Seleção da Islândia coloca o país definitivamente no mapa

Mais que uma vitória, a Islândia mostra que bom trabalho rende bons frutos

Jogadores comemoram segundo gol islandês. (foto:Reprodução/Facebook/KSÍ)

Nos anos 90, o mundo começou a conhecer Björk Guðmundsdóttir ou simplesmente Björk, uma grande cantora que trouxe ao conhecimento do mundo um gélido país chamado Islândia. Eu, no final da mesma década, me lembro de estar lendo “Viagem ao Centro da Terra”, de Júlio Verne. Lá Otto e seu sobrinho Alex vão até Reykjavík tentar chegar até o centro da terra, seguindo os manuscritos do alquimista islandês Arne Saknussemm. Esse era todo o conhecimento que tinha sobre a Islândia durante muito tempo. Hoje a seleção islandesa alcançou um feito que colocou seu país na rota do futebol e mexeu com toda a sua população. Que me perdoem Björk e Verne, mas o milagre feito pelos Strákarnir Okkar se tornou o maior orgulho nacional.

Milagre, como todos sabem, precisa de um santo para ser realizado. No caso do milagre islandês, o santo mais famoso é Lars Lagerbäck. O técnico sueco assumiu a Islândia em 2011, após rápida e conturbada passagem pela Nigéria na Copa do Mundo de 2010. Pegou os nórdicos lá embaixo, na posição 112 do ranking da FIFA e que haviam terminado em último no grupo 9 das Eliminatórias Europeias para a Copa do Mundo. Contando com a ajuda do seu co-treinador Heimir Hallgrímsson, em apenas 2 anos no cargo levou os islandeses aos play-offs para a Copa do Mundo de 2014. Infelizmente não foram páreos contra o bom time croata, mas isso não estagnaria o crescimento islandês.

Claro que o trabalho não foi somente em campo. Muita coisa mudou na estrutura e na maneira de pensar futebol na Islândia. Primeiro problema a ser “resolvido” foi a questão climática. A Islândia dispõe de um longo e rigoroso inverso, que pode congelar seu solo por 9 meses no ano. Muita coisa. Isso praticamente impossibilita a prática de futebol ao céu aberto. Não por menos seu campeonato nacional é disputado apenas entre maio e setembro. Treinar uma seleção e jogadores em alto nível dessa maneira seria difícil. Encontrar e desenvolver novos valores então, seria impossível.

Jogar futebol na Islândia não é algo simples de se fazer. (foto:Reprodução/Facebook/KSÍ)
Jogar futebol na Islândia não é algo simples de se fazer. (foto:Reprodução/Facebook/KSÍ)

Mas isso mudou quando o país passou a investir na prática do esporte. Desde 2000 o número de campos com piso aquecido cresceu e hoje já passa 150. Muitos deles foram construídos ao lado de escolas, deixados à disposição da população de qualquer idade e sexo. Com isso, o número de homens que praticam futebol na Islândia é de 1 a cada 5. Hoje um jovem islandês, entre 14 e 18 anos, treina de 4 a 6 vezes na semana, algo impossível anos atrás. Além disso, dispõe de duas aulas obrigatórias de desporto escolar com profissionais.

Crianças têm contato com o futebol desde cedo. (foto:Reprodução/Facebook/KSÍ)
Crianças têm contato com o futebol desde cedo. (foto:Reprodução/Facebook/KSÍ)

Isso mudou a forma de como um islandês joga futebol. Se antes seu jogo era baseado na bravura, espírito de luta e até inocência em algumas jogadas, agora tem na sua base técnica e talento desenvolvidos na escola. Esse trabalho fez com que diversos atletas pudessem sair da Islândia mais cedo e desembarcar na Suécia, Dinamarca, Inglaterra e Holanda, deixando suas equipes nacionais mais experientes ao futebol internacional.

Sævarsson, lateral direito da seleção, conta que quando era pequeno treinava em campo de cascalho e a única coisa que poderia fazer no longo inverno era correr. Já hoje há centenas de campos cobertos que possibilitam a prática durante o ano inteiro, formando mais e melhores atletas.

