O polêmico futebol na altitude

A paixão pelo futebol não pode ter restrições

O Fantasma da Altitude (Foto: Clarín)
Por Wagner Ponce, La Paz

¡Hola, hermanos! Saludo a mis amigos de Escenas Lamentables. ¡Vamos a hablar sobre la polémica de fútbol en la altura, y toda Bolivia hizo para obtener el derecho a jugar en su capita! Por aquí, alias, surgió jugadores con un olfato de gol como Marco “El Diablo” Etcheverry , Juan Carlos “Pinocho” Sánchez, Joachín “El Chacal” Botero y Erwin “ChiChi” Romero, los artilleros de altitud!

Não importa quando foi o último confronto, mas basta um time brasileiro, ou até mesmo a própria Seleção, ter que jogar uma partida na altitude que a polêmica volta à tona. As equipes de televisão chegam uma semana antes e fazem as mesmas matérias, pegando depoimentos médicos falando sobre a prática esportiva acima dos 2.000 metros, mostrando entrevistas com ex- jogadores e, no final, encontram uma justificativa para a derrota antes mesmo da partida ser realizada.

É óbvio que a prática esportiva nessas condições é muito mais difícil para quem vem de regiões ao nível do mar. Porém, vamos fazer uma simples analogia lembrando a Copa de 94, último mundial em que a seleção boliviana se classificou para a disputa. Naquele ano, tivemos partidas disputadas com temperaturas na casa dos 40°C, algo muito mais desaconselhado pelos médicos do que um jogo de futebol aos 3000m de altitude. E só para lembrar, a Suécia ficou com a terceira colocação, sendo eliminado apenas nas semifinais pelo Brasil, campeão daquele ano.

Já tivemos inúmeros jogos disputados na Europa com temperaturas negativas, sendo comum vermos muitas partidas com neve em campo, algo que pode desfavorecer equipes de regiões que não passam por situações climáticas tão adversas e intensas. Mas, será que se algum país europeu tivesse cidades na altitude, e nelas fossem realizadas algumas partidas de futebol, teríamos todo esse “ranço” em ser contra jogos na lá?

Futebol em condição extrema na neve (Foto: Reprodução/Bundesliga)
Futebol em condição extrema na neve (Foto: Reprodução/Bundesliga)

O esporte integra nações e consegue unir povos de diferentes etnias, tudo isso em nome da paixão pelo futebol. Um jogo que, por precisar de apenas uma bola, ou algo que se assemelha a uma, é facilmente difundido entre as crianças de qualquer lugar do mundo, até mesmo em regiões onde o futebol não é tão popular. Privar uma nação de poder assistir a partidas oficiais em seu território, sem argumentos realmente justos, vai totalmente de encontro ao verdadeiro sentido do esporte: unificar povos.

Do ponto de vista médico, pessoas nascidas ou que vivem há algum tempo em regiões de altitude elevada, se adaptam naturalmente a essa condição, sentindo muito menos os efeitos causados por esta adversidade. Um dos sintomas é a diminuição do fluxo de oxigênio no sangue, fazendo com que ele não chegue de forma plena nos músculos e em diversos sistemas do organismo. Isso faz com que a respiração se torne mais acelerada, para que o corpo consiga compensar essa falta de ar, o que aumenta a sensação de exaustão. É comum sentir dores de cabeça, enjoo, tontura e falta de ar, caso a pessoa não tenha se aclimatado da melhor forma. Outro fator que ouvimos muito falar é sobre a velocidade da bola, pois ela se torna muito mais rápida em alturas elevadas, já que sofre menos atrito com o ar.

O argumento de defesa dos bolivianos, principalmente, é que quando eles jogam fora da altitude, também sofrem com essa alteração de condição. Outro fato importante, segundo eles, são algumas importantes vitórias de sua seleção sobre os grandes times do continente, o que mostra o crescimento do seu futebol. Assim aconteceu nas eliminatórias para a Copa de 78, na Argentina, quando o Uruguai foi eliminado após perder em La Paz por 1 a 0, sendo que no primeiro jogo, em Montevidéu, a Celeste apenas empatou com La Verde em 2 a 2. Quinze anos mais tarde, nas eliminatórias para a Copa dos EUA, nova derrota do Uruguai para a Bolívia e mais uma vez a Celeste não se classificou para o mundial de futebol.

