Veteranos: para efetividade não existe idade

Enquanto a nossa cultura tende a valorizar o novo sempre, os "velhinhos" tem mostrado que idade é somente um número

(Foto: Mauricio Lima/ LancePress)
Por Jean Costa, RS

Tudo na vida é questão de desafio e no futebol não poderia ser diferente. Quando se trata dele, vida e desafio são coisas que se interligam ao longo de uma carreira. Seja pelo jovem, seja pelo veterano. O segundo, por sinal, é questão do CL Opina de hoje. O preconceito contra veteranos se mantém, talvez não tão intenso como temporadas atrás, mas ele está ali. Quando um atleta chega a certa idade, quem analisa futebol (seja você, eu, o tio da Sukita ou os críticos) começa a olhar para tal jogador de maneira diferente, duvidamos se ele pode aguentar 90 minutos, mesmo que em um primeiro momento não admita, todos acabam fazendo. Afinal, todo jogador tem uma vida útil dentro de campo, não é? É normal duvidarmos, mas menosprezar como muitos fazem pelo simples fato de ser “velho demais” é complicado. Existe muita cobrança e isso não mudará. Tem um trecho de uma entrevista do Rivaldo, quando o mesmo atuava pelo São Paulo, e na ocasião estava prestes a completar 39 anos, que descreve parte disso muito bem.

“Claro que qualquer jogador cansa. Claro que não sou um super-homem: vou me cansar, é normal, porque isso acontece com um jogador novo também. Mas passa dos 15, 20 minutos do segundo tempo, e todo mundo fica de olho. Às vezes você é substituído e é uma substituição normal, tática, mas aí falam que você saiu porque cansou. Não é sempre assim.”

Rivaldo foi perfeito. Ele já havia calado os críticos em 2002, mas em 2011 era diferente. Ninguém é super-homem, ou qualquer outro personagem de quadrinhos com uma “mega resistência”. Tem um momento em que os joelhos e o corpo pedem arrego, mas enquanto ele não chega, ninguém pode dizer se tal veterano irá ou não irá render. Rivaldo pode não ter dado certo no São Paulo, mas isso não pode afetar a sua história.

Lembro-me de quando o Zé Roberto havia fechado transferência para o Grêmio. O meia vinha como principal reforço tricolor na janela de transferências, mas os críticos cumpriam seu papel muito bem levantando duvidas na cabeça dos torcedores. Zé, que sempre foi humilde, acabou deixando a humildade de lado temporariamente para provar que o veterano tinha plenas condições.  Na época com 37 anos, o craque fez questão de mostrar que estava em boa forma e dentro de campo acabou fazendo jus à contratação. Um veterano que rendia mais dentro de campo do que muito jogador considerado “jovem” na equipe. Elano, que é 7 anos mais novo, também fazia parte do elenco na época, mas ao invés de Zé, quem parecia o veterano da equipe era o ídolo santista.

O meia deu certo e no Palmeiras continua mostrando que não se pode menosprezar um jogador veterano apenas pelo fato de já ter uma idade avançada. Até se transferir para o tricolor gaúcho, o craque sequer havia tido problemas com lesões. Zé Roberto é diferenciado, mas não são só casos como o dele e o de Rivaldo que repercutem.

Zé Roberto é sinônimo de longevidade nos gramados (Foto: Diego Vara/Agência RBS)
Zé Roberto é sinônimo de longevidade nos gramados (Foto: Diego Vara/Agência RBS)

O lateral e ídolo flamenguista, Léo Moura, é outro desses bons exemplos. Por anos foi patrão da lateral rubro-negra e desde então, o Flamengo não achou um substituto a altura do moicano mais famoso do Brasil. Léo foi para os EUA e de lá foi para o Metropolitano, onde teve uma breve e fraca passagem, até chegar ao Santa Cruz. No Santinha Léo Moura foi um dos destaques justamente ao lado de outro veterano conhecido dos gramados brasileiros, Grafite. O centroavante que por sinal começou o Brasileirão arrebentando com os adversários e terminou como um dos artilheiros com 13 gols, atrás apenas de Pottker, Fred e Diego Souza, com 14 gols.

Emerson Sheik, já veterano na época do Corinthians foi decisivo na Libertadores. O Fenômeno, esse simplesmente indescritível, quando voltou ao Brasil para defender as cores do Alvinegro simplesmente mostrou o motivo de ser um dos maiores de todos os tempos. Mesmo com quase 100 kg, Ronaldo ainda era Ronaldo. Roberto Carlos com 36, 37 anos foi eleito melhor lateral esquerdo do Brasileirão de 2010, tanto pela Revista Placar quanto pelas demais premiações de época. É bem verdade que são casos de jogadores diferenciados e que também há aqueles que merecem as críticas, isso não pode ser deixado de lado, mas de tempos pra cá, os veteranos tem se mostrado cada vez melhores em suas condições físicas. É como a frase que jogadores como Ibrahimovic e Pirlo já usaram: “Sou como vinho, quanto mais velho, melhor”.

Isso resume tudo! Os dois craques do futebol europeu, ao lado de muitos outros são exemplos de que veteranos rendem sim e muito! O zagueiro da Juventus, Barzagli, que está prestes a completar 36 anos, provavelmente o menos conhecido dos que serão apresentados hoje, é outro que mostra que um atleta com certa idade ainda pode jogar em alto nível por um longo tempo. O defensor juventino é peça chave no esquema defensivo da equipe desde que se transferiu lá em 2011. Ao lado de Bonucci e Chiellini, o campeão do mundo de 2006 vem enchendo os olhos dos críticos com suas atuações e estabilidade, já que desde o penta da Juve, o jogador vem sendo escolhido para a seleção do ano no Italiano regularmente.

