Pinóquio, especulações de transferência e a incessável aspiração humana

Bem-vindos à época mais quente do ano

Clássico da especulação (foto: O Globo)
Por Diego Giandomenico, PR

Em 1940 a Disney lançou o seu segundo filme, Pinóquio. O que viria a se tornar um clássico da primeira leva de filmes animados de Walt Disney, junto com Branca de Neve, Dumbo e Bambi, apenas para citar alguns, conta a história de um homem, um boneco e o desejo de ser algo que não era.

Citar contexto sempre é importante. Os EUA viviam um tempo de retomada da economia pós quebra de 29, o New Deal implantado por Roosevelt e sua equipe começava a dar resultados e as pessoas voltavam a sonhar. Ou melhor, aspirar. Pinóquio é basicamente sobre aspiração. Gepetto cria um boneco sonhando que ele se torna um menino, o boneco quando ganha consciência recebe a promessa de que poderá se tornar um menino e todas as aventuras – um tanto quanto bizarras – narram essa aspiração. Claro que a obra de Carlo Collodi representa uma gama imensa de sentimentos e lições éticas e morais, mas por hoje ficarei na parte “aspiracional”, que dita nossas vidas até a atualidade.

 

Década de 40 inicia o marco aspiracional do cinema (foto: Cineclick)
Década de 40 inicia o marco aspiracional do cinema (foto: Cineclick)

 

O desejo aspiracional é algo mais recente, talvez herdado da Revolução Industrial, Iluminismo ou qualquer outro movimento que deu luz ao mundo que chamamos de moderno. Se antes as classes de seres humanos eram bem definidas e todo mundo sabia o que tinha que fazer da vida, hoje a pluralidade de caminhos, trocas de posição e destinos são a toada do homem moderno. Neste contexto, um boneco de madeira pode sonhar em se tornar humano ou uma inteligência artificial pode sonhar em ter pais de verdade, ou mesmo um simples camponês pode sonhar em conquistar o mundo. Não há mais limites para o desejo de ser do humano, já nos é inato, inerente e idiossincrático.

As redes sociais catapultaram o nosso ser aspiracional às alturas. É aquela velha história de que não precisamos mais ter ou ser, apenas parecer ter e parecer ser. E é aí que o seu, o meu, o nosso futebol entra em cena. Mas especificamente aquele período entre o final e o começo de temporada.

Eu sou um ávido jogador de games de futebol. E nas minhas aventuras de FIFA ou FM, indiscutivelmente a melhor época é quando podemos negociar com novos jogadores, mandar embora os pernas de pau, reformular time, sonhar (aspirar) com a próxima temporada. Eu cansei de dar play automático em diversos jogos da temporada só para chegar logo nessa época. E veja só, não é tão diferente na vida real.

 

Parte mais legal do FIFA 18 disparado (foto: FIFA Scoutings)
Parte mais legal do FIFA 18 disparado (foto: FIFA Scoutings)


Agora, nesse exato momento, se você abrir a home de algum grande portal, terá N notícias sobre especulações de transferência. Não só isso. Mas também central de mercado, barca para mandar jogadores embora, simulação de time ideal, wishlist de jogadores. Enfim, há um bom mercado para quem quer sonhar com um 2018 melhor. E sabe qual é o engraçado? Esta é a fase mais legal para o torcedor. Não te anima imaginar grandes jogadores no seu clube? Um Anelka, Ribéry, Totti, Tevez podendo ajudar ao seu time a se tornar uma máquina. Mesmo sabendo que é impossível, absurdo e sem menor conexão com a realidade é bom aspirar. Por isso esse mercado tem crescido e com ele especialistas em transferências têm aparecido aos montes.

Sonhar é viver (foto: YouTube)
Sonhar é viver (foto: YouTube)


O mais famoso talvez seja o Seedorf no Corinthians. Mas tem muitas frases que brotam no nosso dia a dia: “só falta alguns detalhes para fulano assinar com o clube”, “já está apalavrado”, “faltam só exames”, “manifestou desejo de jogar pelo time”, “está passando férias no Brasil” e “foi avistado com empresários”. Toda essa indústria de clickbait construída pelo meu e seu desejo de ser aquilo que não é, de possuir o que está longe do alcance das mãos, de ser humano quando se é apenas um boneco de madeira. O desejo de ter é muito melhor do que a realidade de possuir. 

Quando era mais novo minha família não tinha dinheiro para quase nada. Porém passei a minha vida inteira recortando ofertas de videogame, lendo resenha de jogos que nunca poderia jogar, babando em comerciais ou mesmo assistindo meus amigos jogarem. Hoje tenho um Xbox One e lembro muito bem como fiquei ansioso esperando ele chegar em casa. Foram 23 dias de espera e depois da euforia da chegada, nada mais relacionado a ele fez meu coração palpitar como naqueles dias.

Meu sonho de infância (Foto: Wiki Commons)
Meu sonho de infância (Foto: Wiki Commons)

É esse sentimento que te levar a clicar em todas as matérias que ligam seu clube aos possíveis craques, que faz você imaginar um ano cheio de títulos, que faz tua diretoria gastar mais do que pode, que faz pseudojornalistas tirarem seu ganha-pão.     

Seja bem-vindo à época mais quente do ano. Boa sorte para o seu time e que chegue logo o final de 2018 para sonharmos com um 2019 melhor.

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