operar profissionalmente em 1967. Só voltaria aos holofotes em 1971, quando participou da fusão que criaria o Colorado. Mas antes de falarmos do Colorado, vamos falar das fusões que deram origem ao Pinheiros.

No mesmo ano que era fundado o Britânia, outras duas equipes nasceram na capital paranaense: Savóia Futebol Clube e Esporte Clube Água Verde. Em 14 de julho de 1914, na chácara das Meira, um grupo jovens criou um clube para unir a juventude do Água Verde e do Borgheto. Assim surgiu o Savóia Futebol Clube. A equipe, conhecida como Leão do Água Verde, mandava seus jogos no Estádio Joaquim Américo, atual casa do Atlético Paranaense. O nome prestava uma homenagem a Casa Real D’Itália. Suas cores naturalmente eram as mesmas da bandeira italiana. Durante seu período profissional, conquistou 2 vezes o vice-campeonato estadual (22-25).

O Esporte Clube Água Verde foi fundado em 17 de dezembro de 1914, no mesmo bairro que o Savóia. O alviverde curitibano disputou uma vez o campeonato paranaense em 1920, terminado em terceiro lugar. Depois disso, se uniu ao Savóia passando a se chamar Savóia-Água Verde.  Entre a década de 30 e 40, o clube apenas disputava amistosos. Porém em 1942, devido à Segunda Guerra Mundial, teve que trocar o seu nome. O escolhido foi Esporte Clube Brasil. Mas durou apenas dois anos, já que o governo proibiu o uso do mesmo. Então, ficou decidido que o clube se passaria a chamar novamente Esporte Clube Água Verde. E sob esse nome conquistou o campeonato estadual de 1967. O campo que o Água Verde jogou foi o Orestes Thá, na Vila Guaíra. Em 1971, o Água Verde adotou as cores azul e branco e passou a se chamar Pinheiros.

Escudos dos clubes que originaram o Paraná (foto: esportes Terra)
Escudos dos clubes que originaram o Paraná (foto: esportes Terra)

Agora falaremos dos dois clubes que originaram o Paraná Clube de fato. Primeiro, o Colorado.

Como já explicamos, o Colorado é a fusão de três clubes: Palestra Itália, Ferroviário e Britânia. O Colorado Esporte Clube surgiu em 29 de junho de 1971. Herdou as cores do Britânia (vermelho e branco), o apelido do Ferroviário (Boca Negra) e o estádio do Ferroviário também, a Vila Capanema. O nascimento da equipe, ao contrário do que uma fusão sugere, não fortaleceu o clube, já que os funcionários da rede ferroviária, se negavam a aceitar o clube, dizendo que o Colorado iria acabar para a volta do Ferroviário. Mesmo assim, o Boca Negra caiu nas graças da parcela mais humilde e ganhou muitos adeptos. Na década de 70, dominada pelo Coritiba, o Colorado foi 4 vezes vice-campeão estadual, sendo um dos únicos a fazer frente ao Coxa Doido no estado. A curta trajetória do Colorado teve um título, ou melhor, meio título.

No paranaense de 1980, o Colorado precisava fazer 5 a 0 no cascavel para se sagrar campeão. Quando o jogo estava em 2 a 0, o Cascavel já estava com dois a menos, na volta do vestiário mais dois não voltaram e o goleiro Zico – que seria contratado pelo Colorado –  simulou uma contusão para a partida acabar. Então foi decidido que o título deveria ir para as duas equipes. Uma decisão muito sensata na cabeça dos comandantes do nosso futebol. Muitos craques passaram por lá, como: Marinho, Edu Antunes – irmão do Zico –, Chico Fraga e Geraldão foram alguns deles. A história mais famosa do clube, porém, é um fato inusitado. Num jogo contra o Botafogo no Maracanã, quando a bola rolou para o segundo tempo, o goleiro Zico do Colorado ainda não tinha voltado para o campo, entrando alucinadamente sem permissão enquanto o Botafogo tentava fazer um gol sem o goleiro. Que homem. No final da década de 80, o clube se encontrava em grandes dificuldades financeiras e apelou até para a construção de kartódromo em volta do campo da Vila Capanema para tentar angariar fundos. Em vão.

Colorado campeão paranaense de 1980 (foto: blog retrato na parede)
Colorado campeão paranaense de 1980 (foto: blog retrato na parede)

Já no lado azul da história, o Pinheiros surgiu do Água Verde, em 12 de agosto de 1971, através de um plebiscito que mudava o nome do clube de Esporte Clube Água Verde para Esporte Clube Pinheiros. Na década de 80, conquistou dois campeonatos paranaenses (83-87) e também construiu a Vila Olímpica do Boqueirão, o seu estádio na fase final de existência. O Pinheiros tinha um grande patrimônio com parque aquático, ginásio de esportes, parque campestre e o Estádio Orestes Thá. Apesar de seu relativo sucesso e do seu poderio patrimonial, o Pinheiros não tinha algo que é essencial a um clube, torcida. Após fazerem uma pesquisa, descobriram que demoraria em torno de 20 anos para conseguirem reunir uma torcida expressiva. Assim começaram os pensamentos em juntar com o Colorado, já que eles tinham de sobra esse último elemento de uma equipe vencedora que faltava ao Pinheiros. Então, em 19 de dezembro de 1989, o falido e popular Colorado se uniu ao rico e sem torcida Pinheiros para formar o Paraná Clube. O clube que já nasceu gigante, como diz o seu hino.

Torcida não era o forte do Pinheiros (foto: blog historiador do futebol)
Torcida não era o forte do Pinheiros (foto: blog historiador do futebol)

E, a princípio, a fórmula deu muito certo. Aproveitando o péssimo momento de Atlético e Coritiba, o Paraná foi campeão em 91 e penta campeão consecutivo entre 93 e 97. Além disso, Subiu para a primeira divisão do campeonato brasileiro em 1992, sendo campeão em cima do grande Vitória do começo da década de 90. De lá para cá o status de clube rico, bem sucedido e popular acabou. O que sobrou foram dívidas e uma sequência de 9 anos seguidos na Série B. Mas isso fica para uma outra história.

Fatos Curiosos

– Os clubes que deram início ao Colorado e ao Pinheiros surgiram no mesmo ano, 1914.

– Pinheiros e Colorado também surgiram no mesmo ano, 1971.

– Os clubes resultantes da fusão do Paraná Clube representaram os seguintes bairros curitibanos: Água Verde, Boqueirão, Rebouças, Portão, Guabirotuba, Guaíra e Tarumã.

– Se fossem contados os títulos conquistados pelos clubes que formaram o Paraná Clube, o clube teria 29 estaduais, à frente do Atlético, com 23 taças,  mas atrás do Coritiba, que tem 37.

 

Texto por Diego Giandomenico

 

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