Avenida: pode chamar de épico!

Tito comemorando o segundo gol. Foto: AI / Pâmela Lopes

Por: Marcella Lorandi | RS

Corinthians 4×2 Avenida. Essa narrativa você já conhece. O acaso caprichou no palco do espetáculo e a partida aconteceu na Arena Corinthians. Os espectadores compareceram e pouco mais de 20 mil corinthianos assistiram à segunda fase da Copa do Brasil no estádio. O banco de reservas visitante foi ocupado por uma cidade inteira vestida de verde, mas que nem de longe lembra o maior rival corinthiano. À esquerda de Carille, estava um clube de pouquíssima expressão do interior do estado do Rio Grande do Sul. Sobre o Corinthians todo mundo já sabe. Até religião já é: “Corinthianismo”, eles chamam. Mas o adversário, deixa eu te falar um pouco mais sobre o adversário. Está certo, eles mesmos já fizeram as honras na quarta-feira à noite, mas eu quero te apresentar o Esporte Clube Avenida, o Nida, para os mais íntimos.

Santa Cruz do Sul fica a mais ou menos 150 quilômetros de Porto Alegre, tem cerca de 130 mil habitantes e está localizada no centro do estado. Por lá o primeiro clube no coração do cidadão santa-cruzense é o Nida, depois, se sobrar tempo, dinheiro e disposição, talvez você encontre algum torcedor que também se diga gremista ou colorado dividindo gritos de incentivo entre um amor local, e uma paixãozinha da capital.

E essa foi a primeira vez que o Nida atravessou as fronteiras do Rio Grande do Sul para uma partida oficial, logo para o jogo mais importante da sua história. 19 de fevereiro de 2019 foi o embarque de uma delegação que carregou entre as malas e o chimarrão, todas as boas energias de uma cidade que respirou Copa do Brasil pela primeira vez em 75 anos. A expectativa foi bonita de se ver. Na banca de jornal todos queriam notícias do clube. As conversas na fila da padaria eram só sobre o Avenida. As lojas de material esportivo expunham com orgulho o verde que carregou o nome de Santa Cruz do Sul até a gigante São Paulo. E tudo isso bem antes da bola rolar.

A delegação chegou ao estádio e parecia um monte de meninos visitando um parque de diversões pela primeira vez. A frase “bem-vindo ao hospício” está estampada no vestiário visitante, e mal sabem eles o quanto o Avenida seria forte, aguerrido e bravo para enfrentar esses loucos. No reconhecimento do gramado, os olhos brilhavam e a câmera do celular não dava conta de registrar tamanha felicidade. Na Arena Corinthians, já pisou jogadores de Copa do Mundo, e naquela quarta, desfilou com classe e cabeça erguida um tal de Avenida.

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Com a proximidade das 21h45 da noite, os bares lotaram, as calçadas ganharam churrasqueiras improvisadas, e até o cavalinho do Fantástico, que passou de mão em mão entre as crianças, vestiu sua própria camisa do Avenida. Tudo isso para ver o time abrir 2×0, com Flávio Torres e Tito, antes dos 15 minutos do primeiro tempo, deixando a Fiel inteira estarrecida. Os narradores não conseguiam explicar um Avenida “faceiro” e um Corinthians assustado. Os torcedores, alheios à razão, já tinham certeza que não haveria clube no país que pudesse parar o Nida. Este seguiu bravo, tocou a bola, envolveu Fágner, o lateral da seleção brasileira, colocou uma bola na trave do goleiro Cássio e manteve sempre a mesma postura.

Nos minutos finais da partida, o país inteiro já torcia para o clube gaúcho. O verde do Avenida, que por coincidência também é o verde da esperança, foi traje obrigatório no dia seguinte à partida, na cidade de Santa Cruz do Sul. E se houvesse caminhões do Corpo de Bombeiros disponíveis, esse elenco seria recebido com tal pompa, afinal o interior não precisa só de uma taça para exibir. O interior tem a história para contar.

E haja história. Hoje o Nida fez dois gols. Hoje, quem sentar para jogar xadrez na principal praça da cidade vai ouvir sobre o jogo, quem nem de futebol gosta vai ter algo para contar. A vizinha conhece a mãe do técnico. A moça que trabalha na feira também conhece alguém que esteve em São Paulo na partida épica. Daqui a 10 anos, de boca em boca, a história seguirá viva, vezes aumentada, vezes verdadeira, e todo mundo vai lembrar que o Avenida deixou o bando de loucos em silêncio, pelo menos por 15 minutos. O Nida mostrou ao país que suas façanhas servem de modelo a toda Terra.

Ah, o jogo? O Corinthians virou.

 

Fonte: Jair Machado Júnior, O Bairrista

 

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