A Copa do Mundo do VAR

Na fase final da competição, 450 lances foram checados pelo VAR. A maioria, claro, no "silent check"

Por Samir Leão, TO

A Copa do Mundo 2018 foi o primeiro grande contato do VAR (Video Assistant Referee) com o público geral. Mesmo que o sistema estivesse em fase de aperfeiçoamento desde 2016, os testes aconteciam em eventos esporádicos e com pouca duração. Aprovado no dia 03 de março deste ano pela International Football  Association  Board (IFAB) – entidade que desenvolve as regras do futebol – o uso do Árbitro de Vídeo foi confirmado pela Fifa para o Mundial da Rússia poucas semanas depois.

Naturalmente, o VAR chegou ao torneio com mais questionamentos que respostas, contudo nada melhor que um teste da magnitude de uma Copa para sanar qualquer dúvida sobre o seu uso. A Fifa fez do Mundial seu laboratório mais exigente. Com presença garantida em todos os 64 jogos, a estrutura foi montada em cada um dos 12 estádios. Foram instaladas 33 câmera, oito delas destinadas a gravar em modo “super lento”, outras seis em “extra lento” e duas exclusivas para lances de impedimento.

Com a expectativa em volta da atuação do VAR durante a Copa, a Fifa tratou logo de deixar claro, que mesmo com esses recursos, a decisão final sobre qualquer uma dessas quatro ocasiões era sempre do árbitro que estava no gramado. Ou seja, mesmo que a central do Árbitro de Vídeo alertasse quem estava em campo para consultar o monitor, a autonomia para decidir continuava dentro das quatro linhas.

Na fase inicial da competição foram 17 decisões que precisaram ser revistas, e 14 delas foram alteradas. Engana-se quem pensa que o Árbitro de Vídeo foi usado apenas nessa quantidade. Uma partida de futebol gera informação o tempo inteiro, só a análise do agarra-agarra dentro da área já é suficiente para bater esses números. Por isso, os dados vão além e nos 48 jogos da primeira fase o VAR foi utilizado 335 vezes, média de 6,9 a cada partida.

Se os jogos tivessem parado esse tanto de vezes, a primeira fase ainda poderia estar em disputa. O que acontece, de acordo com o protocolo da Fifa, é uma “silent check”, ou checagem silenciosa. Isso quer dizer que inúmeros lances foram revisados pelo grupo de auxiliares reunidos no IBC, porém as partidas não precisaram ser interrompidas. É aqui que entram os dois lances da estreia da Seleção Brasileira contra a Suíça. O possível pênalti em cima de Gabriel Jesus e a falta em Miranda na hora do gol suíço. Mesmo que o árbitro mexicano Cesar Ramos nada tenha marcado, pois acreditou que não houve infração em nenhuma das duas jogadas, a checagem foi feita pelo Árbitro de Vídeo.

Na fase final da competição, o número de lances analisados pelo VAR passou dos 450. Com isso a quantidade de casos contestados entre os árbitros chegou a 20 e 17 deles acabaram alterados, inclusive um na grande decisão. São situações que poderiam passar despercebidas e o espetáculo acabaria prejudicado. Há quem critique o sistema e é válido, pois ainda precisa de ajustes. No geral, a atuação está sendo analisada como positiva. Erros, ou falta de atenção, foram corrigidos a tempo e a tendência é que o futebol ganhe com isso.

Ficou claro nessa Copa que o VAR traz ferramentas que podem ajudar na análise de uma jogada, porém não subtrai a interpretação. Seja para marcar algo ou deixar seguir, a tomada de decisão será baseada na convicção do árbitro.

A ideia que norteia a introdução do Árbitro de Vídeo é diminuir o número de erros, porém eles vão continuar a existir. A ideia não é transformar o futebol em algo chato por conta de novas regras que deixaram o jogo mais limpo.

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