Saiu Didico, voltou Imperador: a favela nos deu Adriano

“Voltei para vencer”, e venceu: o Imperador estava em casa | Foto: Alex Carvalho/AGIF
Texto de Marcelo David Macedo, originalmente publicado em 17 de fevereiro de 2017.

Em campo, letal e leal; fora dele, intenso e bondoso. Como definir Adriano? Hoje, dia de Decreto, o Imperador completa 35 anos – e sua festa de aniversário, a ser realizada na próxima terça-feira (21), já está entre as mais disputadas do Rio de Janeiro este ano.Tudo isso você já deve saber. Adriano tem sido constantemente abordado pela mídia caça-clique como o cara que “jogou a carreira fora”, “torrando” em “farras” um dinheiro que, um dia, “vai acabar”. Aqui, você não verá nada disso – afinal, o dinheiro é dele e isso não é da nossa conta. O que nos importa é o que ele fez dentro de campo – e como chegou até lá.

Adriano Leite Ribeiro nasceu em 1982, a uma semana do Carnaval. Viveu toda sua infância e adolescência na Vila Cruzeiro, uma das favelas pertencentes ao potente Complexo do Alemão, na zona norte do Rio. A mãe, Rosilda, tinha um acordo com o pai, Almir, antes mesmo do menino nascer: Adriano seria seu único filho. As dificuldades inerentes à vida de quem mora na favela eram ainda maiores para aquela família, cuja mulher engravidou ainda menina – Rosilda se tornou mãe aos 17 anos. E mesmo tão nova, já traçava estratégias de sobrevivência.

– Passei fome, dificuldade na minha vida. Quando engravidei do Adriano, tinha acabado de fazer 17 anos. Falei assim: “Quero ter só um filho, porque não quero que ele passe o que passei”. Meus pais não tinham condições de dar estudo, não tínhamos o pão para comer de manhã. Muitas vezes sentia o cheiro da carne do vizinho para fingir que estava comendo. Quando conheci o meu marido, a gente comia macarrão com farinha, água e sal. Só tinha aquilo para comer.

Para a família, Adriano era Didico, apelido que ilustra bem todo o amor e carinho que sempre recebeu – e em troca, usou para lidar com o mundo. Mas todo esse cuidado não evitou que Adriano fosse vítima da violência social que assola os moradores das áreas mais pobres de uma cidade como o Rio de Janeiro. Aos dez anos, ao ouvir um barulho de tiro, Didico correu para ver o que acontecera e se deparou com o pai, Almir, baleado na cabeça, vítima de um desentendimento entre pessoas que estavam a poucos metros dali.

Almir ainda viveria por anos com aquela bala alojada na cabeça, inclusive jogando bola, o que contrariava ordens médicas. Aliás, o futebol sempre fez parte da família – Rosilda, a mãe, era centroavante em campeonatos que Almir organizava em favelas do Alemão. Didico crescera nesse ambiente, agarrado à bola como se fosse parte de si e dos seus, mas a pobreza, mais uma vez, quase mudou o destino daquele menino magro e comprido.

Prestes a completar 10 anos, Adriano contraiu sarampo. Rosilda temeu pelo pior, pois seu filho mal conseguia ficar de pé. Didico quase ficou cego, e o médico afirmou que faltou pouco para que morresse. Porém, a partir dali, o menino enfraquecido por uma vida de privações se tornou o “touro” que, com fome de viver, anos mais tarde receberia a coroa de um império.

O caminho do Imperador

Adriano começou sua carreira profissional no Flamengo em 2000, aos 17 anos, cria de uma geração que tinha, entre outros, André Bahia e Felipe Melo. Participante da campanha do histórico tricampeonato carioca do Flamengo na virada do século (1999-2000-2001), o jogador acabaria vendido para a Internazionale em 2001, numa controversa negociação onde o Rubro-Negro cedeu dois jovens promissores, Adriano e Reinaldo, em troca de Vampeta. Na estreia pelo clube de Milão, fez um gol no Real Madrid em pleno Santiago Bernabéu. Emprestado à Fiorentina e ao Parma nos anos seguintes, retornou à Inter de Milão em 2004 e, a partir daí, virou bandeira. Em cinco anos, Adriano foi tetracampeão italiano e bicampeão da Copa da Itália e desde então passou a ser chamado pelos italianos de “Imperador”, em alusão ao imperador romano Adriano (76 d.C-138 d.C).

