CL na Copa: Espanha busca o bi e terá a despedida de Iniesta

DE OLHO NA HOMENAGEM AO MAIOR ÍDOLO

"La Roja" vai em busca do seu segundo título mundial. (Foto: Reprodução)
Por José Victor – RJ

A Espanha superou o fracasso da Copa do Mundo de 2014 — quando foi eliminada na primeira fase — e vem numa crescente. Não é exagero dizer que a equipe pode ser apontada como uma das favoritas para levantar a taça da Copa do Mundo. E o time terá um gás a mais para isso: a despedida de Andrés Iniesta, autor do gol do título do Mundial de 2010, e maior ídolo do país.

O caminho até a Rússia

A maioria dos jogadores da Fúria campeã Mundial de 2010 e Bi da Europa em 2008-2012 já não faz mais parte da seleção. Iniesta, Piqué, Sérgio Ramos e David Silva são os remanescentes da geração de ouro e que buscará o bi mundial na Rússia. 

Após a queda precoce em 2014, ainda restou para o antigo treinador Vicente Del Bosque a chance de manter a hegemonia no continente e emplacar o tricampeonato continental. Porém, a eliminação para a Itália nas oitavas de final da Eurocopa de 2016 forçou uma renovação. Chegou ao fim a “era Del Bosque” e se iniciou a “era Lopetegui”.

O técnico: Julen Lopetegui

A contratação de Julen Lopetegui representou bem um projeto profundo de renovação que precisava ser executado durante um curto espaço de tempo. O treinador esteve à frente das seleções de base da Espanha até 2014. Ganhou o título europeu pelas categorias sub-19 e sub-21. Qual escolha seria melhor para uma renovação com novos talentos do que o comandante que já havia conquistado títulos com os jogadores da nova geração? O fato é que apesar disso, a desconfiança ainda era alta. Alguns apontavam a falta de lastro do jovem para enfrentar o conturbado vestiário, enquanto outros apenas apontavam o seu fracasso à frente do Porto, seu único clube durante a carreira, onde teve 68.83% de aproveitamento, mas acabou perdendo os jogos mais relevantes.

Julen Lopetegui chega na Copa do Mundo invicto à frente da seleção espanhola (Foto: Reprodução Internet)

Lopertegui ainda está invicto à frente da Espanha.  São 13 vitórias e 5 empates, totalizando um aproveitamento de 72.22%. O sorteio das eliminatórias não foi muito grato, com a Itália caindo na mesma chave, aumentando o risco de disputar a repescagem. Porém, a Fúria passeou no grupo e durante os 10 jogos, obteve 9 vitórias e 1 empate, justamente contra a Azzurra, em Turim, se classificando diretamente para o Mundial de 2018. 

Apesar da inexperiência como técnico, essa não é primeira Copa do Mundo do treinador. Ex goleiro e com relativo sucesso na década de 90, fez parte do grupo que representou a seleção espanhola no Mundial de 1994, realizada nos Estados Unidos, quando a seleção brasileira conquistou o tetracampeonato mundial.

Lista para a Copa do Mundo

O time titular da Espanha tem jogadores que certamente seriam titulares em qualquer outra seleção do planeta. A equipe joga no 4-3-3, sempre com a linha de marcação adiantada e com os atacantes pressionando a saída de bola do time adversário; ou então, com uma variação tática do 4-2-3-1, com os pontas recuando um pouco mais deixando o adversário com mais espaço para subirem, em compensação, o meio de campo acaba sendo mais compactado, deixando apenas Diego Costa mais a frente para segurar os zagueiros adversários, abrindo espaço para as constantes infiltrações dos meio campistas, que costumam aparecer na área adversária como elemento surpresa.

Time espanhol que venceu a Argentina por 6×0 em Madrid. Em pé: De Gea, Sergio Ramos, Asensio, Piqué, Diego Costa e Thiago Alcântara. Agachados: Isco, Iniesta, Carvajal, Koke e Jordi Alba (Philippe Marcou/AFP)

Os onze prováveis titulares da Espanha e possíveis convocados são: De Gea (Reina, Kepa); Carvajal (Azpilicueta); Piqué (Nacho); Sérgio Ramos; Alba (Marcos Alonso); Sergio Busquets ; Thiago Alcântara (Koke), Iniesta (Saúl Ñíguez); Isco (David Silva), Asensio (Lucas Vázquez, Vitolo); Diego Costa (Iago Aspas, Rodrigo Moreno).

