Seleção Olímpica e a pressão psicológica na Rio 2016

A preparação do futebol masculino para as Olimpíadas

Jogadores foram apresentados esta semana e já têm de lidar com pressão (Foto: Divulgação/CBF)
Jogadores foram apresentados esta semana e já têm de lidar com pressão (Foto: Divulgação/CBF)

Pressão. É com essa palavra que podemos definir a sensação vista no olhar e nas palavras de cada jogador que veste a camisa da seleção brasileira depois da fatídica Copa do Mundo de 2014, do tão falado 7 a 1. Na fala de quase todos os jogadores, fica nítido o peso da responsabilidade que estão sentindo quando atuam pela camisa da amarelinha depois da dura derrota. Já se passaram duas competições nesse intervalo de tempo (Copa América 15/16) e o time realizou campanhas desastrosas em ambas. Seja pela falta de resultados ou pela desmoralização que passa o nosso futebol em meio a escândalos de corrupção, ausência de comando qualificado no período Dunga e de credibilidade nas convocações de jogadores. Está difícil vestir a camisa da seleção e jogar com calma nos últimos tempos.

Em agosto, acontecerá a Olimpíada do Rio e o escolhido para comandar o time na competição foi o treinador Rogério Micale (treinador que conduziu todo o processo de preparação da equipe, mas que somente com a queda de Dunga foi efetivado ao posto). Entretanto, o que era pra ser “apenas” uma competição sub-23 no futebol masculino acaba sendo a maior obsessão em termos de resultado dos últimos tempos (por parte da CBF), criando uma pressão muito grande a um grupo jovem de bons valores que temos nessa categoria. Some isso ao fato de quase todos os maiores craques recentes da seleção brasileira terem jogado esse campeonato (Romário, Bebeto, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho, Neymar, dentre outros) e nunca terem ganho mais do que uma medalha de prata.

Outro ponto que poderia ser bom, mas que pode ter um efeito inverso, é a disputa do torneio acontecer no Brasil. Visto que isso já mostrou ter sido um grande fator de aumento do nível de estresse para a seleção principal em 2014 (creio que todos se lembram do choro desmedido na decisão por pênaltis contra o Chile e o massacre sofridos para as seleções da Alemanha e da Holanda). A antipatia da torcida brasileira à CBF e todo o cenário efervescente de insatisfação que está em pauta no país também pode contribuir para uma maior impaciência com falhas ou erros que possam vir a acontecer por parte dos garotos. A cultura de resultados que impera no centro do futebol brasileiro só aumenta ainda mais essa pressão e condiciona uma boa campanha somente a conquista do título inédito. Ou seja, mesmo se os atletas jogarem bem e não ganharem (como já aconteceu em alguns anos anteriores), nada de plástico ou de encanto vai bastar para isentar os jogadores de críticas e contestações por parte do público e da imprensa.

Naturalmente as pernas dos jogadores irão tremer por todos os componentes emocionais envolvidos destacados anteriormente, a ansiedade da importância que se deu a competição junto da pouca idade dos atletas pode ser um fator a mais que afete o rendimento dos jogadores. O medo de perder, de errar (sentimento natural em um atleta de alto rendimento) e a mudança fisiológica que todos estes fatores juntos trazem pode prejudicar ainda mais o desempenho dos garotos – respiração mais ofegante, com isso maior cansaço, músculos tensionados e mais sujeitos a lesões, dentre outras coisas. Não vai ser fácil jogar com todas estas condições.

É importante salientar que, o futebol hoje, é um esporte com muitas variáveis envolvidas (parte física, técnica, tática, estrutural, dentre outras) e pode-se dizer que o ciclo de preparação dessa seleção olímpica talvez tenha sido o mais bem feito nas partes técnica e tática de todas as preparações, em relação às anteriores – com vários amistosos de preparação e alguns períodos de treinamento para os atletas sub-23. Destacando assim a importância que a Confederação Brasileira de Futebol concedeu para a Olimpíada, a ponto de deixar o jogador mais em evidência do país (Neymar) descansar durante a Copa América para chegar bem fisicamente a competição.

Contudo, a variável psicológica do jogo parece não ter sido trabalhada com essa mesma atenção, visto que foi enfatizado nesse período de planejamento os dois pontos (técnico e tático) acima enumerados e nenhuma intervenção em Psicologia do Esporte foi declaradamente requisitada pela CBF. A psicologia sozinha não ganha jogo, mas ajuda e muito a entender e trabalhar diversos aspectos que podem estar pedindo olhares muito mais atentos nesta preparação dos meninos (atenção, concentração, controle de ansiedade, foco, dentre outras variáveis) e que poderia ajudá-los a ter um rendimento ainda melhor em busca do inédito ouro olímpico. Infelizmente, esta parte chave da preparação do jogo parece não ter recebido a devida atenção por parte dos cartolas que estão no comando da federação, vide as declarações do ex-técnico da seleção principal (Dunga) e o seu desconhecimento em relação ao trabalho do profissional de psicologia no contexto esportivo.

Por tudo isso colocado anteriormente fica a pergunta: Os meninos estão realmente preparados para lidar com essa situação? Difícil apontar uma resposta definitiva, mas fica evidente que na escolha da convocação do goleiro Fernando Prass levou-se em consideração os quesitos da experiência e da liderança, dois fatores que serão primordiais para conduzir o grupo no que será um grande teste para as principais promessas da seleção canarinho. Que venham os jogos e boa sorte aos garotos.

 

Texto: Victor Portto

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