Saiu Didico, voltou Imperador: a favela nos deu Adriano

Completando 35 anos, o "cria" mais famoso da Vila Cruzeiro venceu a pobreza, ganhou o mundo e agora quer paz

Adriano comemora gol pelo Flamengo em clássico contra o Vasco, em 2010: perdoai-nos, Imperador. (Foto: Reprodução de Internet)
Por Marcelo David (RJ)

Em campo, letal e leal; fora dele, intenso e bondoso. Como definir Adriano? Hoje, dia de Decreto, o Imperador completa 35 anos – e sua festa de aniversário, a ser realizada na próxima terça-feira (21), já está entre as mais disputadas do Rio de Janeiro este ano.

Tudo isso você já deve saber. Adriano tem sido constantemente abordado pela mídia caça-clique como o cara que “jogou a carreira fora”, “torrando” em “farras” um dinheiro que, um dia, “vai acabar”. Aqui, você não verá nada disso – afinal, o dinheiro é dele e isso não é da nossa conta. O que nos importa é o que ele fez dentro de campo – e como chegou até lá.

Adriano, o Imperador da Internazionale (Foto: YouTube)
Adriano, o Imperador da Internazionale (Foto: YouTube)

Adriano Leite Ribeiro nasceu em 1982, a uma semana do Carnaval. Viveu toda sua infância e adolescência na Vila Cruzeiro, uma das favelas pertencentes ao potente Complexo do Alemão, na zona norte do Rio. A mãe, Rosilda, tinha um acordo com o pai, Almir, antes mesmo do menino nascer: Adriano seria seu único filho. As dificuldades inerentes à vida de quem mora na favela eram ainda maiores para aquela família, cuja mulher engravidou ainda menina – Rosilda se tornou mãe aos 17 anos. E mesmo tão nova, já traçava estratégias de sobrevivência.

– Passei fome, dificuldade na minha vida. Quando engravidei do Adriano, tinha acabado de fazer 17 anos. Falei assim: “Quero ter só um filho, porque não quero que ele passe o que passei”. Meus pais não tinham condições de dar estudo, não tínhamos o pão para comer de manhã. Muitas vezes sentia o cheiro da carne do vizinho para fingir que estava comendo. Quando conheci o meu marido, a gente comia macarrão com farinha, água e sal. Só tinha aquilo para comer.

Para a família, Adriano era Didico, apelido que ilustra bem todo o amor e carinho que sempre recebeu – e em troca, usou para lidar com o mundo. Mas todo esse cuidado não evitou que Adriano fosse vítima da violência social que assola os moradores das áreas mais pobres de uma cidade como o Rio de Janeiro. Aos dez anos, ao ouvir um barulho de tiro, Didico correu para ver o que acontecera e se deparou com o pai, Almir, baleado na cabeça, vítima de um desentendimento entre pessoas que estavam a poucos metros dali.

Almir ainda viveria por anos com aquela bala alojada na cabeça, inclusive jogando bola, o que contrariava ordens médicas. Aliás, o futebol sempre fez parte da família – Rosilda, a mãe, era centroavante em campeonatos que Almir organizava em favelas do Alemão. Didico crescera nesse ambiente, agarrado à bola como se fosse parte de si e dos seus, mas a pobreza, mais uma vez, quase mudou o destino daquele menino magro e comprido.

Prestes a completar 10 anos, Adriano contraiu sarampo. Rosilda temeu pelo pior, pois seu filho mal conseguia ficar de pé. Didico quase ficou cego, e o médico afirmou que faltou pouco para que morresse. Porém, a partir dali, o menino enfraquecido por uma vida de privações se tornou o “touro” que, com fome de viver, anos mais tarde receberia a coroa de um império.

O caminho do Imperador

Adriano em destaque junto com o time campeão brasileiro sub-17 de 2000, ao lado de Felipe Melo. (Foto: Globoesporte.com)
Adriano em destaque junto com o time campeão brasileiro sub-17 de 2000, ao lado de Felipe Melo. (Foto: Globoesporte.com)

Adriano começou sua carreira profissional no Flamengo em 2000, aos 17 anos, cria de uma geração que tinha, entre outros, André Bahia e Felipe Melo. Participante da campanha do histórico tricampeonato carioca do Flamengo na virada do século (1999-2000-2001), o jogador acabaria vendido para a Internazionale em 2001, numa controversa negociação onde o Rubro-Negro cedeu dois jovens promissores, Adriano e Reinaldo, em troca de Vampeta. Na estreia pelo clube de Milão, fez um gol no Real Madrid em pleno Santiago Bernabéu. Emprestado à Fiorentina e ao Parma nos anos seguintes, retornou à Inter de Milão em 2004 e, a partir daí, virou bandeira. Em cinco anos, Adriano foi tetracampeão italiano e bicampeão da Copa da Itália e desde então passou a ser chamado pelos italianos de “Imperador”, em alusão ao imperador romano Adriano (76 d.C-138 d.C).

Em 2004, sofreu um dos golpes mais duros de sua vida: a morte do pai, Almir, vítima de um infarto. Apenas nove dias antes, Adriano se sagrava campeão da Copa América numa final histórica contra a Argentina, onde teve papel fundamental: foi dele o golaço que levou a decisão para os pênaltis, onde o Brasil venceu. Seu pai, um de seus maiores incentivadores e conselheiros, havia o deixado, mas o Imperador ainda manteria o altíssimo nível de suas atuações até pouco antes da Copa do Mundo de 2006, na Alemanha, onde fracassou junto com a Seleção Brasileira.

