Da dúvida à imortalidade: A seleção que conquistou o Penta em 2002

Em 2002, a Seleção Brasileira deixou a dúvida de lado e se tornou a primeira, e até hoje única, pentacampeã

Seleção Brasileira de 2002: pentacampeã em campanha histórica (Wilson Carvalho / CBF)
Seleção Brasileira de 2002: pentacampeã em campanha histórica (Wilson Carvalho / CBF)

O dia 30 de junho é o aniversário de uma das mais fantásticas conquistas da história do futebol e do esporte. São 14 anos do dia que ficou na memória de jogadores, jornalistas e torcedores como um dia mágico. As transmissões na madrugada, o retorno de craques internacionais ao palco e a consagração de novos jogadores fizeram parte de uma Copa do Mundo cheia de surpresas e inovações. Nesta data, em 2002, a Seleção Brasileira deixou a dúvida de lado e se tornava imortal: se tornou a primeira, e até hoje única, pentacampeã. Foi a melhor campanha da história das Copas.

As lembranças ainda são vívidas na memória dos brasileiros. O título, os grandes jogos, os golaços e até o corte de cabelo do Ronaldo ilustram isso. Essa edição trouxe também o novo padrão de modernidade dos estádios internacionais, consagrando o desenvolvimento do futebol asiático na década de 90.

O texto é dedicado a esses jogadores que realizaram o seu sonho de serem campeões, honraram a sua camisa e fizeram o coração brasileiro explodir em alegria.

Camisa 10 Rivaldo na Copa de 2002 (Divulgação: CBF)
Camisa 10 Rivaldo na Copa de 2002 (Divulgação: CBF)

A seleção nas eliminatórias da copa 2002 e a preparação para o mundial

Após a eliminação na Copa América de 2001 para Honduras, a CBF elegeu Luiz Felipe Scolari, o Felipão, para técnico da seleção principal. Durante a eliminatória enfrentou problemas de contusão, notoriamente as de Rivaldo e Ronaldo em seus clubes europeus, e havia dúvidas sobre o elenco.

O Brasil passou por 18 rodadas de classificação e enfrentou todos os países afiliados a Conmebol. A seleção teve um desempenho irregular ao longo da eliminatória. Foram nove vitórias, três empates e surpreendentes seis derrotas. As derrotas para Paraguai, na 6ª rodada, e Bolívia, na 17ª rodada, botaram em cheque o trabalho de Felipão. O país por pouco não se classificou diretamente para Copa. Foi para o último jogo precisando impreterivelmente da vitória contra a Venezuela. Venceu, e obrigou o Uruguai a jogar a repescagem contra a Austrália.

Há sempre uma grande expectativa na convocatória da seleção brasileira. Os 23 nomes foram escolhidos por Felipão e muitos jogadores já chamavam o grupo de “família Scolari”, devido à união dos atletas. O esquema tático foi uma adaptação europeia que o técnico pensou: 3-5-2, ao invés do consagrado 4-4-2. A imprensa pedia a continuidade do esquema tático antigo, mas devido à “teimosia” do comandante, uma nova forma de jogar foi construída para ser aplicada no Mundial.

A grande controvérsia de toda a fase pré-Copa foi o craque Romário. O baixinho vinha de grandes temporadas no Vasco da Gama, a imprensa pedia e a torcida também. Mas Felipão disse não. Apenas em 2012 o técnico revelou o motivo: o novo esquema tático não permitia o estilo de jogo do craque. Ele tinha a característica de ficar centralizado na área e se movimentar pouco, e o comandante queria movimentação e arrancada. Romário chegou até a pedir desculpas publicamente por suas atitudes de forçar sua entrada na equipe, mas não foram suficientes. Em entrevista à Folha de São Paulo em 2002, Felipão foi enfático:

Ele mostrou mais uma vez a sua vontade de ir à Copa do Mundo. Mas a vontade não é única do Romário. É também de todos que estão fora. Quero dizer ao público que aqui tem um técnico, que tem uma linha de raciocínio e de trabalho e que vai fazer de acordo com o que ele achar melhor para o Brasil.

A confiança em nível baixo, o esquema de três zagueiros, a ausência de Romário e a irregular classificação para o mundial foram fatores que não deram esperança para uma conquista expressiva. A descrença era maior, e os craques do time estavam em recuperação de suas lesões. As aspirações da seleção foram questionadas pela mídia. Apesar disso, Felipão não parecia se importar e estava determinado a manter sua linha de trabalho.

