A gangorra gaúcha

AS OSCILAÇÕES DE GRÊMIO E INTERNACIONAL

Montagem feita por Arthur Souza
Por Ricardo Santos, RS

Havia dois garotos brincando de gangorra, em um parque igualmente próximo às suas casas. Era década de 90, em alguma cidade da região metropolitana do Rio Grande do Sul. Um deles vestia vermelho. Já o outro, optava pelo azul. Colorado e gremista, daqueles de linhagem sanguínea, que passa de avô para pai, e de pai para filho.

Naquela época, como todo colorado nascido nos preocupantes anos 1990, o piá colorado não entendia o porquê daquela gangorra sempre travá-lo na parte inferior. Enquanto isso, o gremista, faceiro que só ele, via tudo de cima, com os pés pedalando os ares. E assim foi por muito tempo. A gangorra teimava em não mudar. O piá que vestia cores alvirrubras continuava a se questionar e a se zangar. “Como assim? Por que não sou eu na parte de cima? Lembro do meu pai falando que na década de 70 era diferente. Ele me contou de Falcão, Valdomiro e Mário Sérgio. Três Campeonatos Brasileiros em uma década – sendo um deles de forma invicta” – resmungava, de saco cheio.

O Internacional de 1979. (Foto: Reprodução na internet).

O piá tricolor, cujo azul de sua camisa aos olhos saltavam, deu risada. Pois o pai dele disse que essa fase não demorou muito. Logo vieram os anos 80, e um tal de Renato Portaluppi deu a conquista do mundo aos gremistas. A partir dali, a gangorra permanecia pendente sempre ao mesmo lado. O(s) colorado(s) não tinham sossego. O peso do tamanho do Grêmio resvalava até segurar o lado vermelho a rés do chão.

Os dois gols de Renato Gaúcho deram o mundo ao grêmio. (Foto: Arquivo/Revista Placar)

Anos depois, em um novo milênio, aqueles dois piás voltaram a se encontrar, na mesma praça. Desta vez, jovens e crescidos, com aqueles sinais da puberdade em seus rostos e corpos. Eles voltaram à gangorra e, para a surpresa do gremista, ela começou a virar. Com 2004, a oscilação do brinquedo foi a queda do Grêmio à segunda divisão. E, consequentemente, o Internacional começava a crescer. A primeira Libertadores da América. O Mundial Interclubes diante do Barcelona. Outra Libertadores. De repente, aquele mesmo guri colorado da década de 90, que não saía do chão, enxergava suas longas pernas suspensas no brinquedo. E todo o ambiente à sua volta, de cima. A gangorra virou.

Nos anos 2010, nossa atual década, eles voltaram a se encontrar, em frente àquela praça. Ambos, desta vez, acompanhados de pequenos agarrados às suas mãos. Seus filhos. Estranhamente o filho de um vestia a camisa de “Mbappé” do PSG, ao passe que o filho do outro vestia o azul cor de céu do Manchester City, com “De Bruyne” assinalado nas costas.

O gremista e o colorado olharam-se com uma sensação melancólica, praticamente desejando “pêsames” um ao outro. “Essa geração…” – disse um deles. Eles soltaram as crianças prontas a brincar de bola por ali mesmo, quando foram surpreendidos: a pracinha, a daquela velha gangorra, havia sido fechada. Os dois se encostaram na grade, pensativos. O gremista disse: “Tu sabe como ela estaria agora, né? O colorado respondeu: “É, eu sei. Mas ela há de virar…”.

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