A partir daí, Adriano passou a conviver com graves problemas pessoais, típicos de um menino pobre que não tem nada e que da noite para o dia passa a ter o mundo. Seu mundo de privações passou a ser de luxo, mas longe dos amigos, da família e do seu chão, o Rio e a Cruzeiro. Após anos de turbulências entre o jogador e a Inter de Milão por conta dessa situação (inclusive com um empréstimo sem sucesso do jogador ao São Paulo, em 2008), veio o rompimento: em abril de 2009, Adriano não retornou à Itália após defender a Seleção em um jogo pelas Eliminatórias para a Copa de 2010 e passou três dias querendo apenas “viver tranquilamente na favela” onde nasceu. O clube italiano o dispensou, o jogador anunciou que pararia de jogar futebol por tempo indeterminado, mas apenas um mês depois, voltou para casa nos braços da torcida rubro-negra: fechou com o Flamengo.

"Voltei para vencer", e venceu: o Imperador volta para casa. (Foto: Divulgação)
“Voltei para vencer”, e venceu: o Imperador está em casa. (Foto: Divulgação)

E 2009 foi realmente intenso para Adriano. Ao final daquele ano, sagrou-se campeão brasileiro pelo Flamengo, numa campanha tão surpreendente quanto histórica, terminando a competição como artilheiro, com 19 gols e um dos principais destaques, ao lado do sérvio Petkovic. Aquele fora, também, seu último brilho como um jogador de nível internacional, como seu enorme talento lhe permitia ser.

A partir daí, o Imperador começou uma caminhada de experiências precocemente interrompidas e mal-aproveitadas:  em 2010, na Roma, jogou apenas oito vezes; em retorno ao Brasil no ano seguinte, foi para o Corinthians, onde fez dois gols em oito jogos – sendo um deles contra o Atlético Mineiro, no Pacaembu, em um jogo decisivo para a conquista do título brasileiro de 2011 pelo Timão; em 2012, voltou ao Flamengo, numa passagem que durou tão pouco que Adriano sequer conseguiu entrar em campo; em 2014, contratado pelo Atlético-PR para jogar a Taça Libertadores da América, jogou apenas quatro partidas, com um gol marcado.

Em 2016, o Imperador comprou 40% das ações do Miami United, dos Estados Unidos, e se tornou jogador do clube, mas a experiência não durou mais do que três meses: após dois jogos e um gol, retornou ao Brasil, embora siga como acionista do time estadunidense.

Parabéns, Didico

Agora com seus 35 anos, Adriano Imperador é um personagem cada vez mais fascinante e conhecendo um pouco mais a sua história, fica fácil entender porquê. Entre acertos e erros, inerentes a todo ser humano, percebe-se que Adriano é uma pessoa cuja retidão é unanimidade entre todos os que o conhecem, em conversas públicas ou particulares – e, nas palavras de Rosilda, sua mãe, e de Wanda, sua avó, uma “criança grande”.

Vivemos um mundo onde julga-se muito sabendo-se pouco ou nada sobre alguém. Muitos falam sobre possíveis problemas de Adriano com o álcool e com depressão – e caso ele os tenha, que consiga perceber isso a tempo e tenha a ajuda necessária para se recuperar, pois ambas as doenças são absolutamente devastadoras. Se a escolha por morar no Rio e longe do futebol foi consciente, que seja feliz, entre os seus, no seu mundo. Cabe a ele, junto a seus familiares e amigos, decidir sobre o que é melhor para si.

A nós, cabe admirar a carreira de um cara que redefiniu o conceito de carisma, sendo adorado por torcedores de todos os clubes do futebol brasileiro – e até de fora do país. Que a vida de Adriano seja longa e plena. Que as imagens de sua carreira, os títulos italianos pela Inter, aquele gol antológico na Copa América, o título brasileiro do Flamengo, que todos esses momentos sejam eternos, e serão.

Escolhemos aqui, celebrar sua vida e sua obra. Grande parte da mídia, infelizmente, continuará debatendo a vida pessoal de Adriano, como faz com qualquer figura pública, ainda que não seja notícia, pois gera clique, e clique gera dinheiro. Bom, não importa.

Parabéns, Adriano.

E que Deus perdoe essas pessoas ruins.

2 Comentários em Saiu Didico, voltou Imperador: a favela nos deu Adriano

  1. Sou mengão na veia desde quando estava na barriga da minha mãe. Hoje tenho 23 anos.
    O campeonato brasileiro de 2009 foi muito marcante para min. Tenho certeza que sem o imperador não conquistariamos o título.
    Fico triste, pois queria que ele voltasse a jogar bem em algum time dá série A. Pois futebol quem é craque não perde o talento.
    Mais infelizmente só fica as recordações de um atacante para mim monstro dentro de campo. Parabéns ao Adriano Feliz Aniversário.

  2. Sou mengão na veia desde quando estava na barriga da minha mãe. Hoje tenho 23 anos.
    O campeonato brasileiro de 2009 foi muito marcante para min. Tenho certeza que sem o imperador não conquistariamos o título.
    Fico triste, pois queria que ele voltasse a jogar bem em algum time dá série A. Pois futebol quem é craque não perde o talento.
    Mais infelizmente só fica. As recordações de um atacante pra mim montei dentro de campo. Parabéns ao Adriano.

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