Quem foi Lily Parr?

(Foto: Reprodução/ Twitter)

Marcela Lorandi, RS

Encorajar uma mulher é abrir um horizonte de uma força de vontade inesgotável que pode mudar toda uma realidade ao seu redor. Gostaria de ter sido eu a ter encorajado Lily Parr, a mulher que marcou 900 gols em sua carreira de jogadora de futebol, que começou no ano de 1919. Afinal, praticar futebol em uma época que homens comandavam tudo, menos as tarefas da casa, era um ato de muita coragem.

Eu não sei se a história teria sido escrita da mesma forma se Lily não tivesse jogado bola, não sei se depois dela ainda assim surgiriam Martas, Formigas e Cristianes. Mas alguém encorajou Lily Parr, e ela escreveu, com uma bola de futebol de couro sintético, um capítulo do livro do mundo da bola que foi lido por americanos, noruegueses, alemães e suecos, alguns dos países que mais valorizam o futebol feminino no mundo.

A jovem menina inglesa iniciou no futebol aos 14 anos, começou no St Helens Ladies, em 1919. Logo foi contratada pelo Dick, Kerr Ladies, uma equipe maior que era mantida por uma fábrica de equipamentos para carros, e foi fundada como equipe de trabalho da Primeira Guerra Mundial para a empresa Preston Dick, Kerr & Co. Na primeira temporada Lilly marcou 43 gols. Numa comparação desproporcional, não levando em consideração a época, os adversários e nem o gênero, Lily marcou mais em sua primeira temporada no Dick que o Cristiano Ronaldo em sua primeira temporada no Real Madrid, quando ele balançou as redes 33 vezes.

Time Kerr Ladies, equipe em que Lily marcou 43 gols em sua primeira temporada

Uma curiosidade sobre a prática do futebol feminino na Inglaterra naquela época é que os jogos eram beneficentes e toda a renda era doada á uma associação que cuidava de soldados e marinheiros machucados por conta da Primeira Guerra Mundial. Isso mesmo que você leu, mulheres jogando futebol sem receber nada para salvar homens que faziam guerra.

Mas aí você pensa que era pouco dinheiro, que ninguém teria entusiasmo em assistir o futebol feminino. Muito pelo contrário, as partidas estavam sempre repletas de torcedores e com alguns jogos logo o valor arrecadado chegou próximo de 100 mil libras, na conversão atual seria aproximadamente 448 mil reais.

As coisas corriam bem, mulheres trabalhavam muito, e também se divertiam. Foi quando chegou o ano de 1921, e o futebol feminino foi proibido de ser praticado na Inglaterra. Lily Parr e seu time partiram em excursões pelos Estados Unidos para que pudessem seguir fazendo o que amavam. 9 jogos foram o suficiente para a jogadora virar destaque nos jornais, “a mais brilhante jogadora do mundo”, mas que vivia em um país que proibia as mulheres de juntarem-se 11 de cada lado para rolar uma bola.

E como tudo que abusa da autoridade, as jogadoras acabaram demitidas do clube quando retornaram a Inglaterra e a instituição encerrou as atividades. A fim de ignorar as regras impostas por homens que a vida inteira souberam muito bem o seu posicionamento no mundo da bola, ela voltou ao futebol. Lily até procurou um emprego em um hospital, mas lá não havia o calor da torcida, os uniformes não tinham o mesmo caimento e a adrenalina até poderia ser semelhante, mas o cheiro da grama cortada e som do apito do árbitro devolveu-a aos campos.

Ela voltou atuando pelo Preston Ladies, enquanto o esporte ainda estava proibido e enquanto a segunda Guerra Mundial acontecia. Lily Parr marcou 900 gols, balançou as redes de todos os clubes adversários, dos dois lados do campo, de todas as maneiras. Enquanto ela lutava para fazer história e abrir os caminhos, para que nós mulheres também possamos ocupar esses espaços, os homens faziam guerra, e veja bem, ainda nem decidiram quem saiu com a vitória.

Em 1950, enquanto o Brasil vivia o fantasma do Maracanazzo, a jogadora, que representou milhões de mulheres que hoje trabalham no jornalismo de futebol, jogam bola, atuam como bandeirinhas, trabalham em clubes e frequentam os estádios do mundo inteiro, saiu do campo e se dirigiu ao vestiário pela última vez na sua carreira, Lily pendurou as chuteiras naquele ano, aos 45 anos de idade.

Lily Parr desafiando os padrões para a época e mostrando que mulher sabe de futebol

Ela faleceu de câncer em 1978, mas ainda teve tempo de ver o maior sonho da sua vida realizado. Em 71 a Federação Inglesa de Futebol reviu a lei e permitiu que mulheres jogassem futebol e fossem filiadas a entidade. A lei que durou de 1921 até 1971 foi derrubada, mulheres voltaram a jogar futebol e dessa vez não mais para fins beneficentes. Uma vida inteira dedicada ao fim da misoginia foi contemplada com uma homenagem no Salão da Fama do futebol inglês, ela é única mulher por lá!

E não deixemos nunca que a luta de Lily Parr tenha sido em vão, que se reivindique cada vez mais o nosso espaço, nós somos muito melhores juntas, se formos em 11 de cada lado, então, melhor ainda.

Fonte: Globoesporte.com
Fifa.com

 

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