Campos cobertos permitem a prática do futebol o ano inteiro. (foto:Reprodução/KSÍ)
Campos cobertos permitem a prática do futebol o ano inteiro. (foto:Reprodução/KSÍ)

 

Outra coisa que mudou foi a preparação dos treinadores e professores islandeses. Segunda a KSÍ (Federação Islandesa de Futebol) desde 2000 o número de profissionais que procuram treinamentos e workshops cresceu em mais de 500%. Isso tudo se deve ao novo modelo de cursos criado pela federação. Hoje, para ser um profissional de alta graduação, precisa passar por 7 módulos, entre UEFA A e UEFA B, com testes em todos os níveis. Os clubes somente podem contratar treinadores que tenham a qualificação UEFA A e os auxiliares no mínimo UEFA B.

Isso começa a dar resultado também nos clubes. O Stjarnan, clube que ganhou o mundo com suas comemorações altamente criativas, alcançou recentemente seu primeiro título nacional. Na sua primeira participação na UEFA Europa League, não fez feio. A equipe da cidade de Garðabær, eliminou o Bangor City (País de Gales), o Motherwell (Escócia) na prorrogação, o tradicional Lech Póznan (Polônia) e caiu para a gigante Inter de Milão na última rodada antes de ir para a fase de grupos. A tendência é que resultados melhores comecem a crescer, mesmo que sua liga não seja rica e seus jogadores ainda não sejam totalmente profissionalizados.

O crescimento da Islândia nos últimos anos tem sido exponencial. Saiu da posição 112 para a 34 no Ranking da FIFA. Nas categorias de base já conseguiram bons resultados em nível europeu, com participação da seleção na fase final do Campeonato Europeu U21 de 2011.

Mas isso tudo não é nada quando lembramos que o país tem uma população de pouco mais de 320 mil habitantes. Se a Islândia fosse uma cidade brasileira, seria a 83ª mais populosa apenas. Contando o mundo todo, ela é apenas a 184ª colocada. Na França tem algo em torno de 5% da população – aproximadamente 15 mil pessoas. Falando em números, 99% da população esteve ligada no jogo contra a Inglaterra. Ou seja, apenas 3200 pessoas estavam fazendo outra coisa no país que não assistir o jogo dos Strákarnir Okkar. Incrível.

"Multidão" festeja vitória islandesa em Reykjavík. (AP Photo/Brynjar Gunnarsson)
“Multidão” festeja vitória islandesa em Reykjavík. (AP Photo/Brynjar Gunnarsson)

E é exatamente a torcida um dos pontos altos da Islândia. Durante toda a eliminatória para a Euro, a torcida praticamente lotou o Laugardalsvöllur em todos os 5 jogos como mandante, sempre empurrando sua seleção em todo momento. Esperar algo diferente na Euro era impossível. A festa que os islandeses fazem é linda e esperamos que não pare.

Casa da Islândia nas Eliminatórias para a Euro (AP/ Foto: Rottery Reykjavík)
Casa da Islândia nas Eliminatórias para a Euro (AP/ Foto: Rottery Reykjavík)

Agora o próximo passo será os donos da casa, não duvidamos mais da capacidade dos islandeses. Resta apenas a torcida e a certeza de que vimos mais uma bela página da história do futebol ser escrita. Que a força de Björk, Verne, Odin, Thor e todos os outros estejam com vocês. Boa sorte. Ou em bom islandês: Gangi þér vel!

Texto: Diego Giandomenico

1 Comentário em Seleção da Islândia coloca o país definitivamente no mapa

  1. Que texto!
    Agora sim, posso dizer que conheço melhor o futebol islandês e a sua evolução futebolística. E o detalhe: eles estão em evolução, e o quanto mais longe eles chegarem, mais mitos e cifras de dinheiro por jogadores medianos podem cair.
    Seria demais, mas uma conquista da Islândia na Euro 2016 literalmente viraria todo o futebol europeu de cabeça para baixo.

    Islândia, a CL está contigo!

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