No dia 7 maio de 2002 foi a anunciada a equipe que disputaria o mundial:

  1. Marcos – Goleiro – Palmeiras
  2. Cafú (c) – Lateral-direito – AS Roma
  3. Lúcio – Zagueiro- Bayer Leverkusen
  4. Roque Júnior – Zagueiro – AC Milan
  5. Edmílson – Zagueiro – Olympique Lyonnais
  6. Roberto Carlos – Lateral-esquerdo – Real Madrid
  7. Ricardinho – Meio-campista – Corinthians
  8. Gilberto Silva – Volante – Atlético Mineiro
  9. Ronaldo – Atacante – Inter de Milão
  10. Rivaldo – Meio-campista – FC Barcelona
  11. Ronaldinho Gaúcho – Atacante – Paris Saint Germain
  12. Dida – Goleiro – Corinthians
  13. Belletti – Lateral-direito – São Paulo FC
  14. Anderson Polga – Zagueiro – Grêmio
  15. Kléberson – Volante – Atlético Paranaense
  16. Júnior – Lateral-esquerdo – Parma Football Club
  17. Denílson – Atacante – Real Betis
  18. Vampeta – Volante – Corinthians
  19. Juninho Paulista – Meio-campista – Flamengo
  20. Edilson – Atacante – Cruzeiro
  21. Luizão – Atacante – Grêmio
  22. Rogério Ceni – Goleiro – São Paulo FC
  23. Kaká – Meio-campista – São Paulo FC
Geração de Ronaldinho e outros se consagrou em 2002 (Divulgação / CBF)
Geração de Ronaldinho e outros se consagrou em 2002 (Divulgação / CBF)

A copa de 2002

Japão e Coréia do Sul sediaram uma grande Copa do Mundo em 2002, e seus estádios na época eram o símbolo da modernidade e tecnologia oriental. Foram 20 estádios em 20 cidades diferentes, sendo 10 em cada nação. Os países foram os primeiros da Ásia a receberem a competição.

A edição de 2002 foi a primeira em que três países estavam automaticamente classificados para a competição: os anfitriões Japão e Coréia e a detentora do título na edição anterior, França. Foram 13 equipes da UEFA (Europa), cinco da CAF (África), quatro da Conmebol (América do Sul), quatro da Concacaf (América do Norte) e quatro pela AFC (Ásia). Dois lugares ainda foram disputados em play-offs.

As surpresas na fase de grupos foram a desclassificação da França, que saiu sem nenhuma vitória, e a classificação da Suécia, no grupo da morte, em primeiro lugar. A composição dos grupos e sua classificação após a fase de grupos foi:

Grupo A: Dinamarca, Senegal, Uruguai e França

Grupo B: Espanha, Paraguai, África do Sul e Eslovênia

Grupo C: Brasil, Turquia, Costa Rica e China

Grupo D: Coréia do Sul, EUA, Portugal, Polônia

Grupo E: Alemanha, Irlanda, Camarões e Arábia Saudita

Grupo F: Suécia, Inglaterra, Argentina, Nigéria

Grupo G: México, Itália, Croácia, Equador

Grupo H: Japão, Bélgica, Rússia, Tunísia

O cruzamento foi feito da seguinte forma: o primeiro do grupo A enfrentava o segundo do grupo F, o segundo do grupo A enfrentava o primeiro do grupo F. E, assim também, com grupo B contra E, C contra H e D contra G.

A fase eliminatória foi recheada de surpresas e jogos memoráveis. A Coréia do Sul fez história vencendo a Itália na prorrogação, a Espanha nos pênaltis e terminou em quarto lugar. A Turquia fez sua melhor aparição internacional da história, com a geração que tinha o craque Hakan Sükür, o “Touro do Bósforo”. Ele também era companheiro de Ronaldo na Inter de Milão.  Senegal uma das sensações desta Copa, chegou às quartas de final em sua primeira aparição na competição.

Ronaldo na final e seu corte clássico de cabelo: imagens históricas da Copa de 2002 (Divulgação / CBF)
Ronaldo na final e seu corte clássico de cabelo: imagens históricas da Copa de 2002 (Divulgação / CBF)

A trajetória brasileira rumo à glória

A seleção brasileira foi sorteada em um grupo tecnicamente fraco. Não se esperava muito de Turquia, Costa Rica e China. O jogo mais difícil foi logo na estreia, contra os turcos. Uma arbitragem desastrosa e a malandragem de Rivaldo para causar a expulsão do zagueiro Ozalan foram as imagens deste dia. Os jogos contra China e Costa Rica ainda não empolgaram a torcida, mesmo com os nove gols somados nos dois encontros. O time ainda não tinha atingindo o entrosamento ideal e faltava um grande desafio para consolidação da filosofia de Felipão.

Nas oitavas de final, um jogo sem grandes surpresas contra a Bélgica. Rivaldo só viria marcar no minuto 67 da partida. O time de Daniel Van Buyten e do capitão Marc Wilmonts não constituiu uma grande ameaça para a família Scolari. Ronaldinho fez uma atuação pobre nessa partida e foi muito cobrado pela torcida.

A grande partida da seleção brasileira viria nas quartas de final, contra a Inglaterra. O time do sueco Svën-Goran Eriksson tinha uma geração absolutamente brilhante. Muitos lembrarão de Michael Owen marcando o primeiro gol aos 27 minutos. O time inglês ainda tinha David Seaman, Paul Scholes, Emily Heskey como jogadores notórios. E era capitaneado por ninguém menos que David Beckham. O primeiro tempo teve uma certa dominância inglesa, mas foi marcado pela força defensiva e poucas jogadas contundentes dos dois times. Nos acréscimos, Ronaldinho fez uma grande arrancada, no estilo que encantou o mundo, e tocou para Rivaldo, que mostrou toda sua categoria na finalização.

