CL Entrevista: Jardel

GOLEADOR NATO

Por Paulinho Rahs, RS

Imagine ser o maior goleador do mundo em um ano. Imagine este feito duas vezes. Imagine que só de chuteira-troféu da UEFA você tenha ao menos uma de cada calibre: ouro, prata e bronze. E para finalizar, imagine você sendo artilheiro da Libertadores e da Champions League.
Isso é feito para pouquíssimos. Mario Jardel de Almeida Ribeiro pode não só imaginar isso tudo como pode, ao abrir as portas de sua sala de troféus, relembrar cada um desses momentos.

Jardel concedeu uma entrevista com a sua cara: elétrica, polêmica e intensa. Abriu as portas de sua casa em Fortaleza-CE para a CL numa conversa que se estendeu na carona de seu carro e foi finalizada em um bar point dos torcedores do Grêmio na capital cearense. Entre uma cerveja e outra, um cigarro e mais um, fomos conversar com o eterno artilheiro da camisa 16. O início, o auge, a idolatria em Portugal, a decadência, as drogas e a política. Uma vida de altos e baixos que temos a honra de compartilhar com vocês. Abaixo a entrevista e as impressões do entrevistador da CL frente a um dos maiores ídolos do seu clube.

– Vamo, vamo. Entra aí. Sandra acende a luz e vamos mostrar pra eles.

Quando as luzes se acenderam, dei de cara com uma sala com ares de magia. Uma mesa de bilhar no centro e paredes completamente decoradas. Dentro do armário as bolas e chuteiras de ouro, prata e bronze. As camisetas de Vasco, Ferroviário, Goiás, Criciúma, Bolton, Galatasaray devidamente postas de um lado. As homenagens no outro: Ronaldo, Romário, Beckham, Cristiano Ronaldo. Uma parede apenas de quadros do Grêmio: fotos de títulos e capas de revista. Outra igual, mas dividida entre Porto e Sporting. Dentro das gavetas flâmulas, recortes de jornal e faixas de campeão. Uma sala para enlouquecer qualquer fã de futebol.

Sala de troféus exibe bolas e chuteiras conquistas na carreira de Jardel (Foto: Paulinho Rahs)

Cenas Lamentáveis: Jardel, quanta coisa rapaz! Qual é teu objeto preferido entre esses todas?

Ah, de tudo um pouco né. Eu gosto muito das chuteiras de artilheiro do mundo. Tem essa camiseta que o Nistelrooy me autografou em português dando parabéns pela artilharia da Europa. Essa eu gosto muito. Fora isso essa parede do Grêmio aqui tem uma história muito bonita.

Cenas Lamentáveis: Falando dessa época. Tua ida para o Vasco e depois para o Grêmio. A artilharia da Libertadores, a saída para Portugal. Conta um pouco…

 Eu estava no banco em 1993. Aí teve aquele negócio da morte do Denner. É uma tristeza, mas calhou que eu fiquei de titular em 94 no Campeonato Carioca. Fui artilheiro, dois gols na final. É Jardel né. Aí veio a proposta do Grêmio.

Cenas Lamentáveis: Como foi tua chegada? E a tua relação com o Felipão?

O Felipão foi muito bom comigo. Me levou para Porto Alegre e aquele grupo campeão da Libertadores acabou sendo muito fechado. Na concentração ele dizia: ‘Arce, tu tá vendo esse cabeção aqui? Tem que cruzar aqui!’, e batia na minha cabeça. Foi uma época muito legal. Eu lamento apenas a Copa depois…

Cenas Lamentáveis: 2002?

É. Eu acho que eu tinha nível para estar lá. Mas teve tudo aquilo do Romário também não ser chamado. Não digo nem 98, mas 2002 eu esperava ter ido.

Jardel Brasil
Com Robertos Carlos na seleção. Jardel lamenta não ter ido a Copa de 2002. (Foto: CBF/Reprodução)

Cenas Lamentáveis: Nessa época também começou tua mística com o número 16, certo?

Então, eu cheguei no Grêmio e foi a camiseta que sobrou. Comecei a fazer gols e não parei mais. Depois, onde eu ia eu queria usar a 16. Até hoje no Grêmio essa camiseta tem muito peso. Acho que tinham que aposentar ela (risos).

Cenas Lamentáveis: E a história do “Fica Jardel”?

Isso foi fim de 95. O Grêmio precisava de 1 milhão de dólares para ficar comigo. Aí criaram a linha de telefone: o pessoal ligava e doava. Tinha gremista que ia na casa de amigo colorado ligar pelo “Fica Jardel”. Só que não conseguiram o dinheiro e eu fui vendido para o Rangers. Eu saí depois do mundial. Teve um problema com meu passaporte e acabei voltando começo de 1996. Fui embora na metade do ano para o Porto, mas antes meti dois no Juventude pela final do gauchão (risos).

Jardel Gremio
Jardel no Grêmio: Artilheiro da América em 1995. (Foto: Grêmio FBPA/Reprodução)

Cenas Lamentáveis: Aí Portugal foi teu auge…

Foi uma história muito bonita. Tricampeão em Portugal, artilheiro em quatro campeonatos. Eu sou o melhor estrangeiro de sempre lá. Teve um jogo que eu meti dois no Real Madrid. Época boa, cara!

