Um grito contra a opressão

Maior ponto turístico da maior cidade do Brasil, a Avenida Paulista recebe neste domingo, dia 29 de maio, a 20ª Parada do Orgulho LGBT. Uma multidão vai às ruas representar os mais de 20 milhões de lésbicas, gays, bissexuais e trans do país. Desses, é certo que muitos milhões gostam de futebol. E que provavelmente nenhum deles se sinta à vontade num estádio de futebol. Pedro é um deles.

Não é a primeira nem a última vez que alguma torcida se comporta de forma homofóbica nas arquibancadas Brasil afora e que um jogador se sente discriminado por conta de sua orientação sexual. Goleiro do modesto C.A. Futebol Clube, de Goiás, Pedro foi mais uma vítima da homofobia, em partida válida pelo campeonato estadual, no início de abril.

A torcida da equipe rival, como hienas em busca de sua presa, foram informadas por notícias veiculadas na imprensa local de que o goleiro do C.A. era gay. Pronto. Alimentados de preconceito e ávidos para destilar seu ódio, os torcedores gritavam em coro, a cada batida de tiro de meta, em todos os setores do estádio: “Ôôô bicha!”. O cântico acertava Pedro como um tiro. O arqueiro ainda teve de suportar outras incontáveis e constantes ofensas ao longo de toda a partida dos homofóbicos colados nos alambrados atrás das traves.

Homofobia

E talvez pior do que sofrer seja sofrer calado. Sob ameaças de punição da equipe de arbitragem da partida caso discutisse com os torcedores, Pedro nada pôde fazer. Passou 90 minutos sendo hostilizado, levando cusparadas e se esquivando de objetos arremessados em sua direção. Calado. Silenciado.

“Cada vez que ele pegava na bola a torcida chamava ele de bicha. Deu o dedo pra torcida e não fez e nem falou mais nada.”, lembrou Alfredo, capitão do C.A., em conversa com a CL.

“No vestiário o apoio ficou com a irritação nossa e os comentários com a situação. O Pedro se isenta. Ele fica sempre na dele, não muda essa postura. Poucas conversas. Eu achei totalmente errada a isenção da arbitragem. Tem que identificar quem estava falando aquilo, porque era grande parte da torcida. Nem relatar na súmula eles iam relatar. Os policiais também. Acho errado porque ele é a autoridade máxima no jogo, ele é o responsável, ele tem que fazer isso. Ele pune atletas, pessoas da diretoria, gandulas… E numa situação desse não quer nem relatar o que aconteceu? Algo que foi ouvido por todos”, completou.

O episódio a que Pedro foi submetido num modesto estádio do interior de Goiás com capacidade para pouco mais de quatro mil torcedores é uma miniatura do que se passa nas grandes arenas de diversos tradicionais clubes de futebol do País. Uma das pioneiras nos gritos de “ôôô bicha” no Brasil foi a torcida do Corinthians, que segue entoando o cântico a cada tiro de meta batido pelos goleiros adversários que visitam Itaquera.

A inspiração para brasileiros iniciarem o tal grito é o futebol mexicano. Lá, a torcida criou o hábito de berrar “ôôô puto” quando os goleiros cobram tiro de meta. O termo tem como significado popular “prostituto” ou “homossexual”. Com receio de multas da Fifa, a Federação Mexicana de Futebol iniciou uma campanha de combate a homofobia, mas os efeitos parecem irrisórios. No Brasil, núcleos ainda pequenos de torcedores dos principais clubes tentam se organizar para frear os cânticos homofóbicos. Por enquanto, tudo em vão.

“Qualquer discriminação deve ser tratada com rigor, porque é errado. Se dermos margem pra isso vai crescer, vai aumentar. As crianças que veem os adultos tomando essas atitudes vão repetir lá na frente. Se não punirmos, não repreendermos hoje, no futuro isso vai se repetir. É um comportamento errado, tem de ser punido, coagido, criticado. Senão outros Pedros seguirão sofrendo em campos e outros lugares da sociedade”, afirmou Alfredo.

(Foto: Agência Corinthians)​
(Foto: Agência Corinthians)​

Pedro é um nome falso. Alfredo é um nome falso. C.A. Futebol Clube é um nome falso de um clube que não pertence a Goiás, mas sim a outro Estado do Brasil. A CL só conseguiu conversar com “Alfredo” sob condição de esconder qualquer informação que pudesse revelar a verdadeira identidade de Pedro, que fez tal pedido a seu amigo e capitão da equipe. Alvo dos insultos homofóbicos e com medo de novas represálias, o goleiro disse não se sentir confortável para conceder entrevistas tampouco se expor.

Está mais do que na hora de nos unirmos num grito contra a homofobia.

Texto: Lucas Faraldo

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