O segundo tempo reservava grande emoção para os torcedores. O Brasil mostrou grande poder de reação e voltou com atitude para levar a classificação para a semifinal. Em lance de falta, o mais famoso gol da Copa: a batida indefensável de Ronaldinho que encobriu David Seaman. O craque mostrou a que veio e seu gol foi muito comemorado. Após o gol, Ronaldinho fez falta grosseira no lateral Danny Mills e levou o vermelho direto. Com um a menos, o Brasil fez a tática mais sul-americana possível: gastar tempo através da “catimba”. Beckham e companhia levaram muito perigo a gol ainda, mas não foi o suficiente para bater Marcos.

Na semifinal, o reencontro com os turcos. O astro do time, Hakan Sukur, avisou na coletiva de imprensa que desta vez o Brasil não teria a arbitragem do lado, em referência ao primeiro episódio do confronto. O jogo físico dos euro-asiáticos e sua força defensiva fez com que o Brasil precisasse usar a criatividade na criação de jogadas. O único gol de Ronaldo, aos cinco do segundo tempo, foram suficientes para garantir que o Brasil disputasse a sua sétima final de Copa do Mundo.

A seleção da Alemanha, detentora de três títulos mundiais, esperava a seleção Canarinho em Yokohama. O goleiro Kahn, do Bayern de Munique, era o capitão da Alemanha, e Miroslav Klose era o principal atacante e astro da seleção.

Um jogo difícil, que seria o ponto de exclamação para consagrar a geração e a família Scolari. Aos 29 minutos, um grande lançamento de Ronaldinho, com finalização de Ronaldo, obrigou Kahn a fazer grande defesa. Aos 41 minutos, Cafu fez lançamento para Kleberson, que bateu com perigo na esquerda do gol alemão. Pouco depois, Kleberson chutou e acertou o travessão com muito perigo. O placar ficou zerado na etapa inicial. A etapa complementar reservava toda a emoção do jogo.

Aos três minutos do segundo tempo, o atacante Oliver Neville bateu uma bomba que acertou o poste esquerdo do goleiro Marcos, dando um grande susto na seleção. Três minutos depois, Roberto Carlos cruzou para Ronaldo, que quase fez um gol de cabeça. Kahn mais uma vez salva os alemães. Ronaldo levou um carrinho de Ramelow e perdeu a bola na entrada da grande área aos 21 minutos. Ele voltou, brigou pela bola e tocou pra Rivaldo, que finaliza forte e rasteiro. O goleiro alemão deu rebote, o centroavante não perdoou e marcou o primeiro gol. Na entrevista pós-jogo, o goleiro afirmou que esta falha foi a responsável pela vitória da seleção. Aos 33 minutos, Kleberson, que fez grande partida, lançou para Rivaldo, que fez um corta luz e deixou a bola chegar em Ronaldo. O craque centroavante não perdoou o vacilo da zaga e premiou a visão de jogo de Rivaldo. Segundo gol. O penta era realidade.

A conquista consagrou a geração de Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho, Cafu. E a insistência de Felipão foi premiada. A seleção em sete jogos venceu os sete, e fez a melhor campanha da história das Copas do Mundo, feito que até hoje é recorde. Apesar de Ronaldo e Rivaldo terem feito grande Copa, o premiado com o título de melhor jogador foi o goleiro Oliver Kahn. O camisa 9 viria a conquistar a bola de ouro da FIFA em 2002 no fim do ano em compensação.

Quando as cortinas da Copa se fecharam, uma única e dificilmente repetida pergunta surgiu. Foi a única vez no futebol que perguntaram: “Quem é Romário mesmo?”.

Texto e pesquisa: Lucas Poeiras (@pueira)

8 Comentários em Da dúvida à imortalidade: A seleção que conquistou o Penta em 2002

  1. “O cruzamento foi feito de forma descendente. O primeiro do grupo A enfrentava o segundo do grupo H, o segundo do grupo A enfrentava o primeiro do grupo H e, assim, sucessivamente.” – Se essa informação está correta, o cruzamento das oitavas deveria ser Dinamarca x Bélgica, o que não ocorreu (Brasil pegou a Bélgica). O chaveamento correto era GrupoA x GrupoF; B x E; C x H; D x G.

  2. Eu de novo, aha, o cruzamento indicado está incorreto, além da mencionada sexta final, neste ano o Brasil disputaria a sétima final, até entao o Brasil já havia conquistado 4 vezes a copa (58, 62, 70 e 94) e sido vice em duas oportunidades (50 e 98).

  3. A reportagem está incorreta, haviam 8 grupos nesta Copa, ou seja, 32 equipes disputaram a competição e não apenas as 24 listadas nos 6 grupos.

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*