Pinheirão: o maior cemitério poliesportivo do Brasil

Complexo Esportivo Pinheirão. Ou o que sobrou dele. (foto: Gazeta do Povo)
Por: Diego Giandomenico, PR

É complicado chamar o Complexo Poliesportivo Pinheirão de Templo do Futebol. Ninguém gostava dele. Era longe para a maioria das pessoas, a arquibancada ficava a quilômetros do gramado e todo o jogo que eu vi lá parecia fadado a ser um tremendo porre.

Me lembro bem de um jogo que assisti lá. O ano era 1996, mais especificamente 31 de agosto. Eu fui com meu tio e minha irmã – corintianos fanáticos – acompanhar o Timão em terras paranaenses. O estádio, o tal do Pinheirão. Meu pai era sócio do Pinheiros, depois acabou por osmose se tornando paranista. Eu já não o tinha mais por perto, mas ainda alimentava uma certa simpatia pelo clube, porém, a paixão de irmã falou mais alto e ficamos lá no meio da Gaviões da Fiel. Era curva norte, na entrada principal. Diz a lenda que ele havia sido reformado e as arquibancadas estavam mais próximas do campo. Para mim, uma criança de 9 anos de idade, continuava absurdamente longe. O jogo não era nada empolgante, inclusive dando a deixa para o tio brincar com um membro da Gaviões que dormia na volta do intervalo: “Puta, gol do Paraná”, o homem olhou assustado e logo percebeu a brincadeira do meu tio, que sorriu e disse: “Presta atenção no jogo, negão”.  No fim, Souza fez o gol que daria a vitória ao Timão. Um breve suspiro de ânimo ali. Não me surpreendo em ver o Pinheirão ao estado que chegou.

Acreditem, era horrível assistir um jogo aí (Foto: Paraná Clube)
Acreditem, era horrível assistir um jogo aí (Foto: Reprodução/Paraná Clube)

O fato que todo estádio precisa de alma. E a alma de um bom estádio é a sua torcida. O problema nem está no Pinheirão ter se tornado um centro poliesportivo. Outras praças são e continuam firmes e fortes. Nem mesmo o fato ter sido o único estádio do Brasil que era propriedade de uma federação, a Federação Paranaense de Futebol, caso se pergunte qual é. O fato determinante é que ninguém se sentiu em casa ali. E olha que foram feitas algumas tentativas.

O projeto inicial, do engenheiro Ayrton Cornelsen, era de fazer um estádio na praça Rui Barbosa, no coração de Curitiba, para 180 mil torcedores, o que o tornaria o segundo maior na época, atrás apenas do Maracanã que comportou 200 mil pessoas, em 1950. Tudo isso no ano de 1956. Porém, o projeto não foi para frente naquele momento e mesmo com o terreno cedido no Tarumã, Ayrton não pôde dar início ao projeto. A ideia era fazer da região do Tarumã mais valorizada e transformar o estádio em um centro de repartição pública e de comércio. A partir deste momento o projeto já era mais humilde, para apenas 45 mil pessoas.

Ayrton Cornelsen e seu projeto original (foto: Gazeta do Povo)
Ayrton Cornelsen e seu projeto original (Foto: Reprodução/Gazeta do Povo)

Em 1966, o Pinheirão começou de fato a tomar forma e o idealizador viu seu sonho ir por água abaixo. Jaime Lerner, na época criador do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC), vetou a obra dizendo que ela traria muitos transtornos a região. Isso decepcionou tanto Cornelsen que ele saiu de cena.

Somente em 1969 o presidente da FPF, José Milani, decide continuar com o enrolado projeto que terminaria apenas em 1985 já com o polêmico Onaireves Moura na presidência da federação. Ayrton Cornelsen, o idealizador do projeto, jamais pisou no campo por sentir vergonha do que aconteceu com aquele estádio. Talvez ele soubesse que a vida do Pinheirão não seria lá muito longa.

