“Seleboca” de 1984: a carruagem que virou abóbora

Conheça o fracasso de um dos clubes que deu origem ao Paraná

O esquadrão Boca-Negra tinha tudo para deslanchar, mas a história gloriosa morreu na casca (foto: reprodução / Botões para Sempre).
Por Dudu Nobre, PR

Grandes esquadrões geralmente são lembrados por importantes conquistas, uma grande sequência de vitórias ou alguma partida memorável. No entanto, alguns times são marcados de forma negativa, por terem potencial para construir uma sinfonia mas na prática não conseguirem formar um acorde sequer. Este é o caso da equipe do Colorado (clube que mais tarde se juntaria ao Pinheiros e formaria o Paraná) que jogou o Paranaense em 1984. Um time galático montado com dinheiro de origem duvidosa.

Para entender esse contexto é preciso voltar no tempo. Em outubro de 1982 a revista Placar trouxe à tona um grande escândalo de corrupção no esporte brasileiro, a Máfia da Loteria Esportiva, que subornava atletas, treinadores e árbitros com o intuito de manipular os resultados e assim fazer os 13 pontos mágicos que lhes renderiam a bolada da vez.

Em 13 anos, Aziz Domingos passou de vendedor de flâmulas à rico fazendeiro (foto: acervo editora Abril)
Em 13 anos, Aziz Domingos passou de vendedor de flâmulas à rico fazendeiro (foto: acervo editora Abril)

Segundo a edição 648 do periódico, os indícios eram de que o responsável por organizar o método de atuação dos mafiosos era Aziz Domingos, homem forte da Federação Paranaense de Futebol (FPF) e que já havia sido dirigente do Colorado. Pois bem, fatos apurados, investigação feita, culpados encontrados, mas… ninguém punido efetivamente. Sob as vistas grossas da justiça, Aziz voltou ao clube da capital paranaense em 1984.

O presidente sabia que a pressão era grande para os lados do Durival de Brito. O Colorado só havia conquistado um Estadual, em 1980, e ainda teve que dividir o título com o Cascavel, em decisão do presidente da FPF Motta Ribeiro, após o jogo do cai-cai (mas esse é assunto pra outro texto). Além da escassez de triunfos, o clube não se classificou nem pra Taça de Prata naquele ano. Então, só uma boa campanha no Paranaense salvaria a lavoura.

Para não fazer feio no regional, o Boca-Negra (apelido em referência ao mascote do clube) foi às compras e trouxe jogadores renomados. Do Santos veio o goleiro Marolla, vice-campeão da Taça de Ouro no ano anterior; do Atlético-MG veio Orlando, lateral com passagens pela seleção brasileira, tal como o meia Eudes, do Cruzeiro; do Inter, o zagueiro Mauro Pastor, tricampeão brasileiro em 1979, e o atacante Geraldão, aquele que jogou no Corinthians em 1977. Uma folha salarial de 200 milhões de cruzeiros mensais (mais de 2 milhões e 600 mil reais, segundo a cotação atual). A imprensa apelidou o esquadrão de “Seleboca”, uma alusão ao time botafoguense de 1971, a “Selebota”.

Marolla já havia jogado em Curitiba vestindo a camisa do Atlético Paranaense (foto: acervo Gazeta do Povo).
Marolla também vestiu a camisa do Atlético Paranaense (foto: acervo Gazeta do Povo).

A confiança era tanta que o presidente ofereceu um bicho de cem mil cruzeiros (cerca de 1300 reais) para cada vez que o Coritiba – adversário da primeira rodada – conseguisse furar a defesa milionária. Resultado: 4 a 2 para o Alviverde e 400 mil cruzeiros doados a uma instituição de caridade, a pedido dos jogadores coxas brancas.

A derrota para o rival não era um fato isolado, mas um reflexo do conturbado turno que o Boca-Negra atravessou — o primeiro de três que o regulamento do campeonato previa. Após duas trocas de treinadores (Urubatão Calvo Nunes e Zequinha), Diede Lameiro resgatou o bom futebol do Colorado, fazendo com que a equipe vencesse o segundo turno e garantisse a vaga no quadrangular final. O terceiro turno foi só pra cumprir tabela, ficando com um modesto quinto lugar.

Passadas as fases iniciais, era hora de mostrar força, enfrentando os três rivais da capital. O Boca-Negra fez uma campanha mediana, mas estava invicto até a penúltima rodada do quadrangular (duas vitórias e dois empates). Todavia o time não conseguiu dar o sprint final, ficando na terceira posição.

Na penúltima rodada, contra o líder Pinheiros, uma polêmica: havia chovido na capital paranaense durante a semana toda, o gramado estava impraticável e os jogadores colorados não queriam jogo. Mas uma decisão de cima (alguns dizem que foi o técnico, outros que foi Aziz) impôs a realização da partida. Resultado: duas derrotas acumuladas nas partidas derradeiras, que fizeram com que o Colorado desse adeus ao título e a Taça de Ouro de 1985.

Por uma vitória de diferença o Coritiba, que derrotou o time da Vila Capanema na última rodada, acompanhou o campeão Pinheiros. Se esse jogo terminasse empatado, o Alviverde nunca teria conquistado o título nacional contra o Bangu.

Prata da casa do Colorado, Dida conquistou o mundial de juniores de Moscou em 1987 (foto: Sergio Sade / Revista Placar)
Prata da casa do Colorado, Dida conquistou o mundial de juniores de Moscou em 1987 (foto: Sergio Sade / Revista Placar)

Sem o troféu estadual e tendo apenas a Taça de Prata como “prêmio de consolação” em 1985, o Colorado sofreu um desmanche, perdendo os atletas renomados e o jovem lateral Dida, que seria campeão brasileiro pelo Coxa e convocado à seleção brasileira de base. Para piorar a situação, o time foi eliminado logo na primeira fase da “segundona” após um 3 a 0 aplicado pelo Marília em plena Vila Capanema.

Daquele time galático sobrou uma dívida gigantesca: 600 milhões de cruzeiros (8 milhões de reais) não pagos a Internacional, São Paulo e Cruzeiro, fora os salários atrasados, os juros dos empréstimos e o déficit mensal de 70 milhões de cruzeiros (cerca de 933 mil reais). Uma bola de neve que só terminaria na fusão com o Pinheiros para a criação do Paraná Clube em 1989.

Fontes: Blog Boleiros e Barangas, Botões para sempre, Gazeta do Povo, Placar, Rsssfbrasil

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