De Gea: O goleiro do Manchester United faz mais uma temporada impecável pelo clube inglês. A saída precoce da Liga dos Campeões para o Sevilla e o impecável campeonato do rival City podem não dar tanto knowow para o goleiro aqui no Brasil, mas certamente é dos melhores do mundo embaixo da trave. Embora a nova safra de arqueiros espanhóis possua alguns nomes interessantes, o experiente Pepe Reina do Napoli deve ser o imediato substituto de De Gea, enquanto Kepa Arrizabalaga do Athletic Bilbao, goleiro da nova geração e que por muito pouco não se transferiu para o Real Madrid na janela de janeiro, deve ser a terceira opção.

Carvajal: É o dono da posição no Real Madrid, sempre eficiente no apoio e seguro na marcação, cumpre todas as exigências que se espera de um lateral de alto nível.  Azpilicueta do Chelsea, que também pode atuar como zagueiro, deve ser o seu substituto.

Piquè: O zagueiro do Barcelona não goza mais do mesmo prestígio com os espanhóis, é bem verdade que muito mais pelas questões políticas do que pelo futebol apresentado dentro de campo. Porém, mesmo que o Barcelona tenha dominado o Campeonato Espanhol de ponta à ponta, Piqué não foi o melhor zagueiro do time, posto ocupado pelo francês Umtiti, colecionando algumas atuações questionáveis na temporada. Hoje, podemos considerar que o marido da Shakira é titular  mais pela carência de zagueiros de alto nível da Espanha do que por suas atuações. Ainda assim, é um jogador extremamente vencedor, com um forte espírito de liderança e que ainda atua em bom nível. Nacho, do Real Madrid, é o provável substituto caso haja algum problema com o zagueiro catalão.

Sergio Ramos: O zagueiro do Real Madrid é hoje o melhor do mundo na sua posição com sobras. Impecável nas bolas aéreas possui um aproveitamento surreal nos desarmes e, ainda por cima, sempre cresce muito nos momentos decisivos. A sua ausência no jogo contra a Juventus no Santiago Bernabeu foi fundamental para a reação dos italianos, pois desmantelou todo o sistema defensivo no time merengue, o que evidencia a importância do defensor para o que hoje é considerado por muitos, a melhor equipe do mundo. Descoberto como zagueiro apenas por Vanderlei Luxemburgo, Ramos passou a atuar na zaga pela seleção apenas depois da aposentadoria de Puyol. A relação com o seu companheiro de zaga pela seleção não é das melhores. A rivalidade entre Sérgio Ramos e Piqué transcende as 4 linhas. São inúmeras farpas trocadas via imprensa, seja sobre futebol ou política, mas ainda sim, ambos formarão a dupla de zaga titular na Rússia.

Jordi Alba: O lateral do Barcelona segue intocável. Sempre seguro na lateral esquerda, defende a Espanha desde 2011. Caminha para a sua segunda Copa do Mundo, seu provável reserva será Marcos Alonso, que atua pelo Chelsea, mas possui pouquíssimos jogos pela Seleção.

Sergio Busquets: O volante do Barcelona é essencial para o esquema do clube catalão. Muito competente na marcação e de excelente saída de bola, possui uma boa leitura de jogo e recompõe muito bem os espaços na defesa, além de aparecer como elemento surpresa no ataque. Caso Busquets desfalque a Fúria durante a competição, as opções podem ser desde o recuo de Thiago Alcântara, do Bayern de Munique ou Saúl, do Atlético de Madrid.

Thiago Alcântara: O toque brasileiro na seleção espanhola, Thiago é um dos poucos jogadores que não atuam na La Liga. Levado por Guardiola para o Bayern de Munique, ainda não teve a oportunidade de disputar nenhum grande torneio pela Roja devido as lesões. O filho de Mazinho, tetracampeão mundial pelo Brasil, tem como principal característica a visão de jogo e pode realizar qualquer função no meio de campo, algo essencial para o futebol dinâmico de hoje em dia. Apesar da grande concorrência, deve ser titular devido à polivalência.