Em 2004, sofreu um dos golpes mais duros de sua vida: a morte do pai, Almir, vítima de um infarto. Apenas nove dias antes, Adriano se sagrava campeão da Copa América numa final histórica contra a Argentina, onde teve papel fundamental: foi dele o golaço que levou a decisão para os pênaltis, onde o Brasil venceu. Seu pai, um de seus maiores incentivadores e conselheiros, havia o deixado, mas o Imperador ainda manteria o altíssimo nível de suas atuações até pouco antes da Copa do Mundo de 2006, na Alemanha, onde fracassou junto com a Seleção Brasileira.

A partir daí, Adriano passou a conviver com graves problemas pessoais, típicos de um menino pobre que não tem nada e que da noite para o dia passa a ter o mundo. Seu mundo de privações passou a ser de luxo, mas longe dos amigos, da família e do seu chão, o Rio e a Cruzeiro. Após anos de turbulências entre o jogador e a Inter de Milão por conta dessa situação (inclusive com um empréstimo sem sucesso do jogador ao São Paulo, em 2008), veio o rompimento: em abril de 2009, Adriano não retornou à Itália após defender a Seleção em um jogo pelas Eliminatórias para a Copa de 2010 e passou três dias querendo apenas “viver tranquilamente na favela” onde nasceu. O clube italiano o dispensou, o jogador anunciou que pararia de jogar futebol por tempo indeterminado, mas apenas um mês depois, voltou para casa nos braços da torcida rubro-negra: fechou com o Flamengo.

E 2009 foi realmente intenso para Adriano. Ao final daquele ano, sagrou-se campeão brasileiro pelo Flamengo, numa campanha tão surpreendente quanto histórica, terminando a competição como artilheiro, com 19 gols e um dos principais destaques, ao lado do sérvio Petkovic. Aquele fora, também, seu último brilho como um jogador de nível internacional, como seu enorme talento lhe permitia ser.

O Imperador começou uma caminhada de experiências precocemente interrompidas e mal-aproveitadas:  em 2010, na Roma, jogou apenas oito vezes; em retorno ao Brasil no ano seguinte, foi para o Corinthians, onde fez dois gols em oito jogos – sendo um deles contra o Atlético Mineiro, no Pacaembu, em um jogo decisivo para a conquista do título brasileiro de 2011 pelo Timão; em 2012, voltou ao Flamengo, numa passagem que durou tão pouco que Adriano sequer conseguiu entrar em campo; em 2014, contratado pelo Atlético-PR para jogar a Taça Libertadores da América, jogou apenas quatro partidas, com um gol marcado.

Em 2016, o Imperador comprou 40% das ações do Miami United, dos Estados Unidos, e se tornou jogador do clube, mas a experiência não durou mais do que três meses: após dois jogos e um gol, retornou ao Brasil, embora siga como acionista do time estadunidense.

Parabéns, Didico

Agora com seus 35 anos, Adriano Imperador é um personagem cada vez mais fascinante e conhecendo um pouco mais a sua história, fica fácil entender porquê. Entre acertos e erros, inerentes a todo ser humano, percebe-se que Adriano é uma pessoa cuja retidão é unanimidade entre todos os que o conhecem, em conversas públicas ou particulares – e, nas palavras de Rosilda, sua mãe, e de Wanda, sua avó, uma “criança grande”.

Vivemos um mundo onde julga-se muito sabendo-se pouco ou nada sobre alguém. Muitos falam sobre possíveis problemas de Adriano com o álcool e com depressão – e caso ele os tenha, que consiga perceber isso a tempo e tenha a ajuda necessária para se recuperar, pois ambas as doenças são absolutamente devastadoras. Se a escolha por morar no Rio e longe do futebol foi consciente, que seja feliz, entre os seus, no seu mundo. Cabe a ele, junto a seus familiares e amigos, decidir sobre o que é melhor para si.

A nós, cabe admirar a carreira de um cara que redefiniu o conceito de carisma, sendo adorado por torcedores de todos os clubes do futebol brasileiro – e até de fora do país. Que a vida de Adriano seja longa e plena. Que as imagens de sua carreira, os títulos italianos pela Inter, aquele gol antológico na Copa América, o título brasileiro do Flamengo, que todos esses momentos sejam eternos, e serão.

Escolhemos aqui, celebrar sua vida e sua obra. Grande parte da mídia, infelizmente, continuará debatendo a vida pessoal de Adriano, como faz com qualquer figura pública, ainda que não seja notícia, pois gera clique, e clique gera dinheiro. Bom, não importa.

Parabéns, Adriano.

E que Deus perdoe essas pessoas ruins.

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