Tinga e o título contra o racismo

Tinga trocaria seus títulos esportivos por um mundo mais justo

Tinga em coletiva de imprensa (foto: Superesportes/Reprodução)

A cidade de Huan Cayo, no Peru, recebeu o campeão brasileiro de 2013, o Cruzeiro, para o compromisso do grupo entre Real Garcilaso e Cruzeiro. A partida marcava a estreia dos dois clubes na Copa Libertadores. Seria apenas um jogo comum dos brasileiros fora de casa, mas a substituição aos dezoito minutos do segundo tempo de Ricardo Goulart por Tinga trouxe uma infeliz surpresa.

Quando a placa de substituição foi erguida e Tinga aguardava sua entrada, a torcida começou a fazer vários sons. O começo da manifestação passou despercebido pelo próprio jogador que não conseguiu diferenciar o que estava acontecendo. A medida que o tempo avançava e Tinga tocava na bola ficou evidente: a torcida do Garcilaso estava imitando sons de macaco para o jogador celeste. Não havia a menor justificava para o que estava acontecendo e era visivelmente direcionada ao camisa sete. O espectadores que assistiam no Brasil pela televisão conseguiram identificar a ofensa.

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Tinga durante a partida (Foto: AP/Terra/Reprodução)

O jogo terminou com a derrota do clube celeste que mostrou-se muito mais chateado pelo sofrimento do companheiro de time. O caso de preconceito apagou toda a mística do jogo de Libertadores e deixou espaço para uma lembrança muito triste da estreia continental cruzeirense em 2014. Tinga, apesar de estar visivelmente chateado em entrevista na saída do gramado, manteve a classe. Sua declaração foi muito interessante e repercutiu positivamente: “Fico muito chateado e infelizmente, aconteceu. Joguei vários anos na Alemanha e isso nunca aconteceu. Agora, em um país vizinho ao nosso, onde existem pessoas iguais a mim, acontece isso. Por mim, eu deixaria de ganhar qualquer título para que não houvesse mais desigualdade.”

O companheiro de time Dedé em entrevista a rádio Globo mostrou-se solidário e inconformado com o que havia acontecido: “O que deixa a gente indignado é um pais sul-americano com gestos racistas. O Tinga pega na bola, e eles (torcedores) começam a fazer som de macaco. Isso não existe e, da forma que eles jogaram aqui, catimbando, fazendo coisas para travar durante todo o jogo. Mas é o começo Libertadores, o time está confiante e sabe o que fazer no campeonato.”

O que aconteceu após este episódio?

A torcida celeste, no jogo seguinte, fez grande manifestação e criou a campanha “Fechado com o Tinga” para dar força contra o caso de racismo. A campanha foi aderida pela imprensa e pelo torcedores mineiros como um todo. A presidente Dilma classificou o ocorrido como “absurdo” e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) pronunciou-se no Twitter prestando apoio ao jogador com a imagem “somos todos iguais”. Os rivais alvinegros, através da voz de Ronaldinho Gaúcho, prestaram solidariedade também na época.

A Federação Mineira de Futebol fez representação contra o clube peruano para que fossem punidos pelo ato de sua torcida. A Comenbol, alguns meses após investigação, puniu o clube Real Garcilaso em 12 mil euros apenas, mas não identificou os responsáveis pelo ato.

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Arte da CBF contra o racismo (Reprodução: CBF site Oficial)

A luta contra o preconceito não pode ser apenas as quartas e aos domingos

Ações preconceituosas como esta infelizmente não são novidade no futebol e nos esportes. Casos como o de Tinga, Hulk e Balotelli são exemplos da dificuldade desta luta. Punir apenas o clube na maioria das vezes não é o suficiente para a superação destas mazelas. Os casos são isolados perante ao grupo de torcedores e por isso não justifica punir aqueles que não participam destas manifestações.

A indignação não pode ser apenas conectada aos casos como este. O futebol deve ser um exemplo para os outros esportes e punições a estes preconceituosos que não são torcedores de verdade. Devemos levar também esta motivação para fora das quatro linhas. Casos como esse não podem ser encarados como singulares e que após sua resolução estará tudo bem. Há uma necessidade de transformar estes acontecimentos como símbolos da luta diária e não apenas futebolística. Fechados com Tinga e sempre fechados contra o preconceito!

 

Texto: Lucas Poeiras (@pueira)

1 Comentário em Tinga e o título contra o racismo

  1. Casos como esse devem ser punidos com rigor. Mas não podemos limitar nossa indignação aos preconceitos étnicos.
    Até agora não vi, por parte das federações, nenhuma política de combate à homofobia nos estádios. E, se por um lado várias torcidas não admitem atitudes racistas nas arquibancadas, todas fazem vista grossa ao ridículo grito de “bicha” ao tiro de meta adversário.
    Por que falar de homofobia ainda é tabu no nosso futebol?
    Abraço à equipe CL!

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