Iniesta: O meio campista que realizou sua última temporada pelo Barcelona é considerado o maior futebolista espanhol de todos os tempos. Antes de qualquer análise, é necessário frisar o quão privilegiado é o povo russo de poder testemunhar um dos melhores e mais vencedores jogadores da última década se despedir do futebol de alto nível em sua casa. Iniesta, autor do gol do título da Copa do Mundo em 2010, é o líder e principal jogador, mesmo que já não esteja mais em seu auge técnico e físico, sua presença em campo impõe respeito. Sua presença no time é uma motivação a mais para que seus companheiros corram atrás do título mundial. Como não possui mais o mesmo vigor físico, deve ceder lugar durante os jogos para Koke do Atlético de Madrid, ou até mesmo David Silva do Manchester City.

Isco: Embora não esteja sempre garantido entre os 11 titulares do Real Madrid, é o jogador que mais tem atuações regulares com a camisa da Fúria, fazendo com que boa parte da imprensa espanhola e principalmente madridista cobre Zidane por lugar permanente no Real Madrid. O meia, inclusive, se deixou levar pela mídia e tentou cobrar no grito uma posição de titular nos merengues, porém, nada que abalasse as convicções do técnico francês. Com Lopetegui, Isco está garantido mesmo com enorme concorrência. Pode ser substituído por David Silva do Manchester City, ou até mesmo seu companheiro de Real Madrid, Lucas Vázquez.

Marco Asensio: Sem dúvida é um dos grandes candidatos a revelação da Copa do Mundo e é o símbolo da representação do futuro dessa Seleção. Asensio foi eleito o melhor jogador do Campeonato Europeu sub-21 em 2017. Suas atuações pelo Real Madrid já chamaram a atenção pela pouca idade e o quanto de responsabilidade carrega para um jogador de 22 anos. É titular absoluto. Vitolo, que após fazer boas temporadas pelo Sevilla, trocou a equipe da Andaluzia pelo Atlético de Madrid, porém como o Atlético de Madrid foi punido pela FIFA e impedido de inscrever novos jogadores na janela de verão da Europa, deve ser seu substituto. O jogador passou a primeira metade da temporada no Las Palmas e só em janeiro ingressou na equipe de Diego Simeone. Sempre com boas partidas e demonstrando boa capacidade de adaptação, pode ser uma boa alternativa para o jovem Asensio.

Diego Costa: O polêmico atacante brasileiro será o centro-avante da Roja na Rússia. Após realizar uma Copa decepcionante em 2014, Diego Costa pode creditar seu péssimo rendimento no Brasil a lesão que teve às vésperas do torneio. Com isso, o jogador do Atlético de Madrid não conseguiu chegar 100% fisicamente para o Mundial na fraca campanha desempenhada pela Espanha. As inúmeras confusões na carreira parecem fazer parte do passado. De volta ao clube que o projetou para o futebol mundial, o brasileiro naturalizado espanhol terá nova chance de demonstrar que pode ser tão importante para a Fúria quanto foi para os seus clubes durante a carreira.  

Os seus reservas seguem indefinidos. Morata que deveria ser o seu substituto natural, atravessa péssima fase no Chelsea, quando foi contratado justamente para substituir Diego Costa. Mesmo em um momento ruim, o atacante ainda possuía a confiança de Lopetegui. No entanto,  uma lesão nas costas deve tirar o jogador da competição.

O substituto deve ser Iago Aspas, centro-avante do Celta de Vigo, que chegou até as semifinais da Liga Europa na temporada passada e pelo segundo ano consecutivo, possui média superior a 0,6 gols por partida. Pesa contra Aspas, fracas passagens por clubes de mais expressão na Europa, como Liverpool e Sevilla, o que coloca em xeque a capacidade de sustentar uma responsabilidade maior. Outra possível aposta feita por Lopetegui para substituto de Diego Costa é o também brasileiro naturalizado espanhol Rodrigo Moreno, que atua pelo Valencia, 4° colocado no Campeonato Espanhol e autor de 15 gols pelo clube na “La Liga.”

O caminho durante a Copa

A Espanha está no grupo B, ao lado de Portugal, Marrocos e Irã.

