Valderrama: monstro colombiano

Ele foi um monstro dos anos 80 e 90. Foi, também, uma das personalidades mais famosas da história do esporte bretão e conhecido até por quem não era tão fã do futebol. Com sua cabeleira, criou uma faceta única. Com seu carisma, conquistou fãs. E com seu futebol, encantou multidões e foi o motor da melhor Seleção Colombiana de todos os tempos, aquela mesma, que no começo dos anos 90 enfiou 5 a 0 na Argentina em pleno estádio Monumental. Caros confrades, estou falando de Carlos Alberto Valderrama Palacio, mais conhecido como Valderrama. O melhor jogador que a Colômbia já produziu, o que mais vestiu a camisa amarela do país do café e um craque que teve como marca o que de melhor o futebol latino sempre ofereceu: passes belos, harmonia nas jogadas, profundidade em lançamentos, rapidez de raciocínio e visão de jogo estupenda. Um verdadeiro maestro, El Pibe foi o camisa 10 e capitão de uma equipe que merecia sorte melhor nos torneios que disputou, principalmente nas Copas de 1990 e 1994.

Valderrama

Foram as belas praias de Santa Marta, em pleno caribe colombiano, os primeiros palcos por onde Valderrama começou a tomar gosto pelo futebol e pelas pulseiras e colares que sempre lhe acompanharam dentro de campo. O garoto foi moldado em uma família de futebolistas e fazia o que queria com a bola quando deixava as aulas e ia disputar peladas no bairro de Pescaíto, o mais tradicional e famoso de Santa Marta. Foi por lá que Valderrama ganhou o apelido de “Pibe”. Reza a lenda que um argentino lhe chamou a atenção por ter faltado a uma pelada dando-lhe essa alcunha.

Já adolescente, Valderrama começou a jogar como atacante no colégio onde completou os estudos e no qual seu pai era treinador. Habilidoso e muito inteligente, El Pibe marcava vários gols e jogava um futebol de altíssimo nível comparado ao dos colegas, algo que fez com que fosse recuado para o meio de campo a fim de organizar jogadas e deixar os companheiros na cara do gol.

QUE HOMEM! (porém jovem)
QUE HOMEM! (porém jovem)

No começo da década de 1980, o jovem decidiu seguir com o futebol e manter a tradição familiar ao escolher o Unión Magdalena, seu time de coração, como ponto de partida. Apenas um ano depois, em 1981, Valderrama estreou na divisão principal do Campeonato Colombiano, conseguindo uma vaga na seleção juvenil da Colômbia. Foi a partir de então que jogador começou a despertar a atenção de todos não só pelo futebol, mas também pela cabeleira loira toda bagunçada que se transformaria em sua marca registrada. Sempre muito carismático, o jovem começava a mostrar seu jogo refinado. Era o início de uma esperança colombiana e de um talento fora de série.

Aprende, David Luiz!
Aprende, David Luiz!

Em 1987, o meia mostrou que era mesmo craque quando liderou a Colômbia na disputa da Copa América, realizada na Argentina. O desempenho do camisa 10 deu a ele o prêmio de melhor jogador da competição e, no final do ano, a coroação como o melhor jogador do continente. Crescendo cada vez mais de produção, Valderrama despertava a atenção de mais gente, em especial dos olheiros da Europa, para onde ele iria em 1988.

Em 1990 a Colômbia estava de volta à Copa do Mundo, após 28 anos e contava, além de Valderrama, com grandes nomes como Higuita, Andrés Escobar, Herrera, Gildardo Gómez, Redín, Leonel Álvarez, Rincón, Perea, Iguarán entre outros. Finalmente o povo colombiano via alguma esperança, era chegada a hora do país ser reconhecido pelo seu futebol.

