Walter Casagrande: Os altos e baixos do futebol político e roqueiro

Casão é a prova viva que o futebol já ouviu Rock and Roll.

O craque do Corinthians: Casão em grande forma (Foto: Uol Esporte/Reprodução)
Por: Lucas Poeiras – MG

O dia 15 de abril de 1963 mudaria para sempre a vida de dona Zilda e de Walter. Nascia seu filho, Walter Casagrande Júnior, um bebê saudável e forte. O bairro da Penha, em São Paulo, não seria mais o mesmo ao ver Waltinho crescer. Um garoto esguio com vasta cabeleira, fã de futebol e com vários amigos que ficavam perambulando pelas ruas. Os amigos e o garoto cresceram em meio a ditadura e a repressão política do Governo Militar, e isto influenciaria para sempre suas vidas.

Casagrande ingressou na base do Corinthians em 1980 já como atacante. O garoto Walter sonhava em ser jogador de futebol e sabia que precisava batalhar muito para isso. Sua estatura privilegiada e veia goleadora o fariam crescer muito no mundo esportivo. Contaremos aqui a histórica trajetória deste ícone do futebol. Um homem que passou por várias dramas pessoais com as drogas e sua família. Ainda sim foi um jogador vitorioso e conseguiu estabelecer uma vida esportiva após sua saída dos gramados. Este é Walter Casagrande.

O garoto da Penha

O garoto Walter Junior cresceu na Zona Leste da capital paulista e tinha muitos amigos por lá. O mais novo de três filhos nunca escondeu sua origem simples e o bairro da Penha é onde ele deixou sua marca. Viveu suas lembranças de uma adolescência tumultuada com direito a várias batidas da Polícia Militar. Walter Junior tinha um espírito de desafiar o perigo e a lógica. Seu jeito debochado e irreverente causava a ira de muita gente.

Seu primeiro contato com as drogas veio durante seus 15 anos. A famosa “esquina do pecado” era o ponto de encontro dos garotos da época. Na rua eles faziam suas resenhas com muito “green“, em episódios relatados em sua biografia. Certa vez passou por uma revista de polícia da época, que procurou e não encontrou nada para o flagrante. Após, Junior sacou um cigarro de papel e perguntou para o PM: “Tem fogo aí, moço?”. Sua característica de desafiar tudo seria sua marca ao longo de toda sua vida.

Profissional de futebol

Quando completou 18 anos em 1980, Walter conseguiu se profissionalizar e foi atuar pelo time principal do Timão. Sua entrada não foi boa e rapidamente foi emprestado à Caldense-MG. Ficou no clube mineiro por um ano e meio. Voltou para São Paulo para finalmente ingressar em um esquadrão que marcaria época no Estado, no Brasil e na história mundial do futebol: o time da Democracia, representando pelo Corinthians, através do movimento conhecido como Democracia Corinthiana.

O jovem Walter Jr. (Foto: Reprodução)
O jovem Walter Jr. (Foto: Reprodução)

Ao se juntar a figuras como Wladimir, Biro-Biro e Doutor Sócrates, o atacante viria a se destacar dentro e fora de campo. Entre as quatro linhas marcou época pelos fortes chutes e cabeçadas, fora delas foi um grande incentivador das eleições diretas e do fim do regime ditatorial militar brasileiro.  O Campeonato Paulista de 1983 foi conquistado por esta equipe que fez história, e Casão sagrou-se artilheiro e destaque da competição. O goleador jogou no time até 1986 e então fez sua primeira ida ao futebol internacional.

Casão teve em Portugal a sua primeira casa fora do Brasil. Apesar das poucas participações, devido a uma lesão no joelho, o craque jogou pelo Porto e fez parte de outro esquadrão histórico: os vencedores da Champions de 1986-87. Superados os problemas físicos, o atacante foi transferido para a então mais forte liga do mundo: o Campeonato Italiano.

Ingressou no Ascoli onde é considerado um dos maiores atacantes a vestir a camisa preta e branca da cidade de Ascoli Picchio. Fez ótimas temporadas entre 1987 e 1991 marcando quase 40 gols nesse tempo. Foi transferido para o Torino, onde teve a oportunidade de jogar em grande nível em competição européia.

O astro da Torino (Foto: reprodução)
O astro da Torino (Foto: reprodução)

A taça Euro de 1991-92 na época ainda era chamada Copa da UEFA, e contava com 64 participantes em cinco fases. Casagrande foi o grande protagonista da competição e ajudou o time de Turim bater o KR (Islândia), Boavista (Portugal), AEK (Grécia), B 1903 (Dinamarca) e o histórico jogo de 2 a 0 em cima do Real Madrid da Espanha.