Marco Etcheverry na vitória da Bolívia contra o Uruguai em 93 (Foto: AFP)
Marco Etcheverry na classificação boliviana para a Copa dos EUA (Foto: AFP)

Segundo os próprios bolivianos, durante anos a altitude nunca foi usada como desculpa, já que os grandes times venciam facilmente as equipes paceñas e seleção boliviana na altitude, mas a melhora na qualidade do futebol local começou a equilibrar as disputas. Essa evidência foi argumento do presidente da FIFA na época, Joseph Blatter. O próprio Equador é prova disso, pois nos últimos quatro mundiais, conseguiu classificação para três.

Em uma reunião realizada pelo Comitê Executivo da FIFA em 1995, em Paris, por conta do sorteio da eliminatórias para a Copa da França, houve uma pressão muito grande dos dirigentes das confederações da Argentina e Uruguai, com o respaldo da CBF, para que se colocasse na agenda da FIFA a discussão sobre a realização de partidas em altitude. Imediatamente, os dirigentes bolivianos intercederam junto a João Havelange, então presidente da maior organização do futebol mundial, pedindo que o tema fosse reconsiderado. Se juntaram a FBF (Federação Boliviana de Futebol) as entidades responsáveis pelo futebol da Colômbia e Equador também. Esse pedido solicitava junto ao presidente Havelange, que fosse enviado um parecer médico que pudesse ajudar na defesa e que a decisão fosse tomada por uma forma justa, não política, como pressionavam os presidentes Julio Grondona e Eugênio Figueredo, dirigentes da AFA (Associação de Futebol da Argentina) e AFU (Associação de Futebol do Uruguai), respectivamente.

Vendo essa goleada sofrida pelos “hermanos” nas eliminatórias para a Copa de 2010, entendemos que eles já previam o vexame.

Segundo o presidente boliviano na época, Gonzalo Sánchez de Lozada, o problema deixava de ser esportivo para se tornar político, social e cultural. Já que o que estava em sendo colocado em pauta era a verdadeira realidade de um país que tem a grande maioria de seu território situado nesse cenário geográfico de altitude, ou seja, algo que ia contra o direito de um povo se sentir representado dentro do esporte.

Nessa época formou-se uma “Comissão de Defesa da Altitude”, composta por representantes da FBF, médicos, políticos e jornalistas. O objetivo era bem simples: reunir o máximo possível de documentos que convencesse o público e a FIFA quanto à realização de partidas na altitude. Essa apresentação reuniu aspectos históricos, culturais, geográficos, desportivos, médicos e até estatísticos e foi apresentada ao Comitê Executivo da federação internacional em Zurique, em maio de 1996. No dia 31 de maio do mesmo ano, o presidente da FIFA João Havelange reconheceu em uma coletiva de imprensa que as partidas de futebol em altitude estavam autorizadas, sem nenhuma restrição, mas com a recomendação de que as equipes deveriam passar por um período de aclimatação de cinco dias antes das partidas.

Dossiê da Altitude (Imagem: La Razón/Bolívia)
Dossiê da Altitude (Imagem: La Razón/Bolívia)

“O futebol é para todos e todos devem ser para o futebol. Todos se preocupam muito com essa tema, realizamos jogos em condições extremas de calor, frio, chuva, neve… Mas a FIFA nunca disse que não podemos jogar nessas condições. Se nessas o futebol não é contestado, podemos jogar perfeitamente em La Paz…” – Disse Joseph Blatter , então presidente da FIFA, em visita a Cochabamba em 1999.

O campeonato boliviano de futebol conta com doze equipes em sua primeira divisão. Atualmente, os times são de nove cidades diferentes, sendo cinco acima dos 2.500 metros e três acima dos 3.500 metros, tendo apenas a região de Santa Cruz de la Sierra fora dessa faixa extrema de altitude, que serve como sede para o Oriente Petrolero, Blooming e Sport Boys. Nada mais significativo para mostrar o quanto a altitude representa a cultura do futebol no país, principalmente, pelo equilíbrio técnico geral da competição. Para referência, o Sport Boys é o atual campeão do Torneio Apertura e disputa esta edição da Copa Libertadores da América. Assim como são constantes a presença do Oriente Petrolero, time mais popular dessa região.

Oriente Petrolero em campo pela Libertadores 2016 (Foto: Reprodução/Globoesporte.com)
Oriente Petrolero em campo pela Libertadores 2016 (Foto: Reprodução/Globoesporte.com)

O futebol é um dos esportes mais democráticos do mundo, será que é justo afastar povos do prazer de ver seu time jogar uma partida em sua cidade? Se o futebol é para ser honesto e os interesses comerciais não estão acima do jogo, que esse tipo de decisão seja tomada de forma igual para qualquer condição extrema, não apenas àquelas adotas na América do Sul.

¡Hasta luego!

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