Técnicos brasileiros x Técnicos estrangeiros: Um complexo de vira-latas

Pep Guardiola: gênio do futebol moderno é amante declarado do futebol brasileiro (Foto/Reprodução: newstalk.com)
Por: Bruno Gabriel, PR

Hoje em dia, muito se tem falado sobre o abismo de conhecimento tático e técnico dos treinadores estrangeiros com relação aos treinadores brasileiros. Fala-se do legado do Guardiola, que visa no futebol de suas equipes das quais treinou o jogo mais vistoso possível, independente do resultado. Fala-se da alma que Jürgen Klopp deixa na beira do gramado, junto aos seus jogadores. Fala-se da consciência tática de Antonio Conte, Carlo Ancelotti, Diego Simeone, Jorge Sampaoli, entre outros. Porém, será que os técnicos brasileiros realmente ficaram presos no tempo, ou vivemos um verdadeiro complexo de vira-latas?

Oswaldo Brandão: brasileiro, e um dos maiores de nossa história (Foto/Reprodução: globoesporte.com)
Oswaldo Brandão: brasileiro, e um dos maiores de nossa história (Foto/Reprodução: globoesporte.com)

Para começarmos a responder tal pergunta, é importante separarmos os fatos em duas linhas do tempo: os feitos dos técnicos brasileiros ao longo da história do futebol e o que acontece nos dias atuais. É inegável que um país que teve Vicente Feola, Oswaldo Brandão, Zagallo, Telê Santana, entre tantos outros nomes, valoriza muito pouco o trabalho que estes gênios deixaram para o mundo futebolístico.

Oswaldo Brandão faturou três títulos brasileiros dirigindo o Palmeiras (1960, 1972 e 1973) além de ter sido quatro vezes Campeão Paulista com o time alviverde (1947, 1959, 1972 e 1974). Foi campeão pelo São Paulo (Paulista 1971) e também pelo Corinthians (Paulista de 1954 e 1977), inclusive tirando o time alvinegro da fila histórica de 23 anos sem levantar um caneco.

Poucos sabem que Oswaldo é um exemplo de técnico brasileiro que conseguiu atingir sucesso internacional. Em 1967, Oswaldo conquistou o Campeonato Argentino dirigindo o Independiente, e também faturou a Supercopa dos Campeões Intercontinentais em 1969, pelo tradicionalíssimo Peñarol, do Uruguai.

O conhecimento tático do treinador brasileiro era algo absurdo. Logo, Oswaldo dirigiu a seleção brasileira três vezes, porém não obteve o sucesso esperado devido a sua personalidade forte e convicções pessoais. Era rigoroso com seus atletas, porém flexível ao ponto de também fazer as vezes do técnico “paizão”, se tornando um exemplo de gestor para grandes treinadores que estavam surgindo na época, deixando assim o seu legado. Cobrava alto desempenho e comprometimento de maneira incisiva, não sendo muito diferente do que Pep Guardiola faz nos dias atuais.

Em termos de futebol vistoso, é impossível falar de arte sem citar Telê Santana. O Multicampeão ficará marcado na história do esporte por ser um cara que zelava por um futebol bonito. Era notório que os títulos apareciam na carreira do Telê por consequência de um trabalho intenso de um cara que era simplesmente apaixonado pelo o que fazia. É considerado o maior técnico da história do São Paulo onde foi Campeão Brasileiro (1991), Bicampeão da Libertadores e do Mundo (1992 e 1993).

Foi considerado pelo conceituado jornal espanhol “El País” o melhor técnico do mundo por duas vezes consecutivas (1992 e 1993) e influenciou de maneira direta a vida de grandes técnicos mundiais de hoje em dia, como a vida de Guardiola:

Me recordo muito bem daquela final. O São Paulo foi infinitamente superior, com Raí, Muller e outros jogadores fantásticos. Não tivemos nenhuma ação pra competir com eles, quanto mais para ganhar. O São Paulo dominou o mundo.

Por ironia do destino, o trabalho mais vistoso de Telê não terminou em título. Mas com aquela seleção encantadora da Copa de 1982, ela conseguiu algo muito mais importante. Reconhecimento histórico.