Logo nos primeiros anos, o clube que estreou o estádio foi o Atlético Paranaense. Um aluguel que durou cerca de 9 anos e não traz nenhuma saudade aos atleticanos, já que retratou o período negro do clube, longe de títulos e da Série A. A volta à elite é creditada ao regresso para a Arena da Baixada. Leomar (sim, aquele) conta que quando o clube voltou para a Baixada, a torcida ficava mais perto, apoiava mais, o time vencia mais e tinha mais sucesso. Se você tiver oportunidade, pergunte a algum atleticano mais velho se ele gostava do Pinheirão, possivelmente a resposta será um sonoro não.

Atlético (PR) e a sua nada saudosa parceira com o Pinheirão (foto: Gazeta do Povo)
Atlético-PR e a sua nada saudosa parceira com o Pinheirão (Foto: Reprodução/Gazeta do Povo)

Tudo porque a parceria com o federação parecia ser excelente em primeiro plano. O Atlético estava ganhando um estádio moderno, com venda de cadeiras, estacionamento e publicidade para poder transformar a Baixada em um condomínio ou mesmo um shopping, já que o estádio ficava em uma área nobre. Além disso, o próprio clube se fortaleceria e começaria a despontar como uma potência nacional. Ledo engano. O estádio não tinha nada de moderno, com arquibancadas trincadas, vestiários que inundavam com frequência e o frio de rachar. Ademais, desde 85 até 94, foram dois estaduais somente. Foi engolido pelo emergente Paraná Clube, perdendo força regionalmente, caiu para a Série B e praticamente deixou de existir nacionalmente.

Muitos supersticiosos creditaram isso à mudança de ambiente. A torcida começou a pressionar e aos cantos de “Asa Branca” nasceu o “Volta, Baixada” liderado por diversos membros famosos, um deles era Mario Celso Petraglia. Depois de um longo imbróglio judicial, pois o acordo com a FPF era de 55 anos, o Atlético conseguiu a alforria e voltou ao que hoje vocês conhecem como Caldeirão da Baixada.

Após isso, o Pinheirão voltou a ter um foco em outras competições. O atletismo ganhou uma nova pista e o ciclismo tomou o que antes eram as gerais do estádio. Todavia, quem ainda comandava tudo era uma federação de futebol e a bola teria que rolar. Com isso, o Paraná Clube começou a mandar alguns jogos por ali no meio da década de 90. Seriam os jogos grandes, aqueles que em teoria atrairiam mais público que a pobre Vila Capanema poderia comportar. Nunca deu muito certo de fato. O Paraná mandou sim diversos jogos por lá, inclusive o último título estadual do tricolor foi conquistado nesse estádio, em 2006, contra o ADAP. Mesmo tendo ajudado na reforma e ostentando suas cores nas arquibancadas, o tricolor era da Vila e por isso abandonou aos poucos o Pinheirão.

Último título do Pinheirão (foto: alambrado.net)
Último título do Pinheirão (Foto: Reprodução/alambrado.net)

O estádio recebeu alguns jogos da seleção brasileira nesse meio tempo. O último foi em 2003, válido pelas eliminatórias da Copa, contra o Uruguai. Um 3 a 3 bem disputado com gols de Kaká, Ronaldo (2) e Forlán (2), além de um gol contra de Gilberto Silva.

Com a saída do Paraná e falta de interesse de qualquer um em jogar por lá, o Pinheirão oficialmente fechou suas portas em 2007 graças a um bloqueio judicial devido a uma enorme dívida acumulada. O último jogo por lá foi uma derrota de outro time da capital, o JMalucelli por 2 a 1 frente ao Cianorte. Que apenas mandou o jogo por ali por ter sido penalizado. Triste e agonizante fim.

