Por que a base no Brasil ainda é tão pouco aproveitada?

Processo de formação é mal feito

Porque usufruímos tão pouco de uma mina de ouro? (Foto: Reprodução/Universidadedofutebol.com.br)
Por: Victor Portto, CE

Formar um atleta sempre foi um processo lento, feito por etapas e que demanda paciência de todos os envolvidos Mas no Brasil, salvo poucas exceções, a cultura imediatista por resultados está à frente do fortalecimento das categorias de base no futebol. A impaciência da torcida com os erros de um jovem em formação e o cenário político dos clubes são fatos que podem implodir todo o trabalho em torno de uma promessa. Resultando em talentos desperdiçados antes mesmo da sequência nos profissionais.

Quando digo que há exceções na forma de pensar a base me refiro a alguns clubes que tem fama de serem equipes formadoras, como: o Santos, o Internacional, o Vitória, Sport, dentre outros. Mas mesmo estes times ainda têm muito a pensar na sua organização das categorias de base. Por exemplo, se a formação é pensada para de fato abastecer o profissional nos anos futuros, por que não pensar em um modelo de jogo que venha desde a formação até o último nível? Por qual motivo existe a pressão de ganhar campeonatos na base se o propósito é aprimorar os aspectos técnico, tático, psicológico e físico dos garotos? O pensamento é formar equipes ou jogadores? O futebol por resultado, apelando para o jogo feio, ajuda na construção de um atleta com potencial? Antigamente aprendíamos a jogar bola na rua, nas calçadas e em todo tipo de piso, trazendo mais ginga e um estilo brasileiro de atuar na quatro linhas, estamos perdendo essa essência (chamada de pedagogia da rua pela Universidade do Futebol)?  Essas e outras perguntas podem apimentar ainda mais o debate e enriquecer o que queremos de formação para os nossos clubes.

Formar vários jogadores talentosos é difícil, mas não impossível (Foto: Reprodução/blogdofutebol.com)
Formar vários jogadores talentosos é difícil, mas não impossível (Foto: Reprodução/blogdofutebol.com)

Utilizei acima o termo “equipes formadoras” por ser a alcunha que a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) utiliza para os clubes que tem o selo dado por ela. Tal certificação garante que a instituição está dando ao atleta toda a assistência possível, desde alojamento adequado à ajuda nos mais diversos âmbitos (familiar, psicológico, médico, odontológico e alimentar). Se isso está sendo de fato cumprido é outra discussão, mas entre os times brasileiros apenas 37 possuem este certificado. É importante salientar que desde 2012 somente com essa chancela o clube tem direito a um percentual da venda do atleta pelo resto da sua carreira (variando a porcentagem de acordo com o período passado nas equipes até os 21 anos). Então se pode gerar lucro até o final da vida em campo, por que os clubes investem ainda tão pouco nas categorias de base?

Parando pra pensar, de cara vem a questão da disparidade financeira, já que das equipes que possuem o selo da CBF somente 5 são de fora do eixo sul-sudeste. Sabemos historicamente que as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste recebem menos verba (de patrocínios e cotas de TV) que os clubes das outras regiões do país. No entanto, além deste elemento ainda há o cenário político dos clubes. Principalmente no Nordeste, os times de futebol são utilizados como palanques e vale muito mais a pena para o presidente ser lembrado por ter contratado aquele grande jogador do que apostar na base. Isso gera mais votos (ainda que endivide o clube por décadas). Há ainda a questão da polêmica Lei Pelé, visto que com ela os empresários puderam ter acesso aos garotos e inflacionaram financeiramente o processo da formação de atletas, tornando-o bem mais caro e garantindo poucos direitos aos clubes contra essa prática do agenciamento. Os meninos acabam saindo cada vez mais cedo dos times por não entrarem em acordo por um contrato já milionário, muitas vezes, quando não mostraram nada no profissional.

A disparidade financeira com a Europa e outros centros também pesa, visto que muitas vezes o clube até trabalha corretamente, mas aparece uma proposta aos combalidos cofres que fica difícil não aceitar uma pechincha do que ele pode valer no futuro. Mal vemos os nossos talentos jogando profissionalmente aqui no Brasil. É totalmente atípico, por exemplo, o caso de Vinícius Júnior, visto que mesmo sem ele jogar no profissional o Flamengo já receberá uma quantia estratosférica e lucrará como nunca se lucrou na base por aqui. Não são raros os casos dos craques que saíram por pouco dinheiro e brilharam/brilham nos gramados da Europa (Kaká e Philippe Coutinho, por exemplo).

Que saudade da minha ex a torcida do Vasco diz ao ver essa foto (Foto: Reprodução/blogdofutebol.com)
Que saudade da minha ex a torcida do Vasco diz ao ver essa foto (Foto: Reprodução/blogdofutebol.com)

Por fim, jogar futebol sempre foi o sonho, atuar pelos grandes clubes do Brasil já foi um dos objetivos e ir para a Europa parece ser a meta de quase todo menino que está imerso no universo das categorias de base do esporte pelo país afora. Passamos por tempos de mudanças de patamar das equipes brasileiras no imaginário dos nossos garotos: afinal, jogar no time do coração e ser ídolo da torcida que você já fez parte não é mais o que atrai a garotada de hoje em dia e sim jogar no Barcelona, no Real Madrid e nos outros grandes esquadrões europeus. Uma explicação para esse efeito está no avanço do capitalismo e da era da tecnologia e da informação. As agremiações europeias viraram globais, marcas conhecidas, desejadas e admiradas no mundo inteiro. É também aqui que está indo embora o amor pela camisa aos clubes brasileiros e sendo criada a geração do “Meu Barça” e afins, é neste ponto que estamos levando mais um 7 a 1.

Fonte: Universidade do Futebol; Confederação Brasileira de Futebol; Esportelegal.

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