Seleção colombiana
Seleção colombiana

Na Copa, a Colômbia começou sua disputa no Grupo D, ao lado de Alemanha, Emirados Árabes Unidos e Iugoslávia. O primeiro adversário foi o EAU, e os sul-americanos ganharam por 2×0, com grande atuação de seu maestro, El Pibe. O resultado deixou uma boa impressão e fez com que muitos apontassem a Colômbia como candidata a surpresa da Copa. Porém, no segundo jogo, os sul-americanos se esqueceram de jogar futebol e só não levaram uma goleada da Iugoslávia porque a trave e Higuita, que defendeu um pênalti, não deixaram. O 1×0 a favor dos europeus complicou a vida dos colombianos, que teriam que pelo menos empatar contra a fortíssima Alemanha para avançar de fase como um dos melhores terceiros colocados. Diante dos alemães, Valderrama orquestrou as principais jogadas colombianas ao longo do jogo, deslizou por entre os marcadores, mas nada de o gol sair. Aos 44 minutos do segundo tempo, a Alemanha abriu o placar com Littbarski e pareceu sepultar as esperanças dos sul-americanos. Mas ainda faltavam alguns minutos, tempo suficiente para aparecer a estrela de Valderrama e reforçar a tese de que o jogo só acaba com o apito final. O craque recebeu no meio de campo, entortou o alemão Berthold e esperou o momento certo para tocar na direita para Rincón, que tabelou com Fajardo e este devolveu a Valderrama, que lançou novamente Rincón, para este dar um leve toque por debaixo do goleiro Illgner e marcar um golaço: 1 a 1. Um gol que honrou a tradição do Futebol Total, mostrando a força ofensiva do time amarelo. Colômbia viva na Copa.

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Nas oitavas de final, os colombianos tinham pela frente a seleção de Camarões, que seria a verdadeira sensação da Copa. Nos primeiros 90 minutos, nenhuma das equipes conseguiu balançar as redes, embora Valderrama tivesse feito até chover para que seus companheiros marcassem pelo menos um gol. Na prorrogação, brilhou a estrela de outra lenda: Roger Milla, que marcou dois gols em apenas três minutos, um deles com grata contribuição do goleiro Higuita, em um dos lances mais pitorescos da história das Copas, e praticamente liquidou o jogo. Aos 10 minutos do segundo tempo da prorrogação, Valderrama chamou o companheiro Redín e mostrou para o mundo a força das tabelas e do futebol jogado pelos dois nos anos 80 com a camisa do Deportivo Cali. Após passes precisos e de primeira, Redín fez um lindo gol e encerrou a participação colombiana na Copa. O placar de 2×1 classificou Camarões, mas Valderrama deixou a Itália de cabeça erguida e muito aplaudido pelo futebol de alto nível apresentado em um Mundial tedioso e com pouquíssimos gols. Pelo time que tinha e pelo brilho de El Pibe, os colombianos mereciam posição melhor. Mas, como o futebol não obedece a paixões ou ordens, era preciso seguir em frente.

23 de Junho de 1990, Copa do Mundo
23 de Junho de 1990, Copa do Mundo

Em 1993 que Valderrama liderou a maior façanha da história da Seleção Colombiana: a incrível goleada por 5×0 sobre a Argentina em pleno estádio Monumental, em Buenos Aires, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo dos EUA, impondo uma humilhação até hoje lembrada com tristeza pelos hermanos. Com sua visão de jogo e todas as ações ofensivas passando pelos seus pés, El Pibe enlouqueceu os argentinos e foi um dos destaques da inesquecível partida realizada pelo time colombiano, que voltava a ser comandado por Francisco Maturana e tinha as estrelas da Copa de 1990 mais amadurecidas e com o reforço do célebre atacante Faustino Asprilla. A goleada e consequente classificação para a Copa foi a vingança pela derrota nos pênaltis na Copa América daquele ano, quando a Colômbia caiu nas semifinais diante dos argentinos e terminou na terceira posição sem perder um jogo sequer. Aliás, em 1993 a equipe disputou 19 jogos, venceu 10, empatou nove e não perdeu nenhum. Valderrama confirmou a boa fase ao ser condecorado como o Melhor Jogador Sul-Americano do ano pela segunda vez na carreira e inspirou vários palpites de que a Colômbia seria uma das favoritas ao título do Mundial de 1994. A expectativa era enorme. Mas, infelizmente, a queda também seria.