Teoricamente disputará a liderança com Portugal, adversário da estréia e com quem realizará o famoso “clássico ibérico”. Quanto a seleção portuguesa, dispensa apresentações. Além de possuir um dos maiores nomes da história do futebol, vem creditada como a atual campeã européia.

O desempenho contra os lusitanos é favorável. São 38 jogos entre os países, com 17 vitórias para a Espanha, 13 empates e 8 vitórias para Portugal.  Apesar do bom momento, não é possível cravar uma vitória no embate. Por isso, olho no máximo no principal adversário da chave.

Na segunda rodada, o adversário é o Irã. Esse é um confronto mais difícil do que aparenta. O ponto forte do Irã é o entrosamento. Sempre muito bem na defesa, porém sem grandes nomes nos grandes palcos europeus, embora o país embarque para o seu segundo Mundial consecutivo. É necessário tentar um placar elástico, principalmente se a seleção empatar com os lusos na primeira rodada, pois o saldo de gols pode definir a primeira colocação.

Se for analisar a história dos países presentes na chave, a Copa do Mundo coloca em confronto mais um adversário íntimo: Marrocos. Durante a ocupação dos Mouros – povos do norte de Marrocos e parte da Argélia – na península ibérica, foram inúmeras contribuições e influências culturais deixadas tanto em Portugal quanto na Espanha, principalmente na região de Granada.

Quanto ao futebol, a seleção marroquina não deve oferecer grande resistência. O adversário da terceira rodada tem tudo para ser apenas aquele duelo para cumprir tabela caso os espanhóis garantam o triunfo nos dois primeiros jogos. Apesar de possuir alguns jogadores que atuam em grandes palcos, como Ziyech, meio campista do Ajax e Benatia, zagueiro da Juventus, os outros jogadores atuam em times sem tanta expressão no cenário europeu, e com isso, deve ser um jogo tranqüilo na última rodada.

Nem tudo são flores: a crise de identidade espanhola 

A Espanha busca através do futebol  uma forma de driblar as questões relacionadas à identidade no próprio país. Há grande tensão evolvendo a independência da Catalunha. E no passado o país enfrentou os problemas causados pelo grupo ETA, que almejava a independência da região Basca.

Pep Guardiola e o zagueiro Piqué são exemplos de personalidades do futebol espanhol que são abertamente favoráveis à independência. O técnico do Manchester City e o capitão do Barcelona apoiaram o referendo e são ativos na militância política que visa reconhecer a região como um país. Guardiola inclusive chegou a ser punido por usar uma fita amarela em apoio aos presos políticos pelo governo espanhol, entre eles, o ativista Jordi Sanchez e o ex-porta-voz do governo de Jordi Turull.

Guardiola, técnico do Manchester City prestando apoio aos presos políticos catalães (Foto: Anthony Devlin / EFE)

É comum testemunhar os torcedores catalães torcerem mais pelo sucesso dos jogadores catalães do que pela seleção espanhola. Piqué é um dos maiores símbolos de apoio a independência no meio esportivo. Sempre com posicionamentos firmes, seja nas entrevistas ou até mesmo nas suas redes sociais, chegou a enfrentar uma situação desgastante no ano passado quando as tensões separatistas em relação ao referendo atingiram o seu ápice.

O zagueiro do Barcelona declarou que se seu posicionamento político não fosse do agrado da maioria dos espanhóis, abriria mão de suas convocações. A atitude foi repreendida inclusive pelo seu companheiro de zaga da seleção espanhola, Sérgio Ramos, que atua pelo rival Real Madrid, ao comentar a declaração do companheiro: “O tuíte não é a melhor coisa para alguém que não queira ser vaiado. Talvez não seja o melhor para o grupo, mas cada um é livre para dizer o que pensa”, disse Ramos ao diário espanhol Marca, evidenciando o quanto a rivalidade entre a dupla de zaga transcende as quatro linhas.

O fato é que se Piqué passou a ter rejeição dos nacionalistas é ainda mais amados pelos separatistas. O outro símbolo do Barcelona não pode dizer o mesmo. Aplaudido em todos os estádios da Espanha, Iniesta goza do prestígio de todos, e sem dúvidas, é o maior nome presente na lista de La Roja.

Os problemas de identidade serão um obstáculo para Espanha em campo? Veremos na Copa. 

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*