Templos históricos do interior do Rio de Janeiro

Dos péssimos regulamentos à especulação imobiliária, o futebol agoniza nos estádios do interior.

Estádio Eduardo Guinle, um dos alçapões do interior carioca (Foto: Divulgação/Friburguense)

Em tempos de grandes arenas, estatuto do torcedor e elitização do futebol, fica difícil imaginar a revitalização e a continuidade de alguns estádios históricos nos campeonatos regionais.

É complicado entender a mentalidade das pessoas que comandam o nosso esporte quando buscam trazer para o país uma realidade que não é nossa. O conforto, bem-estar e, principalmente, a segurança do torcedor são necessários para o desenvolvimento do futebol mas, por outro lado, deixa de fora uma cultura histórica. E faz o futebol brasileiro perder a sua verdadeira identidade.

Os torcedores cada vez mais se afastam das arquibancadas, porém, a verdade é que os clubes se distanciaram da sua torcida. Há alguns anos, por determinação da Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FFERJ), e por certa influência da empresa que detém os direitos das transmissões dos jogos, as equipes grandes do futebol carioca passaram a atuar em apenas dois estádios fora da capital, Arena da Cidadania, em Volta Redonda e o Moacyrzão, em Macaé. Com isso, boa parte das times que não são do município do Rio de Janeiro tiveram que se afastar das suas sedes, mesmo quando mandantes dos jogos.

O desafio de encarar um dos chamados “grandes” jogando em casa atraía um grande público nas partidas no interior. Era um duelo à parte e, às vezes, o maior evento do ano na cidade anfitriã. A renda desses jogos chegava a ser maior do que a de todos os outros somados, levando em conta as partidas contra os pequenos. É óbvio que pesa no orçamento. Mas, tão importante quando isso, a falta de jogos importantes nesses estádios tira completamente a viabilidade de investimentos maiores na manutenção deles.

Para os dirigentes, o retorno financeiro com os direitos de transmissão passou a ser muito mais importante do que a paixão do torcedor. O resultado disso é o total desinteresse e o fracasso de quase todos os estaduais, já que esse não é um privilégio apenas do estado do Rio de Janeiro. Graças a isso, deixamos de lado verdadeiros templos do futebol do interior, campos que fizeram grandes craques tremerem as pernas só de pensar em jogar.

Conheça alguns estádios que, com certeza, qualquer torcedor carioca deve ter o seu jogo inesquecível.

 

Estádio Eduardo Guinle

Capacidade: 6.550 pessoas
Recorde de Público: 12.689 (Friburguense 1 x 3 Botafogo, pelo Campeonato Carioca de 1984)

Estádio Eduardo Guinle em Nova Friburgo (Fonte: Divulgação/Friburguense)
Estádio Eduardo Guinle em Nova Friburgo (Fonte: Divulgação/Friburguense)

Localizado em uma das cidades mais agradáveis da Região Serrana do Rio de Janeiro, o estádio do Friburguense passou por algumas obras no ano de 2008 e hoje está apto para receber partidas do Campeonato Carioca, sendo uma das poucas exceções no estado. Passa longe de ser uma arena, ~para nossa alegria~. Tem áreas sociais com cadeiras, bares e uma imensa arquibancada de concreto com boas condições para receber seus torcedores, inclusive dos times grandes.

O Eduardo Guinle já teve a honra de receber uma partida do Campeonato Brasileiro de 1990, quando o Fluminense perdeu para o Palmeiras por 1 a 0. No ano de 2005,  o Frizão — como é conhecido o Friburguense —  recebeu em casa duas partidas da Copa do Brasil, numa delas aplicou uma goleada por 4 a 1 na Caldense, e na fase seguinte, conseguiu arrancar um honroso empate contra o Internacional-RS por 1 a 1.

Infelizmente o tricolor da serra não passa por uma grande fase. Foi rebaixado para a Série B do estadual deste ano e passará pelo menos um temporada sem receber jogos dos grandes times do Rio.

 

Estádio Godofredo Cruz

Capacidade: 12.300 pessoas
Público Recorde: 22.853 (Americano 2 x 2 Flamengo, Campeonato Brasileiro de 1983)

Estádio Godofredo Cruz, localizado em Campos, no Rio de Janeiro (Foto: Divulgação/Americano)
Estádio Godofredo Cruz, localizado em Campos, no Rio de Janeiro (Foto: Divulgação/Americano)

A cidade de Campos dos Goytacazes é a maior e mais importante do norte do estado, e o Estádio Godofredo Cruz viveu por muito tempo uma importância do mesmo tamanho da sua terra. Além de receber diversos jogos dos times da capital, o tradicional clássico contra o Goytacaz também marcou a história de um dos maiores alçapões fluminense.

Nos tempos do Caixa d’Água — Eduardo Vianna, famoso ex-presidente da FFERJ e torcedor fervoroso do Americano —, o alvinegro de Campos teve um grande crescimento e deu muito trabalho para os times grandes quando jogava em seus domínios. É óbvio que o mérito em algumas vitórias era contestado pela presença do dirigente nas partidas, mas a torcida apaixonada que lotava o estádio colocava uma pressão incomum em seus adversários. Era difícil vermos um jogo com pouco público no Godofredo Cruz, algo que infelizmente estará apenas no passado.

O estádio está sendo demolido, após mais de 60 anos de história. Uma derrota do futebol para a especulação imobiliária, já que a sede do Americano é situada em uma das áreas mais nobres da cidade. A nova casa está sendo construída em outra região de Campos, mas nada trará de volta a lembrança do torcedor.

A demolição do Estádio Godofredo Cruz (Foto: Reprodução/Americano)
Demolição do Estádio Godofredo Cruz (Foto: Reprodução/Americano)

Hoje, o Americano briga para conseguir retornar para a Série A, mas será difícil imaginar um campeonato carioca sem um dos seus mais emblemáticos alçapões.

Existem vários outros estádios que poderiam entrar aqui. Vamos abordar em matérias futuras, aguardem.

Texto: Wagner Ponce @wagnerponce

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