Vardy: O herói operário

Fazer um turno de 12 horas na fábrica e jogar futebol à noite com uma tornozeleira eletrônica. Rejeição precoce e vontade de desistir. Segunda oportunidade, redenção e glória. Podia ser um texto sobre alguma canção de “luz vermelha”, a remeter para um início de vida cinzento, numa rotina proletária sem futuro, mas que se transforma numa história de perseverança e final feliz. Mas não nobres confrades, esta é a história de Jamie Vardy, o centroavante do Leicester City que há três anos jogava na quinta divisão da Inglaterra e que é, atualmente, o melhor atacante da Premier League e já tem quatro convocações pela seleção inglesa.

Histórias como a de Jamie Vardy são cada vez mais rara em um esporte que o talento de garotos é descoberto cada vez mais cedo pelo desenvolvimento do “scouting”, dificilmente deixando alguma jovem promessa passar despercebida. Como tantos moleques, Vardy tinha um sonho, mas, aos 16 anos, deixou de o ter quando o seu clube do coração, o Sheffield Wednesday, o dispensou por ser baixinho. É aqui, amados leitores, que eu, com os meus 1,65m de altura, entendo a dor do cara.

“Foi um momento difícil e deixei de jogar durante uns tempos porque pensava que nunca iria ser profissional”, contou o centroavante.

Na altura, calcula Vardy, teria cerca de 1,50m, mas, um mês depois de ter sido dispensado, teve um surto de crescimento.

“De repente, cresci cerca de 20 centímetros.”

Vardy continuou a estudar e foi trabalhar para uma fábrica de próteses de fibra de carbono. Não demorou muito até voltar a jogar futebol, em uma equipe de amigos, e, pouco depois, foi parar na reserva do Stocksbridge Park Steels, uma equipe amadora de Sheffield da oitava divisão. E aqui, como um morteiro que explode no ar, Vardy começou a brilhar . E a ganhar dinheiro com o futebol. Trinta libras por semana foi o seu primeiro ordenado como jogador para complementar o salário que ganhava trabalhando 12 horas por dia na fábrica de próteses (não foi atoa que Marx escreveu “O Capital” baseando-se nas fábricas inglesas!!!).

12 horas de trabalho!!! Quero dar o MIM ACHER!!!
12 horas de trabalho!!! Quero dar o MIM ACHER!!!

Durante seis meses, teve um “empecilho” bem moralizador. Usou uma tornozeleira eletrônica por ter se envolvido em um porradeiro dentro de um pub. Segundo DETETIVÕES, defendendo um amigo com deficiência auditiva, um verdadeiro membro da CL. Com isso, teve de cumprir um horário de recolher obrigatório, o que fez com que, por diversas vezes não pudesse treinar, e, nos jogos fora de casa, tivesse que sair no intervalo para cumprir o horário. Com todas estas limitações, Vardy conseguiu destacar-se e, em 2010, deu o salto para o Halifax, da Northern Premier League (sétima divisão), subindo para a Conference North (quinta divisão) no ano seguinte, para representar o Fleetwood Town.

vardy2

Vardy ia subindo degraus e o seu faro de gol mantinha-se intacto. Uma temporada no Town foi o suficiente para chamar a atenção do Leicester City, da segunda divisão inglesa, que pagou por ele um milhão de libras, valor recorde para um jogador amador. Duas temporadas depois, os seus gols foram fundamentais para a promoção da equipe da Midlands à Premier League.

vardy3

O seu primeiro ano entre os grandes do futebol inglês foi relativamente discreto, mas suficiente para lhe render uma convocação para a seleção inglesa. Mas foi na segunda temporada de Premier League que Vardy, com suas belas arrancadas, escreveu sua história, com 24 gols marcados, 6 assistências, 115 chutes ao gol, que alimentaram a épica jornada do Leicester de Claudio Ranieri, rumo ao inédito título inglês, mostrando que o futebol imita a vida e que o sonho, por mais improvável que seja, pode tornar-se real.

vardy4

Aos 28 anos, 12 depois de ter sido rejeitado pelo Wednesday, Vardy continua sendo um atacante não muito alto (1,78m de altura), mas faz da sua rapidez, sua inteligência ofensiva e sua capacidade de trabalho em equipe, as suas grandes armas. Talvez nunca seja uma grande referência em um gigante europeu – os tablóides ingleses já o puseram como um dos desejos do Real Madrid – mas com certeza estará na lista de Roy Hodgson para a Euro 2016.

"Eu realmente não gosto de comida Indiana, prefiro comida Inglesa, como Pizza ou Chinesa"
“Eu realmente não gosto de comida Indiana, prefiro comida Inglesa, como Pizza ou Chinesa”

Jamie Vardy, o “working class hero”, nasceu para correr, lutar e vencer, como canta, o também ex-operário Bruce Springsteen, em uma de suas principais músicas, “Born to run”. Um verdadeiro guerreiro, que apesar de inglês, tem em suas veias a raça que é tão comum em nossa América do Sul.

Texto: Pedro Portugal

4 Comentários em Vardy: O herói operário

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*