Aduriz, Emerson, Barzagli e Rivaldo, dentro das 4 linhas idade é somente um número qualquer (foto: arquivo pessoal)
Aduriz, Emerson, Barzagli e Rivaldo, dentro das 4 linhas idade é somente um número qualquer (foto: arquivo pessoal)

Ricardo Oliveira, nosso querido pastor e Renato, também nos mostram que idade não é barreira para nada, principalmente o segundo. O volante santista é sinônimo de regularidade. Em 2016 disputou simplesmente todas as 38 partidas do Brasileirão, sendo um dos destaques do Santos durante a competição nacional, além de suas boas atuações no Paulistão. Já o nosso querido pastor chegava em 2015 das Arábias, assim como Zé Roberto antes de sua passagem no Grêmio, motivos para desconfianças não faltavam. Afinal, jogar naquela região é praticamente pedir para encerrar a carreira, mas o camisa 9 provou que quem mais uma vez aproveitou o fato para criticar estava errado. O centroavante foi artilheiro do Brasil com incríveis 37 gols. Diria o poeta que esse foi um “cala boca críticos” maravilhoso. Dentre os 37, 11 gols foram no Paulista e 20 no Brasileiro, sendo o artilheiro das duas competições e ainda tendo tempo para ser o vice da Copa do Brasil com os 6 gols restantes. Em 2016 acabou sofrendo com lesões, mas terminou a temporada com 22 gols.

Atuações no Santos fizeram com que Ricardo Oliveira voltasse a se tornar um "selecionável", enquanto o volante se mostra dono da meia cancha santista (Foto: Ivan Storti/ Santos FC)
Atuações no Santos fizeram com que Ricardo Oliveira voltasse a se tornar um “selecionável”, enquanto o volante se mostra dono da meia cancha santista (Foto: Ivan Storti/ Santos FC)

Outros casos como o de Aritz Aduriz, que devido a grandes atuações pelo Bilbao, aos 35 anos conseguiu retornar para a seleção da Espanha e a “Daledependência” que o Internacional é vítima há quase uma década só demonstram o quão importante pode ser o papel de um veterano. O centroavante espanhol em seu primeiro toque na bola marcou contra a Itália. Era a segunda vez que vestia a camisa roja, não poderia ser melhor.  Já o colorado, que simplesmente se desfez de D’Alessandro por uma temporada pagou o preço. A direção via em Andrigo o substituto natural e devido às atuações no estadual, o meia teve destaque. Mas durou pouco. Quando a crise no Brasileirão de 2016 começou, não tinha D’Ale. Não tinha quem chamasse a responsa como o veterano argentino fazia. O clube pagou o preço.

Exemplos de longevidade como o interminável Magno Alves, 41, e o imortal Kazu Miura também nos mostram que idade é apenas um número, quando o que importa é a resposta dentro de campo. O magnata vem quebrando recordes por aqui, isso sem contar que é o terceiro maior artilheiro do planeta em atividade, atrás somente de Messi e Cristiano Ronaldo. Já o japonês, quebrou recordes que talvez só em outra vida sejam alcançados; primeiro Kazu bateu o recorde que já durava 52 anos de Stanley Matthews. O inglês detinha o posto de jogador mais velho a marcar um gol profissionalmente, feito que conquistou aos 50 anos e cinco dias. Já o ex-santista o ultrapassou ao balançar as redes aos 50 anos e 14 dias. Consequentemente Miura também quebrou o recorde de jogador mais velho a entrar em campo.

Se tratando de longevidade, Kazu Miura vem quebrando barreiras inalcançáveis (Foto: Toru Yamanaka/ AFP)
Se tratando de longevidade, Kazu Miura vem quebrando barreiras inalcançáveis (Foto: Toru Yamanaka/ AFP)

Mas escrever sobre veteranos e não citar o rei da grande área seria um erro imperdoável! O baixinho era e ainda é o cara. A história está ao lado dele. Em 2005, o eterno camisa 11 já estava com 39 anos, o que para os críticos poderia ser considerado um “velho caquético”, mas ainda assim ele nos mostrava que havia muita lenha para queimar. Faltando um mês para os 40, “Reimário” marcou 22 gols no Campeonato Brasileiro e se tornou o artilheiro mais velho da história do Brasileirão Na última partida, diante do Paraná, o atacante fez dois gols e ainda teve um anulado em impedimento mal marcado. Aos 41 anos, ele ainda marcaria seu gol 1000. Em tempos de outrora, se tratando de longevidade, dentro de campo ele também daria aula. Ensina, Romário!

https://www.youtube.com/watch?v=0i7OypciqbU

Já que a nossa cultura tende a exaltar o novo sempre, os considerados velhos têm mostrado que a desvalorização feita por nós é algo falho. O envelhecimento humano é, antes de tudo, um processo biológico, logo, natural e universal. O homem, como os outros animais, passa por um contínuo processo de desenvolvimento que o leva necessariamente à velhice, no futebol isso não muda, não teria como mudar. A vida de um atleta é realmente curta, é normal que quando o jogador chega a certa idade nós em geral criemos dúvidas, mas não se pode desmerecer ninguém. A idade é somente um número, o que vale é o que o veterano apresenta dentro de campo.

Fontes: globoesporte.comgloboesporte.com/rsgloboesporte.globo.com/spESPNtorcedores.com, esporteinterativo.com, superesportes.com

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