Por noventa minutos a guerra parou: a Síria em direção a Copa da Rússia

A seleção da Síria antes do jogo contra o Irã (foto: FIFA Site Oficial/ Reprodução)
Por: Lucas Poeiras – MG

O dia cinco de setembro ficará na memória de todo o povo sírio.  O país devastado pela guerra em vários fronts já viu mais de cinco milhões de pessoas evadirem de sua terra natal e quase meio milhão de pessoas já pereceram no confronto. Para um povo que está sofrendo tanto pouca coisa levantaria a moral e daria alegria. Eis que surge a mágica do futebol: a seleção que usa a camisa branca  e vermelha.

O estádio Azadi na cidade de Teerã capital do Irã recebeu o jogo Irã e Síria em uma atmosfera muito amigável. O jogo marcado para as 20:30 no horário local (12:00 no horário de Brasília) era o encontro entre o já classificado Irã com uma uma possível surpresa na copa de 2017. O grupo A das eliminatórias asiáticas é composto por: Irã, Síria, Coreia do Sul, Usbequistão, China e Qatar. A situação do grupo estava praticamente resolvida nesta última rodada. Os anfitriões do jogo em questão já estavam classificados em primeiro lugar com vinte e um pontos, em uma incrível campanha de seis vitórias em nove jogos. A segunda vaga direta, que estava em disputa nesta rodada, tornou esse jogo extremamente relevante para o futebol.

Os coreanos chegaram a quatorze pontos no fim da nona rodada e eram seguidos de perto pelos sírios que tinham doze pontos. Duas partidas seriam disputadas em confrontos diretos pela segunda vaga: Irã e Síria e Usbequistão e Coreia. A vantagem obviamente era da capital Seul que precisava apenas do empate para confirmar suas passagens para Moscou em 2018. Se segurassem o ímpeto dos usbeques os desclassificariam e ajudariam a Síria, que precisaria vencer ou empatar com o Irã.

A história do pré-jogo: o povo se reuniu para assistir a partida

Os sírios vem enfrentando diariamente as ameaças da guerra em suas ruas. O governo não permite aglomerações e manifestações públicas devido a segurança. A emissora de televisão estatal durante a noite sempre informa a população sobre o deslocamento das tropas e a guerra contra o Estados Islâmico. É difícil ver alegria nas ruas e menos ainda na telinha.

O próprio governo resolveu contrariar esta lógica para um dia tão importante e com tanta expectativa no esporte. As cidades mais populosas do país Alepo e a capital Damasco receberam telões para que as pessoas pudessem assistir o grande jogo com os vizinhos do Irã. Durante os noventa minutos do jogo o governo permitiu as pessoas se reunirem para assistirem a partida.

Em raro momento toda a Síria pode se reunir para assistir o jogo (foto: BBC/Reprodução)
Em raro momento toda a Síria pode se reunir para assistir o jogo (foto: BBC/Reprodução)

Este toque dá ainda mais sabor a este jogo e mostra como o futebol pode ser uma forma de resistir as adversidades. A seis anos o povo que sofre com umas das piores guerras na região estava sonhando com a copa do mundo. A camisa de uma seleção tem um peso muito grande, mesmo que o futebol não seja tão campeão ou vistoso como as seleções tradicionais de Brasil, Itália, Argentina etc.

A história do jogo: por noventa minutos a guerra parou 

A população mobilizada em frente aos telões assistiu um espetáculo e tanto. Um bom futebol de acordo com as possibilidades das duas seleções e um jogo repleto de emoções. O Irã é comandado pelo português Carlos Queiroz que por muito tempo foi auxiliar técnico de ninguém que Sir Alex Fergusson. O patrício é responsável direto pelo bom meio campo iraniano e por extrair grandes exibições do atacante Sardar Azmoun, jovem de 22 anos titular do Rubin Kazan da Rússia.

