Tucumán e a epopéia digna de Copa Libertadores da América

A primeira participação dos argentinos na competição teve uma situação digna dos clássicos da Libertadores

Classificação histórica para os jogadores do Atlético de Tucumán (Foto: Reuters)
Classificação histórica para os jogadores do Atlético de Tucumán (Foto: Reuters)
Por: Jean Costa – RS, Lucas Poeiras – MG e Wagner Ponce – SP,

Os jogadores do Atlético de Tucumán preparavam-se para enfrentar os equatorianos do El Nacional nesta terça-feira, 7 de fevereiro, na cidade de Quito, pela segunda fase da Copa Libertadores da América. Para não sentirem os problemas relacionado à altitude da cidade que está a 2.800m acima do mar, os argentinos sairiam de seu país natal em direção à capital equatoriana em um voo fretado. Assim, chegariam algumas horas antes do jogo para amenizar os efeitos do ar rarefeito. A partida estava marcada para as 22:15 no horário de Brasília – 19:15 no horário local.

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O Atlético simplesmente estaria trabalhando duro no que, até então, é a sua mais importante partida internacional. Os argentinos disputam a primeira fase do mata-mata contra os equatorianos e enfrentarão o Junior Barranquila, que venceu a sua partida contra o Carabobo cerca de uma hora antes do jogo.

O time entrou em apuros quando seu voo fretado em uma companhia particular teve sua documentação recusada e seu pouso negado na capital equatoriana. A logística do time precisou ser completamente alterada e um voo comercial de ultima hora foi o escolhido para levar comissão e plantel. Os diretores conseguiram um avião que pousaria às 22 horas (horário de Brasília), apenas 15 minutos antes de começar a partida. O time pousou pontualmente, mas enfrentou uma corrida contra o tempo: o estádio ficava a cerca de 30 minutos.

Jogadores,dirigentes e até torcedores do Atlético de Tucamán aguardavam a liberação do voo para Quito. (Foto: Divulgação /Twitter/ Atlético de Tucumán)
Jogadores,dirigentes e até torcedores do Atlético de Tucamán aguardavam a liberação do voo para Quito. (Foto: Divulgação /Twitter/ Atlético de Tucumán)

Aeroporto distante e partida atrasada, não fica difícil imaginar que o ônibus da delegação entrou nas ruas de Quito no melhor estilo do filme Velocidade Máxima ou Velozes e Furiosos:

Os equatorianos já esperavam há mais de uma hora a chegada da delegação oponente. E devido à grande presença dos torcedores locais, um esquema diferente foi montado e os jogadores entraram pelas portas dos fundos para ingressarem nos vestiários e começarem o aquecimento.

O manto sagrado do jogo foi o Argentino?

A organização do clube havia despachado as malas já para Quito. Com a mudança de voo não havia tempo hábil para encontrar as bagagens certas, com todo o aparato esportivo oficial do clube. Ao chegarem no estádio, se depararam com uma situação inusitada: estavam sem os uniformes e precisavam dar prosseguimento aos protocolos de jogo.

A entidade máxima do futebol Argentino, a AFA, não hesitou em dar uma forcinha para que o Atlético tivesse condições de disputar essa grande partida. A seleção argentina da categoria sub-20 está disputando uma competição no Equador. Seus uniformes e, até mesmo as chuteiras, foram entregues à delegação de Tucumán, que foram para o jogo com as mesmas cores que seu manto original: branco e azul. A diferença era que, desta vez, jogaram com as camisas da seleção! Um adendo curioso para esse fato: a história diz que o clube tucumano utilizou esse modelo de uniforme antes mesmo que a sua seleção.

Jogadores do Atlético de Tucumán na preparação final para a partida. (Foto: Reprodução / Twitter / Luis Juez)
Jogadores do Atlético de Tucumán tendo que utilizar o uniforma da sua seleção. (Foto: Reprodução / Twitter / Luis Juez)

O jogo se iniciou às 23:30 no horário de Brasília, com o El Nacional do Equador em suas vestes principais vermelhas com uma faixa diagonal branca, e com o Decano, forma como é conhecido o clube de Tucumán, vestindo a albiceleste da seleção Argentina. Uma situação totalmente atípica que foi permitida pelos delegados da Comenbol em prol do futebol.

Uma entrada no mínimo emocionante e cheia de adrenalina, deu um tempero extra ao jogo que seria apenas mais um na fase preliminar de classificação da competição. Além de vários desafios antes do começo dos trabalhos, o time ainda precisava jogar uma partida de libertadores depois de tudo!

Conseguiria o Atlético de Tucumán superar essas improbabilidades e ainda vencer o El Nácional em pleno estádio Olimpico de Quito?

