Quando o Grêmio jogou três partidas no mesmo dia

Em 11 de dezembro de 1994, o Grêmio teve que jogar três partidas no mesmo dia para conseguir cumprir a tabela do Campeonato Gaúcho do mesmo ano. E o pior de tudo: os jogos não tiveram importância nenhuma

Regulamento do Campeonato Gaúcho de 1994 conseguiu a façanha de fazer um time jogar três vezes no mesmo dia

Muito se fala hoje em dia sobre a desorganização do futebol brasileiro. Reclamações sobre a falta de planejamento dos clubes, sobre a falta de sincronia do nosso calendário com o calendário europeu ou sobre o excesso de jogos são algumas que estão sempre presentes quando buscamos explicar algum fracasso dos brasileiros em edições da Libertadores ou em Copas do Mundo. É fato que o futebol brasileiro deve contar com algumas mudanças, principalmente no que se refere ao seu calendário. Mas as gerações mais recentes talvez não tenham ideia de como os campeonatos de futebol já foram organizados no Brasil. Pois então, como descrever melhor para essas novas gerações o que ocorreu com o Grêmio no já distante 11 de dezembro de 1994 de forma mais apropriada do que com a alcunha “rodada do absurdo”?

O Campeonato Gaúcho de 1994 foi mais uma das tantas pérolas fabricadas pelos cartolas do futebol brasileiro. A Federação Gaúcha de Futebol chegou à conclusão de que o Gauchão precisava ser enxugado no próximo ano. Assim, de um ano para o outro. O campeonato, que contava com 23 clubes, teria que contar com apenas 14 em 1995. E como fazer isso de uma forma mais “justa”? Utilizando uma fórmula de pontos corridos, com todos os clubes jogando contra todos em partidas de ida e volta. Nascia “O Interminável” campeonato de 1994.

Nesse ano, cada participante do campeonato jogou 44 jogos. Isso pode até parecer interessante para um time do interior do estado, que hoje em dia joga tão poucos jogos e se vê obrigado a dispensar seus jogadores no segundo semestre. Mas como viabilizar que um time como o Grêmio, que naquele ano disputava também Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil, Supercopa e Copa Conmebol jogue tantos jogos em um mesmo ano? Obviamente, isso é inviável. O Grêmio disputou 95 jogos em 1994, sendo 3 em um mesmo dia: 11 de dezembro de 1994. As partidas foram marcadas para o mesmo dia tamanha era a escassez de datas para jogos do Grêmio, que estava às voltas com tantas competições simultâneas. E como se isso não fosse absurdo o suficiente, os três jogos não valeram nada para os times envolvidos, tendo em vista que não alterariam nada na classificação em uma época que a vitória ainda valia 2 pontos.

http:::zh.clicrbs.com.br:rs:esportes:gremio:noticia:2014:12:como-zero-hora-retratou-os-tres-jogos-do-gremio-no-mesmo-dia-em-1994-4661195.html
Matéria da Zero Hora sobre a jornada tripla do Grêmio naquele 11 de dezembro de 1994 (Foto: Reprodução/Década de Ouro 90)

Para este dia, o ainda jovem Luiz Felipe Scolari, técnico do Grêmio na época, concentrou 42 jogadores e utilizou 34 deles nas três partidas. O Grêmio deveria respeitar a legislação esportiva, que não permitia que um jogador atuasse por mais de 90 minutos em um dia. O calor do verão porto-alegrense era insuportável e o Grêmio entrou em campo pela primeira vez no dia às 14h, contra o Aimoré, com um time recheado de juvenis e juniores. Com condições climáticas insalubres, com sensação térmica chegando aos 48º, o árbitro Willy Tissot tomou uma decisão inédita na época: interrompeu a partida aos 25 minutos para que os jogadores pudessem se reidratar por 3 minutos. O jogo não teve nenhuma emoção e, como não poderia ser diferente, terminou em 0 a 0.

Time do Grêmio fardado de branco para a primeira partida, contra o Aimoré
Time do Grêmio fardado de branco para a primeira partida, contra o Aimoré (Foto: Reprodução/Década de Ouro 90)

FICHA TÉCNICA – Grêmio 0 x 0 Aimoré (14h)

Grêmio: Murilo, Cristian, Luciano, Éder e Júlio César; Puma, Alexandre e André Muller; Tefo (Juliano), Escurinho e Rodrigo Gasolina. Técnico: Zeca Rodrigues

Aimoré: Rogério, Martins, Aládio, Márcio e Marquinhos; Aílton, Clóvis e Lindomar (Oberti); Leco, Márcio Cruz e Ânderson. Técnico: Celso Freitas

Arbitragem: Willy Tissot, auxiliado por Sérgio Chagas e José Pessi

 

Às 16h, o Grêmio entrou em campo com a equipe mais próxima da titular. Sete deles atuaram nesta partida. E sem trégua do calor, o tricolor bateu o Santa Cruz por 4 a 3, no jogo mais empolgante do dia.

Grêmio de uniforme tricolor para enfrentar o Santa Cruz
Grêmio de uniforme tricolor para enfrentar o Santa Cruz (Foto: Reprodução/Década de Ouro 90)

FICHA TÉCNICA – Grêmio 4 x 3 Santa Cruz (16h)

Grêmio: Danrlei, Ayupe, Scheidt, Agnaldo Liz, Arílson; Pingo, Jamir, Jé (Émerson); Fabinho, Jacques (Ciro) e Carlos Miguel. Técnico: Zeca Rodrigues

Santa Cruz: Gilmar, Édson, Itamar, Alamir e Varta; Carlos, Sídnei e Áureo; Caio (Alceu), Paulo Roberto e Eldor. Técnico: Tadeu Menezes

Arbitragem: Leonardo Gaciba, auxiliado por Roberto Scherer e Carlos Bitencourt

 

O Brasil de Pelotas chegou ao estádio Olímpico por volta das 15h para a partida derradeira do dia, às 18h. Como não havia vestiário vago para os jogadores, o jeito foi ir para as sociais e esperar a hora do jogo desfrutando picolés pagos pelo técnico Ernesto Guedes.

Ernesto Guedes desfruta um picolé enquanto espera por um vestiário para seus jogadores
Ernesto Guedes (de bigode) desfruta um picolé enquanto espera por um vestiário para seus jogadores (Foto: Reprodução/Década de Ouro 90)

FICHA TÉCNICA – Grêmio 1 x 0 Brasil de Pelotas (18h)

Grêmio: Aílton Cruz, Jairo Santos, César, Cristiano e Duda; André Vieira, Wallace e Émerson (Jacques); Carlinhos, Ciro (Juliano) e Cristiano Santos. Técnico: Luiz Felipe Scolari

Brasil: Cássio, Júnior, Silva, Rogério e Marcelo; Marquinhos, Dido (Sassia) e Cléber; Jabá, Nazarildo (Netinho) e Martins. Técnico: Ernesto Guedes

Arbitragem: Paulo Felipe, auxiliado por Paulo Iguariassá e Vilso Petry

 

Texto: Samuel Mattioda (@samuelmattioda)

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