St. Pauli, o time que acolheu a todos

O clube pirata da Alemanha (Foto: reprodução/ilhotarockfestival.com)
Por: Victor Portto, CE

Acolher a todos igualmente, esse é o lema do clube alemão chamado St. Pauli. Encravado em meio a um antigo polo industrial da cidade de Hamburgo, a agremiação tem destaque mundial pelas suas ideias e diretrizes político-sociais (anti-homofobia, anti-racista, compromisso social, dentre outras) e por ter a sua imagem associada a uma nova possibilidade de ver e construir o futebol. A história do time se confunde com a história do movimento punk rock e de esquerda da cidade alemã de Hamburgo, visto que o clube e os movimentos sociais sempre andaram de mãos dadas em sua identidade e quando todas as regras já ditas aqui anteriormente foram colocadas em seu estatuto.

O que torna o St. Pauli e sua torcida grandiosos no cenário mundial são as ações, ideais e a forma de trabalhar o futebol e a relação com a sua comunidade. É um time de 106 anos, sem grandes glórias, nunca foi campeão de nenhum grande torneio e tem na identidade o seu maior brilho (ex.: desde meados da segunda guerra mundial expulsou de sua torcida os torcedores identificados com os ideais nazistas). O clube joga no acanhado estádio de nome “Millerntor” (com capacidade para 29 mil pessoas), tem cerca de 20 mil torcedores de média de público, mesmo quase sempre frequentando a parte de baixo da tabela da segunda divisão, e tem no embalo do rock os seus grandes hinos ao entrar em campo (ao som de Hells Bells do AC/DC) e fazer gols (tocando o clássico hit Song 2 da banda Blur). O túnel do de acesso ao campo também é todo seguindo a identidade do St. Pauli, com a mensagem central para o time visitante: “Bem vindo ao inferno”.

A equipe alemã se orgulha de ter em suas arquibancadas bandeiras do movimento gay, da esquerda alemã, de se colocar contra os clubes-empresa do cenário atual, da luta contra o racismo e do movimento feminista. Poucas equipes, para não dizer nenhuma, se colocam de forma tão contundente em ações explicitando seus ideais como o St. Pauli. Entre 2002 e 2010, Cornelius Littmann foi presidente do clube sendo assumidamente homossexual (assunto ainda tabu no futebol) e também neste período a equipe foi patrocinada por uma sexshop. A última ação mais inovadora ocorreu na temporada passada (2015-2016) com a ideia de produzir mel em seu próprio estádio para conscientizar e chamar a atenção das pessoas sobre a importância das abelhas para a produção de nossos alimentos.

Houve também alguns episódios bem interessantes na história da equipe. Quando o time do Bayer de Munique fez um amistoso com o clube para salvá-los da falência, outro episódio marcante foi a vez em que uma empresa tentou colocar seu mascote no Millerntor e foi expulsa com um banho de cerveja dado pela torcida e a própria reforma do estádio ajudada a ser bancada pelos próprios torcedores. Mas talvez a história mais marcante é a associação da caveira ao clube: tudo começou em um jogo onde o torcedor Doc Mabuse totalmente embriagado levou uma vassoura com a bandeira de caveira para o estádio e a partir dali (por conta de toda a ligação com o movimento punk) a caveira virou o símbolo do clube, sendo mais conhecido que a própria bandeira da instituição. A ligação entre o St. Pauli e a cidade de Hamburgo é muito forte, pois o clube abraçou e recebeu diversos setores marginalizados dentro da sociedade, tendo assim um forte apelo e identificação social. Também por isso são os piratas da liga, são considerados a oposição ao futebol moderno.

"A bandeira mais adotada pela torcida" (Foto: Reprodução/Facebook oficial do St. Pauli)
“A bandeira mais adotada pela torcida” (Foto: Reprodução/Facebook oficial do St. Pauli)

Entretanto nem tudo são flores e hoje o St. Pauli passa por um momento bem complicado institucionalmente, está em meio a um grande dilema: como continuar seguindo seus ideais de fazer um futebol diferente, mas se tornar um time competitivo? Há também hoje vários setores da torcida se perguntando se o time também deve aceitar tantos turistas assim no estádio, visto que hoje a equipe tem fama mundial por sua identidade e atrai diversos simpatizantes do mundo inteiro. O time da caveira se tornou um sinônimo da cultura pop e o que era pra ser um movimento de contra-cultura está sendo engolido pela globalização. Como sair disso e se manter como um clube que acolha a todos, que pode ainda ser sinônimo de fazer um futebol diferente? Essa pergunta é o próximo passo a ser dado pelo simpático clube de Hamburgo e por sua torcida.

O vídeo abaixo explica abaixo um pouco dos dilemas atuais do St. Pauli e fala um pouco mais da sua história, de como os próprios torcedores enxergam o clube:

Fonte: ilhota rock festival; ESPN; Trivela e Torcedores.com.

2 Comentários em St. Pauli, o time que acolheu a todos

  1. Só de se questionar se deve ou não acolher tantos turistas, expulsar mascotes de outras empresas, já mostra que o clube e a torcida não são esse exemplo de acolhimento, o clube que acredita no social, ~~que defende minorias~~, uma ova…querem ser contra-cultura, contra a tendência, tipo aquele adolescente revoltadinho que todo mundo já foi um dia.

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