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Em 1994, a Colômbia seguiu quase imbatível nas partidas pré-Mundial e desembarcou nos EUA com o favoritismo ao seu lado. Porém, Valderrama não conseguiu mostrar aos companheiros que tudo aquilo poderia atrapalhar o rendimento em campo, principalmente a soberba do clima de já ganhou. Dito e feito. Na estreia, a Romênia de Hagi venceu os sul-americanos por 3×1. Na partida seguinte, foi a vez dos EUA vencer por 2×1, com direito a gol contra do zagueiro Escobar, que não foi perdoado pelo cartel colombiano, sendo assassinado tempos depois em seu país por causa desse erro. No último jogo, a já eliminada Colômbia venceu a Suíça por 2×0, com assistência de Valderrama para o primeiro gol, de Gaviria. Foi a despedida melancólica dos colombianos e de Valderrama, que saiu dos EUA muito frustrado por não ter ido mais longe na Copa que ele acreditava ser dele. O jogador comentou na época que aquele era o pior momento de sua carreira:

“Nunca havia fracassado dessa forma. Foi o momento mais triste da minha vida como jogador de futebol”.

Com o respeito da torcida reconquistado após o fracasso nos EUA, foi em solo norte americano que Valderrama encontraria ainda mais fãs a partir de 1996, quando fez a alegria dos torcedores no soccer com seu visual exótico e o futebol de passes vistosos. Já consagrado como uma estrela internacional, Valderrama foi fundamental para que o esporte no país voltasse a crescer e saísse do marasmo que se encontrava após o boom dos anos 70 e 80 proporcionado por Pelé, Beckenbauer e outros craques que desfilaram suas virtudes nos gramados estadunidenses.

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O revés na Copa de 1994 foi o último grande momento daquela geração de ouro da Colômbia, que não repetiu o brilho de antes e disputou a Copa de 1998, na França, já envelhecida, mas com Valderrama ainda no meio de campo e com a braçadeira de capitão. A Colômbia caiu novamente na primeira fase (venceu apenas a Tunísia, por 1×0, com assistência de Valderrama para o gol de Preciado, e perdeu para a Romênia, por 1×0, e para a Inglaterra, por 2×0). Um fato curioso naquele Mundial aconteceu no último jogo dos colombianos, contra a Inglaterra, quando David Beckham, um dos astros do English Team, pediu a camisa de El Pibe após o final do jogo e confessou admirar bastante o futebol do camisa 10 da seleção cafetera. O revés para os europeus foi o fim simbólico de Valderrama por sua equipe após 111 jogos disputados e 11 gols marcados, incluindo 10 jogos de Copas do Mundo, 27 de Copas América, 30 em Eliminatórias para a Copa e 44 amistosos.

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Nas temporadas seguintes, o jogador também vestiu as camisas do Miami Fusion e do Colorado Rapids. No total, o craque disputou 175 jogos na MLS, marcou 16 gols e deu 114 assistências, um recorde que faz dele o terceiro maior “garçom” da história da competição, atrás apenas de Steve Ralston e Landon Donavan. Em 2002, aos 41 anos, Valderrama deu adeus aos gramados com muita emoção por ter de parar de fazer o que mais gostava na vida: jogar futebol.

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Em campo, Valderrama construiu uma carreira que não teve muitos títulos, mas que foi recheada de belos lances e inspirou uma seleção colombiana que entrou para a história. Por onde passou, El Pibe conseguiu ser ídolo e se tornou uma lenda que ganhou o respeito de todo o mundo. Com sua cabeleira registrada e futebol inconfundível, Valderrama é, até hoje, o maior e mais valioso jogador colombiano de todos os tempos. Devido a essa trajetória fantástica, o maestro ganhou uma estátua em sua terra natal, Santa Marta. Uma estátua com cabeleira dourada, como foram dourados o futebol da Colômbia e de Valderrama. Um autêntico gênio da bola, latino, intenso, que demonstrou as características mais valorizadas por nós confrades, a habilidade e raça, que só os sul-americanos possuem.

Texto: Pedro Portugal

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