Alfredo Jaconi: a alfabetização do futebol no interior

Por: Marcella Lorandi | RS

As ruas de paralelepípedo que cercam o Estádio Alfredo Jaconi já mostram aos locais e aos visitantes que o Juventude tem título de clube grande, com semblante caseiro de aconchego do interior. Chegando de qualquer canto de Caxias do Sul o clube verde e branco te espera imponente no bairro Jardim América, na Hércules Galló, 1.547.

O Juventude é grande. Divide o amor pelo futebol com o rival SER Caxias, na cidade de Caxias do Sul, na Serra Gaúcha.  E um dos seus maiores feitos na história está estampado dentro do estádio para todo mundo ver e se recordar: o Ju é Campeão da Copa do Brasil de 1999. O título veio sob o Botafogo perante um Maracanã lotado de alvinegros.  Lotado mesmo. Época em que o “Maraca” recebia 100 mil torcedores em grandes jogos. Um grande jogo, com um grande público (101.581 torcedores). O 2×1 no Jaconi, deu a vantagem de um empate retumbante no Rio de Janeiro aos gaúchos. O Ju voltou da Cidade Maravilhosa com um título novo para o interior na bagagem.

Jogadores comemoram o título da Copa do Brasil na casa do adversário. (Foto: reprodução/CBF)

 

Em dia de jogo não há vizinho que não se envolva com a partida, os mais antigos cevam cedo o chimarrão, colocam suas cadeiras nas ruas e aguardam com grandes expectativas o movimento que logo se inicia. Os bares, que em dias comuns recebem fãs fervorosos do carteado, o bom truco, em dia de Juventude carregam suas mesas de plástico às calçadas para que o clima do futebol e dos jogos de azar sejam um só. Há as senhoras do pastel, espetinhos com cortes de carne para todos os gostos, o típico gauchesco entrevero, os ambulantes oferecendo Polar latão 3 por R$10,00 e varais que ocupam ruas inteiras com camisas e bandeiras nos mais variados tons de verde e branco. E se o Juventude vai jogar, com certeza sua torcida vai entoar o cântico que transforma clube e estádio em alma: “vamo Jaconero, amigo vamo Jaconero…”

Torcida do Juventude fazendo a festa em seu estádio. (Foto: reprodução/Esporte Clube Juventude)

 

O Jaconi é fruto de uma gestão exemplar e foi inaugurado em março de 1975, seu nome homenageia Alfredo Jaconi, que desde a década de 30, jogou, foi treinador e também presidente do clube. Ele passou por todas as categorias e atuou até como massagista, chegou ao cargo máximo em 1946. Ele faleceu em 1952, quando se sentiu mal enquanto comemorava um título, sofreu uma queda e não sobreviveu. Alfredo Jaconi fez com que Caxias do Sul vivesse o seu maior e mais triste velório. A lenda alviverde que partiu depois de viver uma vida inteira pelo Juventude está eternizada no estádio juventudista.

O clube já soma mais de 100 anos de tradição, e desde sua fundação, em 1913, acumula grandes histórias para contar. Como se seu estádio falasse e estivesse pronto para lhe convidar a sentar em sua arquibancada de cimento e sentir tudo que ele já viveu. Os sons, os ruídos, a fúria e as vaias. Todos os cânticos que já empurraram o time. Toda a euforia de cada gol. A explosão dos títulos. A força das viradas. O alambrado estremecendo. E a torcida, o seu bem mais fiel, que ocupa as tribunas, as cadeiras, o camarote ou a bancada. O Jaconi é a alfabetização de um futebol em que torcer para o mesmo clube do pai e da avó é conhecer a vitória e flertar com o sofrimento.

Se o Jaconi falasse, com um sotaque típico da região, ele agradeceria ao presidente Willy Sanvitto, que deu início as obras e acompanhou cada passo.  Três anos foram necessários para que o estádio tomasse a forma que conhecemos hoje, a inauguração foi contra o Flamengo e 25 mil torcedores puderam prestigiar um empate em 0 a 0. A geração Jaconi vive o estádio e tem o estádio vivendo em si.

Presidente Willy Sanvitto na obra do estádio. (Foto: divulgação/Memorial Esporte Clube Juventude)

 

Se o Jaconi falasse, todas as suas grandes partidas estariam até hoje sendo ouvidas pela vizinhança. E não foram poucas. Atualmente o Ju disputa a Série C do Campeonato Brasileiro, mas já esteve na A e durante anos recebeu em sua casa ilustres visitas. Os maiores clubes do país jogaram por aqui, e renomados jogadores rolaram a bola no Jaconi. Felipão treinou o clube gaúcho, Thiago Silva,  PSG-FRA, vestiu verde e branco na temporada de 2004, e até Cafu, o capitão do Penta,  jogou no Ju em 1994. O clube, que já ergueu a taça de campeão da Série B do Campeonato Brasileiro em 1994, e foi Campeão Gaúcho em 1998, expõem seus feitos com orgulho em um museu todo em verde e branco. Os entusiastas mais fanáticos creem ser o maior verdão do país, e não há como discutir.

Se ele falasse, por vezes ele faria silêncio. E sempre que alguém entrasse em seu gramado, teria a visão importunada pela mais característica neblina da região, e, com o estádio vazio em uma ausência de som atípica, ouviria o canto dos Quero-quero que costumam habitar os campos do estado do Rio Grande do Sul, ouviria a mescla dos pássaros com o uivado de um vento gelado que corta seus visitantes desavisados e desacostumados nos dias frios de inverno na Serra Gaúcha.

A torcida do Juventude está impregnada em seu estádio, todos já deixaram algo por ali, seja as mais fervorosas invocações de fé, o suor no cimento desgastado ou o abraço no desconhecido ao lado. Todo mundo já deixou algo ali, ou já levou algo dali, e se não faz o menor sentido, então é isso que é ser torcedor de um clube do interior, é ser Juventude.

 

Fontes: Juventude, Jornal O Pioneiro 

 

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