Fair Play para que(m)?

Aproveitando a hipocrisia de alguns craques e do Jô, o Fair Play é e deve ser realmente praticado?

Por: Hugo Netto, MG

Na 24ª rodada do Campeonato Brasileiro de 2017, Jô fez um gol de mão. De braço, mais especificamente. Foi um gol na segunda metade da etapa final, e que deu a vitória ao Corinthians. Importantíssimo, considerando tanto o próprio resultado, quanto a alteração no psicológico de ambas as equipes e no ritmo do jogo que ele foi capaz de causar. Não vou entrar aqui na questão de quantos graus de hipermetropia o árbitro de linha de fundo tem, nem do porquê de ele estar sem seus óculos ou lentes de contato durante o jogo. Quero questionar até onde vai, e o quão obrigatória deve ser, a ética de João (que de sem-braço não tem nada) Alves de Assis Silva, de Thierry Henry, de Diego Maradona, e de qualquer outro praticante do esporte que leva os pés no nome, mas que volta e meia se utiliza de uma “mãozinha”.

La Mano de Jô

Em fevereiro desse ano, na estreia do Corinthians no Campeonato Paulista, contra o São Bento, Jô admitiu ter usado “um pouquinho” de malandragem, ao cavar um pênalti que ele mesmo converteu, marcando pela primeira vez depois de voltar ao clube, e, de quebra, trazendo a vitória.

Jô dando uma "ajudinha" na marcação do pênalti (Foto: Marcos Ribolli)
Jô dando uma “ajudinha” na marcação do pênalti (Foto: Marcos Ribolli)

Um mês após, no programa “Bem, Amigos!”, deu um discurso já recheado de hipocrisia, quando cobrou honestidade dos jogadores, que, segundo ele, têm grande influência nas decisões erradas da arbitragem.

Em abril, na semifinal do mesmo campeonato, foi beneficiado pela honestidade de Rodrigo Caio, que assumiu ser ele a ter pisado em seu companheiro de time, e não Jô, livrando-o de um cartão amarelo que suspenderia o atacante do próximo jogo. E, claro, sendo a seu favor, mostrou o mesmo apreço por esse tipo de atitude, exaltando o zagueiro.

Porém voltou a se contradizer no episódio atual. Após fazer o tal gol ilegal contra o Vasco, disse que se o juiz deu o gol, então não foi de mão, e que tinha apenas se projetado em cima da bola. Ainda que o que ele projetou tivesse sido o braço. Dois dias depois, “assumiu, mas não assumiu”. Vendo em casa, percebeu que tinha tocado sim, mas sem intenção.

La Mano de Dios

Quartas-de-final da Copa do Mundo de 1986. Uma bola no alto sobra na área, Maradona (1,65m) vai de encontro ao goleiro Peter Shilton (1,85m) na disputa, ela o encobre e vai para o gol. O argentino, logo no final da partida, batizou o lance: “Marquei um pouco com a cabeça e um pouco com a Mão de Deus”.

Se até Jô deve ter seus ideais questionados em situação parecida, imagine um argentino. Em seu livro, ele se orgulha de seu feito, e diz não se arrepender. Nem agora, nem em 30 anos, nem em seu leito de morte. Já na Copa de 2010, quando era treinador de sua seleção, chamou a atenção de todos para a entrada dos garotos nos estádios com a bandeira do Fair Play, e pediu que os árbitros – sim, os árbitros – entendessem o que essas palavras significam. Mas o que Dieguito não deve se lembrar é que essa campanha foi iniciada pela FIFA justamente por causa do lance em questão.

Lê Manê de Henry (ou A Mão da Gália)

Nessa, o “artifício” não foi utilizado para fazer o gol, mas para construir a jogada. Foi na repescagem das Eliminatórias da Copa de 2010. Na primeira etapa da prorrogação, quando ambas as equipes precisavam de um gol para se classificarem, Malouda cobra uma falta para dentro da área irlandesa, encontrando Henry, que, cuidadosamente, domina a bola com a mão, e, não satisfeito, também a conduz da mesma forma, para então tocar para Gallas marcar o gol da classificação.

Henry cumprimentando a bola antes de passá-la para o companheiro (Reprodução)
Henry cumprimenta a bola antes de passá-la para o companheiro. (Reprodução)

O francês foi ainda mais indeciso que os outros. Assim como eles, de primeira negou que tenha cometido a ilegalidade, mas depois admitiu. Se disse feliz por ter se classificado, mas depois sentia vergonha pelo que fez e lamentava pelos irlandeses. Se safou, alegando ser o árbitro o culpado, por não ter visto, mas depois divulgou em nota que o mais justo seria refazer a partida. Fácil, já estava classificado. Ainda que, se soubesse a campanha vergonhosa que sua seleção faria na Copa daquele ano, teria cedido de bom grado a vaga para os prejudicados.

Mas alguém, ou melhor, uma entidade, conseguiu superar as contradições do protagonista desse caso. John Delaney, dirigente da Federação Irlandesa de Futebol, revelou, em junho de 2015, que a FIFA – sim, aquela que regulamente o futebol e prega o Fair Play acima de tudo – pagou 5 milhões de dólares para que eles não entrassem com um recurso sobre o jogo.

Afinal: De Dios o del diablo?

Maradona ganhou uma Copa do Mundo para a Argentina e motivou o incentivo ao jogo limpo. Henry levou a França para uma Copa do Mundo e quase causou a sua aposentadoria da seleção, e a do árbitro daquela partida. Jô garantiu 3 pontos para o Corinthians na busca do título e fez a CBF buscar a implementação do árbitro de vídeo no Campeonato Brasileiro. Bons ou maus, todos os lances polêmicos acabam trazendo legados.

Fato é que, quando até a entidade máxima do futebol se torna exemplo de trapaças e falcatruas das mais variadas, é difícil condenar um jogador que, dentro de campo, põe em risco os próprios valores para cumprir seu maior dever: trazer a vitória para seu time. E mais difícil ainda é condenar um que assuma essa intenção.

 

Fontes: Wikipedia, ESPN, O GloboÉpoca, Globo Esporte, SporTVR7 Esportes

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