A primeira grande geração da República Tcheca

COMEÇO, MEIO E FIM DA GRANDE GERAÇÃO TCHECA

Por: Vinicius Falavigna, SP

Grandes times marcam uma geração de pessoas que amam o futebol, assim como eu. A Eurocopa de 2004, disputada em Portugal, trouxe gratas surpresas que ainda são lembradas nos dias de hoje. Como a Seleção da República Tcheca *(ou Tchéquia, como vou explicar no fim deste texto), que demonstrando um futebol envolvente, chegou a semifinal daquela competição – perdendo justamente para a surpreendente e campeã Grécia. No elenco, jogadores de renome mundial, como Pavel Nedved e Milan Baros, provavelmente os destaques da equipe na competição. Dois anos mais tarde, este mesmo conjunto chegaria a sua primeira Copa do Mundo, em 2006, como uma nação separada da antiga Tchecoslováquia.

Mas, antes de falar sobre a geração de 04-05-06, é importante relembrarmos a história da Tchecoslováquia. Após a Primeira Guerra Mundial e com o desmembramento do Império Austro-Húngaro, foram criados vários novos países que agregavam mais de uma nacionalidade, por exemplo a Tchecoslováquia, Iugoslávia e a antiga URSS. Com o passar dos anos, e após a Segunda Guerra Mundial, as principais nacionalidades que habitavam o país – tchecos e eslovacos – passaram a querer resgatar suas origens. Após anos de discussão e diferenças étnicas e linguísticas, veio a chamada “Separação de Veludo”. Em 1993, após o processo consolidado, nasceram duas repúblicas independentes, a República Tcheca e a Eslováquia.

Antes do desmembramento, porém, a Seleção da Tchecoslováquia era considerada uma potência do futebol mundial. Seus principais feitos foram o título da Eurocopa de 1976 e medalha de ouro nas Olimpíadas de 1980. Além de dois vice-campeonatos da Copa do Mundo, em 1934 e 1962 – quando perdeu por 3 a 1 para a Seleção Brasileira, comanda por Garrincha e companhia (na ocasião, Pelé se machucou no segundo jogo do torneio, justamente contra a Tchecoslováquia e ficou de fora do restante do cotejo).

Primeira Seleção de destaque como República Tcheca

Após a separação dos países, também houve a divisão dos jogadores. E, pelo jeito, quem se deu melhor foram os Tchecos. A primeira campanha de destaque veio na Eurocopa de 1996, disputada na Inglaterra. O meia Poborosky foi o comandante daquela equipe que eliminou os anfitriões na semifinal e só foi derrotada na final pela Alemanha, graças ao já extinto “Golden Goal”, depois de empate por 1 a 1 no tempo normal.

Na Euro seguinte, disputada na França, os Tchecos não tiveram a mesma sorte. Caíram em um grupo fortíssimo que contava com Dinamarca, Holanda e os donos da casa – campeões do torneio – e acabaram eliminados. Porém, o alento era a consolidação de jogadores como Pavel Nedved, Tomás Rosicky e Jan Koller.

Apesar da decepção na Euro 2000, existia a esperança de que esses jogadores poderiam levar a nova República à primeira Copa do Mundo, em 2002. Nas eliminatórias, ficaram em segundo lugar de um grupo que contava com a forte Dinamarca. Na repescagem, os tchecos cairiam para a surpreendente Bélgica do atacante Marc Wilmots, que deu  muito trabalho ao Brasil nas oitavas de final do Mundial.

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Smicer, um dos destaques do time, marca um de seus gols na Euro 1996 (Foto: UEFA/GettyImages)

O começo de uma grande equipe

Já mais experientes e, com alguns jogadores sendo destaques em suas equipes, a República Tcheca se preparou para chegar forte nas competições seguintes. O cérebro da equipe não era mais Poborosky, mas sim Pavel Nedved, credenciado a craque ao levar o prêmio de melhor jogador da Europa (Ballon D’Oro) de 2003, após grande temporada na Juventus, vice campeã da Champions League do mesmo ano.

Nas Eliminatórias para a  Eurocopa de 2004 ninguém parou a República Tcheca. Dividiu a primeira colocação com a Holanda e já mostrava suas credenciais ao encorpar de vez para o Torneio. Caiu em um grupo que contava justamente com os holandeses, a Alemanha (vice mundial dois anos antes) e a fraca Letônia. Não tomou conhecimento de ninguém, fez os nove pontos possíveis e chegou forte ao mata-mata.

Vale ressaltar que na primeira fase rolou um dos jogos mais espetaculares de toda a história da competição. Veja abaixo e lembre da virada histórica, por 3 a 2, dos tchecos em cima da Holanda.

No elenco, a República Tcheca tinha jogadores já consagrados, como Nedved, Poborosky e Koller, e outros que ganhariam um destaque enorme após a competição, como o goleiraço Petr Cech, o meia Marek Jankulovski e o atacante Milan Baros, que viria a ser o artilheiro da competição com cinco gols. Aliás, Cech, Nedved e o próprio Barros viriam a integrar o elenco de melhores jogadores da competição.

Grandes exibições

Após bela exibição na fase de grupos, os Tchecos estavam preparados para qualquer adversário no mata-mata. Nas quartas de final, eliminaram a Dinamarca após uma exibição de gala do seu ataque,Koller e Baros, marcando duas vezes.