A grande final foi disputada contra o poderoso Ajax de Amsterdam em dois jogos. O primeiro jogo em Turim uma partida de quatro gols e o brasileiro fez os gols do time italiano. A volta teve um gosto amargo em Amsterdam. Um empate sem gols sagrou o Ajax de Dennis Berkamp e do ainda garoto e reserva Van der Saar o campeão da taça.  O vídeo abaixo mostra os gols de Casão em seu dia inspirado em solo italiano.

O fim da carreira de atleta

Walter voltou ao Brasil após a bem sucedida ida à Europa. Acumulava na bagagem uma Champions, um vice da taça UEFA e uma Copa da Itália. Foi peça da seleção que disputou o mundial de 1986, sob o comando de Telê Santana, e carregava ainda a mística do atacante de veia goleadora. De contrato novo com o Flamengo, Casão trouxe bom futebol em sua rápida passagem em 1993. No ano seguinte voltou ao clube que o revelou e fez uma boa temporada mas os problemas com a lesão começaram a aparecer. Casão não era mais um garoto.

Mesmo com a boa passagem no Corinthians, Casagrande foi para outros clubes até encerrar a carreira no São Francisco da Bahia.

O drama pessoal: a luta contra as drogas

Quando discutimos a questão do abuso de drogas é necessário ter uma visão para além do conservadorismo. Ele desde jovem fazia uso de maconha  e em várias ocasiões, assumidamente, fez uso de outras substâncias. Não iremos discutir os méritos do que era ou quando era.

Walter conta em sua biografia como tentou preencher o vazio que o futebol deixou, e como é um sobrevivente na luta contra o vício. Sofreu overdoses e até internação compulsória no interior paulista, tudo para se endireitar e conseguir prosseguir. Contou sempre com a solidariedade de jogadores, músicos e jornalistas que mostravam sua simpatia e esperança.

O ex-jogador nunca tratou esta questão como tabu. Sempre conversou abertamente sobre tudo o que aconteceu em sua carreira e contou para todos em seu livro como foi seu processo de recuperação. Em suas diversas crises, uma é notória: o momento da morte do amigo Marcelo Frommer. O guitarrista dos Titãs foi atropelado na capital paulista. Casão conta descreve o momento como um sofrimento muito intenso que culminou em mais uma overdose tempos depois.

Comentários de Walter Casagrande, amigos! 

O seu carisma e a capacidade argumentativa impulsionaram o menino da Penha para a televisão. As análises e a amizade com os funcionários da Globo fizeram com que Walter ganhasse seu lugar. Um membro da Democracia Corinthiana, notório roqueiro e inconfundível talento, fez com que sua vida fora dos gramados andasse junto ao esporte. Sua parceria com Galvão Bueno e Arnaldo César Coelho fez grande sucesso nas noites de jogos da seleção brasileira.

O comentarista também sempre foi amigos de vários artistas e intelectuais. Se associou a diversas bandas de rock e nunca escondeu o gosto musical. Se houvesse a brincadeira de “pedir música” ele certamente iria prestigiar ícones do rock nacional como Titãs, Sepultura e outros.

O comentarista (foto: Globo Esporte/Reprodução)
O comentarista (foto: Globo Esporte/Reprodução)

O que credencia Casão a ser Gênio da Bola? 

Uma antítese dos jogadores sambistas, Casão trouxe um estilo de desafiar a vida e viveu como rockstar. Deu vários shows com camisas diferentes, se tornou ídolo em pelo menos três clubes que passou. Teve grandes vitórias mas também amargou dramas pessoais. É pai de três garotos: Saymon, Ugo e Victor.

Casagrande é parte dos Gênios da Bola não apenas por ter sido um craque. Ele sempre teve sua opinião e nunca foi conivente com as mazelas do Brasil. Nunca deixou de comentar os jogos e a política, pois sempre teve um lado militante. É um vencedor também por superar o vício e prova viva que até mesmo os mais afortunados podem sucumbir às drogas.

Walter Casagrande Júnior foi o mais roqueiro dos jogadores, venceu títulos importantes e influenciou para além das quatro linhas. Hoje com sua história também retratada pelas Cenas Lamentáveis, ele se junta a nossa coleção de atletas favoritos.

Fontes impressas: Casagrande e seus demônios – Gilvan Ribeiro & Walter Casagrande – Ed. Globo Livros – 2013. Fontes digitais: Veja, Uol, Globoplay, Uol Esporte

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