A natureza rubra da Copa do Brasil

Por Ricardo Santos, RS

Tal qual o futebol, a natureza tem suas constantes e suas transformações. O que é constante quando se fala em partidas disputadas na Arena da Baixada é a estranheza que os visitantes têm com o gramado sintético. Ambiente hostil para quem não tem o costume de atuar neste terreno e, talvez, uma vantagem para quem chama esse habitat de lar. Cabe pontuar, contudo, que o gramado não impossibilitou um bom jogo no primeiro confronto. Independentemente das transformações da natureza, o futebol se manteve constante.

Clima de final é diferente. Ambiente, atmosfera e espaço. Todo o contexto é afetado pelo fervor que só o futebol pode proporcionar. Para quem é envolvido direto na disputa, a angústia toma conta. O ar parece ficar rarefeito, como se sente na altitude. É difícil respirar, engole-se a seco. Que seja fruto do nervosismo, espera-se, e não da crise ambiental que vive o país, com suas nuvens de fumaça. Algo que pode discordar o presidente Jair Bolsonaro, mas se posta inegável uma coisa, que não seria do agrado do capitão: na Copa do Brasil, a bandeira será, sim, vermelha. Não há como evitar, afinal, tratamos de dois clubes rubros em embate pelo triunfo derradeiro. O vermelho irá se juntar ao preto, se der Athlético; com o branco, se vitorioso for o alvirrubro Internacional.

O vermelho, ainda assim, é predominante na natureza desta final. Seja no entorno da Arena da Baixada que fez a festa com os sinalizadores, bem como sem dúvida serão as conhecidas “ruas de fogo” que brindarão o Beira-Rio. Seja no sangue de Cuesta, derramado em disputa aérea com Marco Rúben. Ou ainda na chama simbólica que ferve em cada torcedor entusiasmado com a final, que chega até os jogadores quando Uendel e Bruno Guimarães disputam com um carrinho a mesma bola. Soltam-se faíscas. O vermelho, o rubro, predominou. Menos nos cartões, em um jogo sem expulsões, para o bem do espetáculo.

O zagueiro Víctor Cuesta, antes da lesão que o fez atuar com uma faixa na cabeça. (Foto: Vinicios do Prado/@viniciusdnobre)

Espetáculo que Odair Hellmann e Tiago Nunes souberam proporcionar. Com seus estilos, com suas visões. Aqui não se tratará de um ser mais Kloppista, ou Simeonista. Deixamos as inspirações para outro plano. O aqui e agora é o confronto interessante de duas cabeças jovens, porém grisalhas, com muito a oferecer ainda ao futebol brasileiro – na primeira final de Copa do Brasil de ambos. Os grisalhos, verdadeiros lobos cinzentos da natureza futebolística, expuseram seus modos de ver o jogo com clareza. Tiago mostrou como seu time domina o seu território. A posse da bola chegou a ser de 76% com 20 minutos do primeiro tempo. Já Odair aposta na espera, na observação longínqua do adversário. O colorado decidiu deixar o Athlético ter a bola e optou por sofrer, saber sofrer, como se diz na linguagem do futebol. E o torcedor do Inter, claro, sofre junto. A zona delimitada por Tiago Nunes como sua propriedade, a sua meta, permaneceu sem ataques colorados por todo o primeiro capítulo das quatro partes que dividem a decisão.

A natureza também tem suas leis. E elas devem ser respeitadas. Cada criatura funciona no ambiente que lhe é confortável; seu habitat. E se tem algo que não respeita as leis da natureza é a forma como foi posto em campo Andrés D’alessandro. Um puma no Ártico, uma zebra no deserto, um pinguim na Floresta Amazônica. Essas são as metáforas para explicar o que acontece quando se coloca um dos mais consagrados meia-armadores a atuar no futebol brasileiro, como ponta-direita, correndo atrás de laterais. Márcio Azevedo, que não tinha muito a ver com isso, sobressaiu-se sobre o inimigo em zona perigosa.

Quem sabia muito bem onde pisava e tinha domínio de terreno era a joia Athleticana chamada Bruno Guimarães. Com o gol e mais uma grande atuação, segue chamando a atenção não só de sua tribo, como de outras além-mar – olheiros do Chelsea, da Inglaterra, estavam na Baixada para assistir ao garoto. E foi assim que o Inter cedeu à pressão. Sofreu o gol e poderia ter sofrido outro. Os ventos do furacão eram velozes demais. Em contra-ataque puxado pelo rápido Rony, Marcelo Lomba fez um verdadeiro milagre da natureza. Segurou um fenômeno climático com as mãos. Salvou o Inter da atrocidade do furacão, levando-o vivo para seu lar.

Destaque da partida e autor do gol, Bruno Guimarães segue em grande fase. (Foto: Vinicius do Prado/@viniciusdnobre)

O Athlético mostrou sua força nos primeiros 90 minutos. Em seu terreno, soube se impor ao Internacional e fazer um jogo seguro. 1×0 talvez seja até pouco para ilustrar o domínio obtido pelos paranaenses, o que pareceu não importunar Tiago Nunes, que deixou o time um pouco mais seguro ao final da partida. Ao Internacional, ao técnico Odair Hellmann, resta lamber as feridas e voltar à Porto Alegre. Na segurança de seu campo à beira do rio, o colorado fará de tudo para reverter as adversidades, e lidar com o furacão. Se há uma mão na taça para os athleticanos, quase 50 mil colorados farão de tudo para puxá-la, debruçando seu anseio por títulos na orelhuda do Brasil. E assim é a natureza, como sempre foi. Um irá se sagrar vitorioso e, o outro, irá amargurar o intempestivo segundo lugar; o quase, o “bater na trave”. Cumpram-se as leis da natureza.

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