O garoto Azmou, o craque do Irã (Foto: FIFA Site Oficial/Reprodução)
O garoto Azmoun, o craque do Irã (Foto: FIFA Site Oficial/Reprodução)

O selecionado da Síria é comandado pelo técnico Ayman Hakeem. A maioria dos seus atletas não joga mais no país e imigraram para ligas do Qatar, China, entre outros. Os ativistas do país ainda contabilizam que cerca de trinta e nove atletas foram assassinados e vários estão desaparecidos. Os jogos foram proibidos pela FIFA de serem realizados no país devido ao risco dos confrontos e das aglomerações abrirem oportunidades para mais ataques.

O time do técnico Hakeem conta hoje com o talento de Omar Al-Somah, atacante do Al Ahli da Arabia Saudita. Os visitantes precisavam da vitória para garantir a classificação direta no caso de um empate ou derrota da Coreia do Sul, mas eles sabiam que a missão seria árdua ao enfrentarem o melhor time das eliminatórias asiáticas. O time iraniano tem a característica de manter a posse de bola e possuem um grande atacante a ser parado.

Já com a bola rolando um nível técnico razoável foi visto para os 30 mil pagantes no estádio Azadi. A pressão e marcação alta dos donos da casa e o plano de jogar por uma bola da Síria foram claros durante o jogo. Logo aos treze minutos do primeiro tempo, o meia Khiribin bateu um excelente escanteio, e o volante Tamer Haj Mohammad cabeceou vindo de atrás para o fundo do barbante.

O Irã pressionou fortemente os adversários até que no fim do primeiro tempo Hasjaf bateu uma falta com violência em direção ao gol. O arqueiro Ibrahim Alma espalmou errado para frente e a bola caiu nos pés de Azmoun que não perdoou e levou o empate para os vestiários. A vaga direta estava ameaçada já que os coreanos que jogavam simultaneamente estavam empatando com o Uzbequistão.

O segundo tempo veio com uma ducha de água fria para a Síria. Em jogada de Phourgaz o goleiro Alma espalmou a bola novamente e Azmoun mostrou sua veia oportunista e guardou mais um tento para os donos da casa. O clima ficou tenso e a classificação dos sírios estava indo por água abaixo. Mais uma vitória do Irã iria ser confirmada para cravar a melhor campanha das eliminatórias. Mas o futebol nem sempre respeita a lógica.

Um gol para a história 

Desesperados atrás do gol de empate, a Síria começou a pressionar fortemente o meio campo iraniano forçando um erro adversário. Eis que aos noventa e dois minutos de jogo o meia Mardik Mardikian robou a bola perto do centro, fez grande arrancada e tocou a bola para o atacante Al-Somah que avançou, driblou o zagueiro e bateu firme por debaixo das pernas do goleiro Beiranvand. O empate veio no apagar das luzes com muita emoção. Todos os torcedores festejaram e certamente o país inteiro gritou “gol”. No vídeo abaixo podemos assistir a comemoração do técnico Hakeem que não se segurou e foi as lágrimas em campo.

O pós-jogo: as chances da síria ir para Rússia em 2018

O empate da Síria garantiu a sua seleção no terceiro lugar do grupo A da Ásia por terem um gol a mais de saldo que o Uzbequistão. O país inteiro comemorou a vaga na repescagem que será disputada em outubro contra a Austrália em jogos de ida e volta. Caso consigam ultrapassar o time da Oceania, enfrentam o quarto colocado da CONCACAF em mais uma série de respescagem em partidas de ida e volta, avançando, farão sua primeira e histórica participação em Copa do Mundo.

Gol histórico de Al-Somah(foto: FIFA Site Oficial/reprodução)
Gol histórico de Al-Somah(foto: FIFA Site Oficial/reprodução)

O momento que o futebol proporciona para o povo sírio é único. Uma fuga da realidade e um alívio em uma rotina que a mais de seis anos não tem nada de agradável e tranquilo. O jogo e a classificação para a repescagem deu esperança aos cidadãos. Um país que é notícia apenas pelas barbáries agora está na boca do mundo pelo seu futebol.

Fontes: FIFA, Socceraway, Estadão,

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