O desfecho emocionante

De uma quase eliminação por W.O a uma classificação inimaginável. Quiseram os deuses do futebol que após o caos vivenciado pela equipe argentina, o Tucumán se classificasse para a terceira fase da competição mais apaixonante do mundo.

“Indescritível” chega a ser pouco para descrever o feito, mas apesar de todos os problemas que o clube teve de lidar nesta terça-feira (7), se mostrou disposto durante os 90 minutos da partida. Desde o início do jogo os decanos buscaram reverter o resultado e por pouco não conseguiram ainda no primeiro tempo.

O Tucumán parecia não sentir a altitude, os jogadores corriam como nunca enquanto o El Nacional se mostrava apático dentro das 4 linhas. Quem parecia estar jogando dentro de casa eram os argentinos. O El Decano por pouco não abriu o placar com Zampedri, mas parece que a camisa 9 da Argentina ainda sofre da maldição de Higuain. Porém, quando algo está destinada a acontecer, você pode ter certeza que ela vai. Não importa como.

Os tucumanos fizeram uma grande primeira etapa, colocando em xeque várias vezes a meta defendida por Darwin Cuero, mas a falta de precisão manteve o primeiro tempo zerado.

Leyes tanta cabeçada para abrir o placar para os argentinos. (Foto: AFP)
Leyes tanta cabeçada em uma tentativa de abrir o placar para os argentinos. (Foto: AFP)

E era na figura de Zampedri que a classificação se encontrava mesmo. O camisa 9, que havia desperdiçado um par de chances claras marcou aos 18 minutos. De cabeça, após cruzamento da esquerda, tirou meio sem querer do goleiro. Em meio à jogada errada, que ainda contou com falha do defensor equatoriano, o centroavante se agigantou e garantiu o 1 a 0, para delírio de sua torcida e todos nós que tivemos a oportunidade de vivenciar um momento inacreditável como esse.

Como se a terça-feira não tivesse sido louca o bastante para a equipe, os deuses do futebol fizeram com ela ficasse ainda mais. Zampedri se tornava o herói da história que pode se tornar um filme a concorrer no Oscar. O 9 honrava a camisa que já utilizada por tantos outros grandes nomes da história de seu país. O 9 colocava seu nome na história e também o time na próxima fase.

Fernando Zampedri comemora o gol que colocaria o Decano na terceira fase da competição. (Foto: Reuters)
Fernando Zampedri comemora o gol que colocaria o Decano na terceira fase da Copa Libertadores da América. (Foto: Reuters)

Após o gol um certo alívio, mas mesmo assim o Atlético se mostrava melhor no jogo. Abalado, o El Nacional parecia não acreditar no que estava vivenciando e pouco fez depois da alteração do placar. Algumas oportunidades foram criadas, mas nada que causasse muito perigo à defesa tucumana.

Nos acréscimos, uma bicicleta do atacante Borja por pouco não jogou a classificação por água abaixo. Bola para fora e classificação argentina a menos de dois minutos. O sonho estava logo ali.

Final de jogo! E Atlético Tucumán na história do futebol argentino, sul-americano e, por que não dizer, mundial. O herói improvável, o jogo que por um milagre aconteceu. O dia 07 de fevereiro de 2017 ficará conhecido como o dia das causas impossíveis no futebol e tudo isso graças a uma equipe pequena do norte argentino que nos ensinou a nunca desistir do que queremos.

O Tucumán se mostrou o Ultimate Team da vida real, prejudicou o nosso sono e o sono de você que lê este texto, usou uniforme dos outros, jogou feio e ainda fez gol no time teoricamente mais forte.

Em seus quase 115 anos de história, o Atlético Tucumán nunca poderia imaginar que logo em sua primeira participação na Libertadores passaria por uma situação inacreditável feita essa. Hoje, os decanos nos ensinaram uma lição: não se pode ser cético quando o assunto é futebol.

Só de chegar ao jogo, o feito se torna memorável. Mas depois de tudo que a equipe passou, com tudo certo para dar errado com o Atlético, o futebol simplesmente nos surpreende ainda mais. Conseguir uma classificação como a de hoje é um feito que provavelmente não irá acontecer mais, mas o bom é que todos nós tivemos a oportunidade de presenciar!

Confira o gol que deu a histórica classificação ao Decano:

Lembrando que está previsto pelo regulamento da competição que o tempo de tolerância para atrasos é de 45 minutos. Até esse prazo as equipes são punidas com multa. Após esse tempo, a partida pode ser dada como vencida pela equipe que se apresentou em campo, considerando o resultado de W.O, segundo o artigo 15, item 15.2. Mesmo tendo concordado com o atraso e entrado em campo após o prazo ter expirado, a equipe do El Nacional pode apresentar queixa à Conmebol contra o time do Atlético de Tucumán. Será que fariam isto?

Fonte: Clárin e Conmebol

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