Em 2012, o estádio foi a leilão e o comprador, João Destro, chegou a dizer que havia sido uma compra por impulso, pois não sabia o que fazer de fato com o local. Mesmo hoje não sabendo o que fazer, já não acha que foi impulso, mas todos nós sabemos que foi. O estádio segue abandonado, com mato crescendo nas arquibancadas e toda a estrutura sendo deteriorada pelo tempo. E o pior, sem ter um destino claro.

Ontem mesmo passei na frente do estádio e ele continua sendo o grande elefante branco que sempre foi. Um elefante gerado, malcriado e rejeitado por nós paranaenses. Que hoje sequer o percebemos devido ao imenso nada que nos representou.

Fontes: Futpédia, Gazeta do Povo, Tribuna do Paraná, GloboEsporte.com

8 Comentários em Pinheirão: o maior cemitério poliesportivo do Brasil

  1. O Pinheirão teve sim, seus momentos de glórias no final dos anos 80 e inicio dos 90, tinhamos a esperança que seria finalizada a construção e referência Paranaense para o Brasil. Passado o extase ingênuo, vimos que seria um estádio sem alma, sem identidade e totalmente desconfortável e, que jamais seria concluído.
    Com o advento da Arena tivemos um choque de realidade futurista e, como o Couto e as Vilas sendo simbioses de seus proprietários, o Pinheirão acabou sucumbido as exigências do século XXI e a regeição dos torcedores e clubes locais.
    Tomara que o atual proprietário do terreno de um fim imediato no estádio, que seja implodido e que o local vire uma moderna construção ou condominio de luxo, apagando de vez com a memória visual do Pinheirão.

  2. Abandonado não por nós da capital, mas sim por uma “pseudoFederacao”, que nunca fez nada por seus clubes e muito menos pelo Pinheirao.
    Me recordo de vários jogos que fui lá, apesar de longe eu gostava .
    Em meados de 2009 eu entrei dentro do estádio por brechas que tem nas portas , o que eu vi foi um cenário de filme de terror , corredores escuros com cadeiras, bancos, e várias coisas jogadas por ali, restos de fogueiras pelos cantos, usadas por moradores de rua pra se aquecerem. Quando cheguei às arquibancadas a cena era ainda mais triste, mato crescendo nas arquibancadas abandonadas, no gramado, quer dizer, onde deveria existir um gramado o mato ja tomava conta, pouco se viam as traves , era uma imagem muito triste pra quem admira o futebol.
    Durante meia hora que estive ali, ao mesmo tempo que eu via aquela situação me passava um filme na cabeça ,de quantas vezes comemorei gols e vitórias ali, de quantas vezes sai dali com a derrota na conta também , dos gols nos últimos segundos de jogo, do título Paranaense de 2006 (sim sou Paranista).
    Foi triste ver o que a Federação deixou acontecer com um estádio que apesar de pouco querido pela maioria foi um estádio que teve muita história!!

  3. Não sei quando será implodido, mas voltar a ativa é impossível. Temos quatro equipes, todos tem estádio próprio, até a abandonada Vila Olímpica recebeu jogos recentemente enquanto o Pinheirão está parado a mais de uma década.

  4. Fui algumas vezes. Minha última lembrança foi um Paraná 6 x 1 Fluminense. 2004 acho.

    Hoje passei lá. Me deu uma tristeza. Desperdício.

    Havia um boatos de que o Paraná e o Coritiba iriam construir um novo estádio ali. Uma parceria. Ruim pros dois na verdade.

    Hoje tinha um circo no estacionamento. E feirão de carros.

  5. A chance de reviver o Pinheirão era a Copa de 2014, criando um estádio público e tudo mais. Mas as restrições da Fifa não deixariam fazer dele um complexo poliesportivo (um estádio público aqui, com cada clube da capital tendo a sua própria praça, não faria tanto sentido, afinal).

    Tem se falado ultimamente, mais uma vez, no Coxa erguer um estádio lá, o que, imagino eu, seja a última possibilidade real de voltar a ser disputar futebol ali. Mas a minha melhor hipótese é que em breve aquilo tudo vai virar um condomínio.

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