Atualmente, os técnicos brasileiros não exercem influência no futebol mundial e até em nosso país como já foi há alguns anos, conforme citamos. Porém, vários aspectos precisam ser levantados para que haja uma análise profunda se realmente estamos afogados no 7 a 1.

Temos Tite. Bicampeão Brasileiro (2011 e 2015), Campeão da Libertadores e do Mundo pelo Corinthians (2012), hoje o técnico da seleção brasileira tem uma excelente capacidade de gestão de equipe, conhecimento tático, técnico e uma visão holística do esporte. Uma vez perguntado: ”Mourinho ou Guardiola?”, Tite não exitou e respondeu: Ancelloti. E não é a toa, já que o perfil do treinador brasileiro se assemelha muito com o do técnico italiano.

Tite é o exemplo mais próximo atualmente de um técnico brasileiro que pode obter sucesso mundial em um futebol de primeiro nível e vir a deixar um legado para o esporte, seja tático ou vistoso. Dirigindo a seleção brasileira, é notória a melhora do posicionamento e da qualidade do futebol jogado.

Não se fez necessário a recorrer a um nome gringo para treinar a seleção mais vitoriosa de todos os tempos, foi apenas necessário o bom senso dos dirigentes da entidade máxima do nosso futebol e também o querer em saber e se aperfeiçoar como profissional que Tite teve.

A qualidade do futebol apresentada no Brasil é muito inferior a do futebol europeu.

Tal afirmação é vista com frequência em programas esportivos de grande porte em nosso país, e sempre irá ser razão de debates. Porém é necessário separar o que é praticado em nossos campeonatos com o que um treinador pode colocar em prática.

Injustiçado: o que Cuca faz e o que o técnico pode fazer (Foto/Reprodução: gazetaesportiva.com)
Injustiçado: o que Cuca faz e o que o técnico pode fazer (Foto/Reprodução: gazetaesportiva.com)

Como exemplo, Cuca. O técnico que possívelmente levou o Palmeiras a ser Campeão Brasileiro após 22 anos e que foi recorrentemente questionado sobre o futebol praticado por sua equipe em debates esportivos. Mas é inegável que a equipe foi muito bem gerida e treinada.

O treinador estava a frente de uma das equipes mais tradicionais do futebol brasileiro e via na sua torcida a necessidade de um título que não vem a mais de duas décadas. Nesta hora, será que realmente é importante o futebol vistoso se impor ao futebol tático?

Tite, em seu primeiro título brasileiro com o Corinthians, treinava uma equipe pragmática. 1 a 0, 2 a 1, e assim, o título veio. Em sua segunda passagem, após os títulos gigantescos, o treinador enfim conseguiu apresentar um futebol vistoso, se tornando Campeão Brasileiro novamente e indo para a seleção brasileira no ano seguinte.

Por toda essa análise, se faz necessário ao técnico brasileiro ter a consciência do que ele faz e o que ele pode fazer. Porém, também é necessária uma maior reflexão sobre o que é jogado no mundo inteiro. Muitos jogos da Premier League não engraxam o sapato de alguns jogos de times de “meio de tabela” do nosso Campeonato Brasileiro. Muitos times equilibrados aparecem em nosso território nacional, e eles não existem apenas no velho continente.

O 7 a 1 escancarou uma péssima gestão do futebol brasileiro como um todo, e as circunstâncias administrativas sempre deverão ficar em primeiro tempo. Á Guardiola, Mourinho, Ancelloti e outros, estão convidados para dirigir um time gigante de nosso país e provarem para nós que estão muito acima do que nossos técnicos, ou não.

Aos nossos técnicos, cabe se aperfeiçoarem cada vez mais, mas sem o complexo de vira-latas que todo dia é imposto pelos meios de comunicação. Não temos Cristiano Ronaldo, Messi e cia em nossos campeonatos, não temos a cultura de teatro que algumas torcidas europeias adotam, mas temos sim a melhor fonte de talentos do mundo inteiro, e isto é algo que inegavelmente nunca irá acabar.

Fontes : Maurício Noriega; Site Oficial do Palmeiras; Estadão; Terceiro Tempo

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