A semifinal foi contra a Grécia, que vinha se classificando aos trancos e barrancos, mas principalmente por conta de uma defesa sólida. A partida nos mostrou aquela velha máxima do futebol de “quem não faz, toma”. Os tchecos pressionaram o jogo inteiro, tiveram diversas chances para abrir o placar, mas esbarraram no goleiro Nikopolidis. Após empate por 0 a 0 no tempo normal, o jogo foi decidido na prorrogação. Quem enterrou o sonho tcheco de chegar novamente à final da competição foi o zagueiro Dellas, após gol de cabeça em escanteio. Uma das gerações mais talentosas de toda a história, seja como Tchecoslováquia ou República Tcheca, não teria a chance de levantar a taça da Euro e cravar este título no currículo.

Não é exagero falar que esta geração de 2004 marcou época. O estardalhaço que o time fez foi grande, justamente pelo futebol envolvente e ofensivo que a seleção praticava. O responsável pelo comando era Karel Brückner, técnico com passagens apenas por times da sua nação. A campanha deu visibilidade a muitos jogadores, que acabaram tendo oportunidade em times grandes da Europa.

O time base daquela Eurocopa era: Cech; Grygera, Galasek, Ujfalusi e Jankulovski; Rene Bolf, Poborosky, Rosick e Nedved; Koller e Baros. Desses, Cech saiu do Rennes para o Chelsea e se transformou em um dos maiores goleiros da história; Jankulovski teve uma carreira duradoura no Milan, de 2005 a 2011; Rosicky começava a despontar no Borussia Dortmund e, em 2006, se transferiu para o Arsenal, onde ficou até o fim da temporada 2015/2016; Nedved já era considerado craque e assim continuou sendo na Juventus; o grandalhão de 2,02 metros Koller era o matador do Dortmund; e Milan Baros viria a ser campeão, iniciando como titular, pelo Liverpool na Champions de 2005.

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Milan Baros e Pavel Nedved: os principais destaques em 2004 (Foto: UEFA/GettyImages)

Enfim, a classificação

Depois da grande campanha na Euro, era fácil imaginar que os Tchecos se classificariam à Copa do Mundo de 2006, disputada na Alemanha. Nas eliminatórias, ficaram na segunda posição, atrás da Holanda. Porém, se classificaram direto à Copa por terem sido um dos dois melhores vice-campeões de grupo.

Como não poderia deixar de ser, o time convocado para a Copa vinha da base da Euro de dois anos atrás. Alguns mais experientes, como Cech e Rosicky; outros mais envelhecidos, como Poborosky e Koller; mas o destaque era o mesmo Nedved. Este tinha uma capacidade impressionante de estar por todo campo. Corria sem parar e costumava fazer gols de longa distância, sempre com o recurso de ser ambidestro. Era, definitivamente, o maestro do time.

A República Tcheca caiu no Grupo E, que contava com Itália, Gana e Estados Unidos. A estreia foi justamente contra os estadunidenses. Um sonoro 3 a 0, com show de Rosicky, marcando dois, e Koller fechando o caixão. Parecia que a primeira participação como república seria empolgante. Mas só parecia… No jogo seguinte, veio a decepção. A surpreendente Gana – que chegaria às quartas-de-final da competição – venceu por 2 a 0. A decisão ficaria para a última rodada, justamente contra a Itália, que viria ser a campeã do torneio. Mais uma derrota por 2 a 0. E a sensação de que, novamente, esta talentosa geração merecia algo mais.

O começo do fim

Mais dois anos se passaram. Outra Eurocopa pelo caminho, desta vez sediada em conjunto por Áustria e Suíça. Ainda sob o comando de Brückner, a Seleção Tcheca chegou mais envelhecida e sem o mesmo brilho dos últimos anos. Para piorar, os principais destaques daquele time não estariam na competição: tanto Nedved quanto Rosicky estavam contundidos e ficaram de fora. Já dava para prever o que viria acontecer…

A estreia até foi animadora, com a vitória por 1 a 0, em cima da anfitriã Suíça. Porém, na sequência, viriam duas derrotas contra Portugal e Turquia. O apito final contra os turcos talvez tenha sido o último suspiro desta geração. Os anos que vieram na sequência escancararam a falta de renovação dos tchecos. Além do mais, os principais destaques começavam a sumir. Nedved e Koller viriam a se aposentar; Baros não se tornou o jogador que prometia; Rosicky sofria muitas lesões…

Como consequência, não foi às Copas do Mundo de 2010 e 2014. Na Euro de 2012, parou nas quartas-de-final. Não se sabe qual vai ser o futuro desta República Tcheca. O que fica na lembrança foram os três anos (04-05-06) mais encantadores desta geração de ouro.

*Sobre: República Tcheca ou Tchéquia?

Desde a separação em 1993, que a nova república procura um “nome”. Inicialmente, foi adotado o nome Cechy (nome da região da Boêmia, que forma a República Tcheca/Tchéquia junto com Silésia e Morávia), depois Cesko. Nos outros idiomas, não houve uma versão comum a todos. Aqui, no Brasil, adotamos o nome de República Tcheca (com todas as piadas que envolvem). Mas, em 2016, o governo da Tchéquia (agora sim, pretendo adotar esta versão) fez o pedido oficial a todas as nações para que adotassem a nova alcunha.

Alguns países já adotaram o novo nome, assim como as Nações Unidas. No Brasil, o maior exemplo é a Folha de S. Paulo, que já se refere ao país como Tchéquia. Fato é que a – antiga – República Tcheca agora é Tchéquia e o mais certo seria se todos adotássemos o novo padrão. E você, caro leitor, o que achou da mudança?

Abaixo, para matar a saudade: a grande campanha na Eurocopa de 2004. 

Fonte: UEFA, FIFA, RodiniaInfo Escola.

 

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