Quarenta minutos antes do nada: Fla-Flu, o clássico que apaixona até os neutros

O clássico mais charmoso do Brasil comemora 105 anos

Zico e Rivellino: dois grandes expoentes do clássico histórico (Reprodução)
Zico e Rivellino: dois grandes expoentes do clássico histórico (Reprodução)
Por Lola Ferreira, RJ

“O Fla-Flu não tem começo. O Fla-Flu não tem fim. O Fla-Flu começou quarenta minutos antes do nada. E aí então as multidões despertaram.”

“Eu queria dizer que o Fla-Flu apaixona até os neutros. Ou por outra: diante do formidável clássico não há neutros, não há indiferentes.”

(Nelson Rodrigues)

Há quem vá dizer que o Fla-Flu não é mais o mesmo, que os dois times não têm mais craques à altura do que já tiveram e que as partidas já não são mais históricas como já foram. Esta pessoa não gosta de futebol, de fato. Todo Fla-Flu é histórico, pois é mais um capítulo no livro de memórias do clássico mais charmoso do futebol brasileiro. Em 7 de julho de 1912, Flamengo e Fluminense se enfrentaram pela primeira vez nas Laranjeiras. De lá para cá, são 105 anos de jogos memoráveis, craques invencíveis, gols marcantes e muita história.

Sobre o primeiro jogo, também Nelson Rodrigues disse: “Vejam como, histórica e psicologicamente, esse primeiro resultado seria decisivo. Se o Flamengo tivesse ganho, a rivalidade morreria, ali, de estalo. Mas a vitória tricolor gravou-se na carne e na alma flamengas.” E é verdade. Dissidente, o Flamengo tinha em seu elenco os titulares do antigo clube e enfrentaria reservas em um jogo que marcava, definitivamente, o rompimento que houvera. E como os deuses do futebol não falham, sequer desistem, aquela tarde concedeu ao tricolor a vitória e criou uma das rivalidades mais bonitas do futebol.

Zico, como de costume, dava show nos clássicos (Apaixonafutebol.blogspot.com.br)
Zico, como de costume, dava show nos clássicos. Na foto, sua despedida dos gramados e dos Fla-Flus (Apaixonafutebol.blogspot.com.br)

Mas não foi a vitória, por si só, que fez o Fla-Flu ser Fla-Flu. As sílabas que viraram sinônimo de embates fervorosos até fora do futebol foram cunhadas, pela primeira vez, por Mário Filho, flamenguista. E reforçadas nas crônicas pelo caçula Nelson Rodrigues, tricolor. As definições apaixonadas deste, elevaram o clássico à esfera mítica do futebol. E a cada jogo entre os dois times, elas vêm à tona, aliadas a feitos históricos de personagens tão importantes quanto os irmãos na construção deste clássico.

Charmoso e inigualável. Flamengo e Fluminense lotaram o Maracanã várias vezes, mas houve uma em que nada jamais será igual. Lotação de verdade. Superlotação. Em 15 de dezembro de 1963 foram 194.603 pessoas presentes no estádio. Cento e noventa e quatro mil pessoas. É o maior público de um jogo entre clubes da história do futebol.

Foi em um Fla-Flu, também, que Zico, o maior artilheiro da história dos clássicos, se despediu dos gramados (1989). Seis anos depois, foi também em uma dessas partidas que Renato Gaúcho fez um gol de barriga. São Flamengo e Fluminense, também, protagonistas de um episódio curioso: após o clássico ser a preliminar de um Brasil x França, as duas torcidas se uniram nas arquibancadas das Laranjeiras para torcer pela seleção, que venceu de virada.

Gol de barriga: até hoje o gol mais conhecido de Renato Gaúcho (Anibal Philot / O Globo)
Gol de barriga: até hoje o gol mais conhecido de Renato Gaúcho (Anibal Philot / O Globo)

O Fla-Flu é tão único, que sequer podemos cravar quantas vezes foi disputado. Algumas fontes dão conta de 395, outras de 401, algumas de 397, outras de 417. A concordância é que Flamengo lidera o número de gols diante do Fluminense, mas não sabe-se ao certo também quantos. Seriam cerca de 580 gols contra 530 do tricolor. Há também os empates, que podem ser 126, 122, 128…

Mas o que é certo, certo mesmo é que “os dois amam a mesma cidade, o Rio de Janeiro, preguiçosa, pecadora, que languidamente se deixa querer e se diverte oferecendo-se aos dois sem se dar a nenhum. Pai e filho jogam para a amante que joga com eles. Por ela se batem, e ela vai aos duelos vestida de festa”. (Eduardo Galeano)

Diante de tanta história, números são irrelevantes, com certeza. Até as estatísticas saem de cena para os dois times brilharem, elas reconhecem não serem importantes diante dos dois. Fla-Flu é uma instituição, adorada e odiada, épica e contraditória, santa e profana. E única, absolutamente única. E por isto seguiremos a homenagear Zico, Assis, Júnior e Renato Gaúcho não só em 7 de julho mas em cada repetição deste clássico.

Fontes: ColunaDoFlamengo, ESPN (+1 e 2), Extra, FutebolEmNúmeros, GloboEsporte (+ 1, 2 e 3), IG (+ 1 e 2), Jornalheiros (+1) e Trivela

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