Cenas Lamentáveis: E no Sporting, Jardel titular e Cristiano Ronaldo banco?

(risos) Era um garoto ainda, o Cristiano. Mas a gente se dava bem. Dava pra ver que seria um grande jogador. Não isso tudo que se tornou, mas eu sabia que ele tinha muito futuro. Ensinei uma coisa ou duas pra ele… (risos)

Nessa hora Jardel ficou mais elétrico que o normal.

– Vamo, bora olhar o jogo no bar dos gremistas? 

Jardel dirigiu e fomos na carona até um bar que ia transmitir a partida entre Grêmio e Godoy Cruz pela Libertadores de 2017. No caminho, mais um pouco de conversa.

Cenas Lamentáveis: Mário, e os outros clubes?

Teve o Sporting, a torcida gosta muito de mim até hoje já. Uma das bolas de ouro foi lá, no ano da Copa. Por isso eu acho que deveria ter ido. A outra foi antes, pelo Porto. Foi muito legal também no Galatasaray, os turcos são loucos. Foi uma passagem muito boa.

Cenas Lamentáveis: Dá pra gente dizer que 2002 foi teu último grande ano? 

Ah, sei não. No Bolton me sacanearam, quase não joguei. Aí foi uma época complicada na minha vida.

Em Portugal o auge: artilheiro do mundo pelo Porto e pelo Sporting.
Em Portugal o auge: artilheiro do mundo pelo Porto e pelo Sporting. (Foto: These Time Football)

Cenas Lamentáveis: Sobre as drogas… Foi isso?

Prefiro não falar sobre isso. Eu já dei entrevista e tudo, já assumi. Agora eu tô na igreja, quero ser melhor. Tem a Sandra, minha esposa me apoiando. É isso.

Ao tocar no dito assunto, o semblante de Jardel mudou. Fica claro que isso o incomoda muito e por essa razão não seguimos adiante. Por alguns momentos, um silêncio domina o carro. Nisso o telefone de Jardel toca.

– É o Fagner! [cantor brasileiro de sucesso nacional]. Vou atender… É vídeo é!? Fala Fagner!!!

Jardel atende no carro mesmo e se anima ao falar com o amigo.

Finalmente chegamos no bar com o jogo já iniciado. Os torcedores presentes de imediato reconhecem o ídolo e por vezes esquecem a partida para tietar Jardel. Ele não perdeu o prestígio mesmo com todos os problemas extra campo.

Relíquia: Jardel guarda com carinho presente autografado pelo artilheiro holandês Van Nistelrooy em português. (Foto: Paulinho Rahs)
Relíquia: Jardel guarda com carinho presente autografado pelo artilheiro holandês Van Nistelrooy em português. (Foto: Paulinho Rahs)

Cenas Lamentáveis: Teve o Criciúma, Flamengo do Piauí, Cherno More (Bulgária)… Você encerrou a carreira em 2011. Aí teve o curso de treinador e tudo mais. E depois a política… [Jardel foi eleito deputado estadual no Rio Grande do Sul com mais 41.000 votos em 2014. Em 2016 teve o mandato cassado por corrupção.]

Ah cara, isso ficou pra trás. Fui punido e prefiro não falar mais sobre isso. Se eu merecia? Acho que não. Agora, vai saber. Deixa isso pra lá…

Carreira de Jardel foi marcada por altos e baixos. Cassação de mandato na política e uso de cocaína estão entre seus momentos ruins. (Foto: Portela Online)
Carreira de Jardel foi marcada por altos e baixos. Cassação de mandato na política e uso de cocaína estão entre seus momentos ruins. (Foto: Portela Online)

Cenas Lamentáveis: E os teus planos para o futuro?

Tô indo pra Portugal esse mês, resolver uns assuntos por lá. Agora a gente tá vivendo aqui em Fortaleza, mas acredito que vou pra lá. O pessoal gosta muito de mim e eu ainda quero trabalhar com futebol.

Nisso o Grêmio marcou um gol e a festa foi geral no recinto. Todos abraçaram Jardel. A idolatria ficou clara que ainda existe, apesar de todos os pesares.

Cenas Lamentáveis: Para a gente fechar, que balanço você faz da sua carreira e que mensagem você deixa para os fãs do Jardel?

Tu viu aqui né cara. O pessoal ainda gosta de mim. Eu tive uma carreira muito bonita e agradeço a Deus por isso. Por isso, obrigado a todos que gostam de mim. Um abraço do Super Mário para os fãs do mundo todo e para o pessoal do Cenas Lamentáveis!

No fim, os erros de Jardel entre as drogas e a política são complicados e difíceis de julgar. Mas fazem parte da vida de um ser humano que na verdade é bom, mas imperfeito como todos nós. A idolatria dos torcedores que viram Jardel com a camiseta de seu clube sempre será viva, uma chama acesa como um cruzamento na área. O coração dos fãs sempre vai lembrar das cabeçadas de Mário Jardel toda vez que uma camiseta 16 invadir a grande área.

Obrigado, Jardel!

Jardel abriu as portas de sua sala de troféus para a entrevista com Cenas Lamentáveis/Paulinho Rahs (Foto: arquivo pessoal Paulinho Rahs)
Jardel abriu as portas de sua sala de troféus para a entrevista com Cenas Lamentáveis/Paulinho Rahs (Foto: Arquivo pessoal Paulinho Rahs)

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