Tática versus individualidade: a expressividade voraz do futebol brasileiro pode ser enjaulada?

O talento é e sempre será importante, mas se mostra imprescindível a adaptação às necessidades do futebol atual

Um dos principais representantes do futebol arte brasileiro: Ronaldinho Gaúcho. (Foto: Getty Images)
Por Gabriel Ferreira, MG

Ah, o drible! Para o amante do futebol brasileiro, não há nada mais mágico e prazeroso do que assistir à partida de um autêntico driblador tupiniquim. De Garrincha à Ronaldinho Gaúcho, a competitividade era deixada de lado por um breve momento de brilho individual. As pernas tortas do Mané, na verdade, entortavam os adversários de maneira desconsertante, os quais não sabiam para que lado correr ou qual atitude tomar. O sorriso aberto do Gaúcho era um espelho refletindo a mútua felicidade de quem o via atuar, seja das arquibancadas ou do sofá de casa.

É impossível resistir à metáfora do brasileiro driblando em campo da mesma maneira com que dribla as adversidades sociais em seus muitos aspectos. Assim como é tentador afirmar que a frieza do europeu, de pouca criatividade e músculos avantajados, tenha resultado no futebol moderno; físico e tristemente prático em detrimento ao romantismo do país pentacampeão.

É o fim da individualidade, maior significado da alegria do futebol brasileiro. Como em aspectos econômicos e culturais, a autenticidade sul-americana sucumbe perante ao modo europeu de se ver (e sentir) a vida. Mas será mesmo?

Do tango ao samba

Na Copa do Mundo de 1986, o mundo do futebol se rendia à genialidade de Diego Armando Maradona, que se movia com a bola como se a pelota fosse seu par em uma apresentação de tango. Mas, na Argentina campeã Mundial, por trás da técnica de Maradona havia o esquema montado por Bilardo, treinador marcado historicamente por montar equipes voltadas para a agressividade defensiva e fiéis à tradicional catimba Albiceleste.

Para que Diego pudesse expressar seu talento ao máximo, Carlos Bilardo montou a Argentina em um esquema com três zagueiros que permitiam a liberdade de seu principal jogador. Deu certo. Os hermanos contaram com a capacidade e a malícia de Maradona, venceram a Alemanha na final e puderam bordar a segunda estrela no uniforme argentino.

Defensividade e genialidade: Carlos Bilardo e Diego Maradona. (Foto: Getty Images)

Vinte e oito anos antes, em 1958, Pelé e Garrincha eternizavam seus nomes na história do esporte brasileiro e se tornavam representantes máximos do “futebol arte” até hoje idealizado no Brasil. No entanto, até a equipe tupiniquim, de jogo alegre como um samba carioca, tinha em Mário Zagallo uma faceta tática inovadora para a época.

Quando a Seleção atacava, o Lobo era um dos quatro jogadores na linha de frente do tradicional 4-2-4. Mas, ao perder a posse da bola, o atacante se tornava meio-campista, o esquema se tornava um 4-3-3 e instituía o equilíbrio entre defesa e ataque de um dos maiores esquadrões de todos os tempos.

Da esquerda para a direita: Garrincha, Pelé, Paulinho, Didi e Zagallo. Com exceção do terceiro, todos foram campeões em 58. (Foto: Divulgação Folha de S. Paulo)

Progredir é necessário

Ao se estudar a história da estratégia no futebol, a conclusão é arrebatadora: nada é absolutamente novo. As inovações se dão, principalmente, em reconstruções de ideias já utilizadas anteriormente por outros estudiosos do esporte bretão.

Guardiola, o treinador mais “diferente” da atualidade, se diz um “ladrão de ideias”; e demonstra isso ao resgatar o esquema com três defensores – o qual surgiu e teve seu auge ainda no século passado – ou remetendo aos primórdios da organização tática utilizando um centenário 2-3-5, mas o repaginando para encaixá-lo na característica agressiva e moderna do seu Bayern de Munique da temporada 2015/2016.

Pep Guardiola se utiliza do passado para ser moderno. (Foto: Tobias Hase/DPA)

“Para sobreviver, necessitamos aprender na mesma velocidade das mudanças que acontecem no entorno”, refletiu Reg Revans, saltador da Grã-Bretanha da década de 1920 e professor acadêmico. Pois nós paramos de aprender, ou, ao menos, de conseguir aplicar o conhecimento adquirido nas situações adversas e muitas vezes não-profissionais ocasionadas por quem dirige nosso futebol.

Por que não pensar em um futebol brasileiro talentoso, driblador e conscientemente tático? A capacidade de reinvenção e de tomada correta de decisões sempre foi característica tupiniquim, mas nem tanto da grande massa de treinadores previsíveis aqui instalados (com o perdão de “Telê’s” e “Tite’s”).

No momento atual, a necessidade de novos pensamentos bate à porta de quem trabalha com o esporte no Brasil. Recuar não parece ser uma opção, tampouco abandonar as características historicamente produzidas no imaginário popular.

Entre a individualidade e a tática, que tal optar pela junção da disciplina estratégica como potencializador do talento? Como o tango de Bilardo e Maradona em 86, e, principalmente, como o samba brasileiríssimo de Zagallo e Pelé em 58.

Fontes: Livros “A Pirâmide Invertida”, de Jonathan Wilson; “Guardiola Confidencial” e “Guardiola – A Evolução”, de Martí Perarnau.

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