CL Entrevista: Isabelly Morais

A PRIMEIRA NARRADORA MINEIRA NA RÁDIO

Isabelly Moraes se tornou a primeira mulher a narrar um jogo da série B Foto: Daniel Hott/América-MG
Por: José Victor, RJ

Todo apaixonado por futebol já imaginou a possibilidade de trabalhar no meio, seja nos gramado ou fora dele. Durante muito tempo, a possibilidade de alcançar esse sonho tanto dentro quanto fora das quatro linhas foi restrita aos homens. Mas embora o futebol sempre reflita as características da nossa sociedade e continue sendo um esporte extremamente machista, as mulheres têm lutado muito para conquistarem espaço e aos poucos estão tendo a oportunidade de mostrarem talento também fora de campo. No começo de novembro, foi a vez de alcançarem um lugar na narração esportiva mineira e por que não, nacional.

Isabelly Morais, de apenas 20 anos, virou notícia em todo Brasil após um feito no qual podemos chamar de revolucionário. Ainda estudante de jornalismo na UFMG, assumiu a narração da Rádio Inconfidência no confronto entre América-MG X ABC se tornando a primeira mulher a narrar um jogo no rádio mineiro e na série B do Campeonato Brasileiro. A narração do gol do Coelho com a impactante frase “No fundo das redes do ABC”, sem dúvidas já entrou para a história do rádio esportivo nacional. Ao longo das últimas semanas, Isabelly Morais ainda narrou Bahia x Atlético MG, Cruzeiro x Avaí e a partida que deu o título ao América MG na série B contra o CRB, consolidando cada vez mais o seu espaço entre as narrações do futebol mineiro.

A jovem conversou com a CL e contou um pouco mais sobre a sua trajetória até os microfones, repercussão após a narração, as dificuldades enfrentadas pelas mulheres no jornalismo esportivo e seus planos para o futuro:

CL: Como você encarou a repercussão pré e pós-jogo quando anunciaram que você iria para o microfone?

Isabelly Morais: A repercussão pré-jogo ela se deu mais na própria terça-feira. Na segunda-feira à noite um amigo jornalista postou nas redes sociais que eu ia narrar e isso já tomou uma proporção grande na terça-feira. Assim, a repercussão me deixou um pouco nervosa. Na própria terça as pessoas dando parabéns pela coragem e me encorajando de narrar, desejando sorte e tudo mais, então a repercussão já foi um pouco surpreendente antes do jogo na própria terça-feira. Agora depois do jogo é algo que eu nunca imaginava, tenho recebido mensagens de pessoas de vários lugares do país e do mundo. Eu tenho recebido contatos de jornalistas, de pessoas da profissão, de alunos jornalismo, de mulheres que querem trabalhar com isso também. Ta tudo assim muito acelerado sabe? Eu estou muito surpresa com essa repercussão.

CL: Como aconteceu a saída do Vale do Jequitinhonha para Belo Horizonte e o percurso até chegar no rádio e na transmissão de partidas?

Isabelly Morais: Eu saí de Itamarandiba em agosto de 2015, eu cheguei em BH dia 19 de agosto de 2015 justamente para estudar. Minha saída foi muito difícil porque eu sempre fui um apoio muito grande para minha mãe, sempre fui uma pessoa muito próximo da minha mãe e das minhas irmãs. Aí deixar Itamarandiba só com 17 anos e deixar a família, deixar sua casa, deixar tudo para trás é um processo muito doloroso e muito difícil, mas foi um processo necessário porque eu não lá não tinha como estudar jornalismo na minha cidade. Se foi complicado? Foi! Mas foi necessário. Cheguei de Belo Horizonte para estudar jornalismo, já tinha passado na federal e aí comecei a estudar, depois eu comecei a trabalhar na assessoria de comunicação dentro da minha universidade, um mês depois comecei escrever no Portal Vavel Brasil e fui nos dois paralelos até chegar à metade deste ano que eu saí da assessoria da universidade e fui para a Rádio Inconfidência mantendo aí o meu vínculo com Vavel Brasil que é o portal onde eu escrevo.

CL: Sempre foi seu sonho ser narradora esportiva ou foi uma oportunidade que apareceu e você abraçou?

Isabelly Morais: Na verdade foi uma oportunidade que apareceu e eu abracei. A oportunidade veio do meu chefe José Augusto Toscano, ele perguntou se eu toparia narrar e ainda quando eu pedi estágio, eu disse que toparia aprender e essa oportunidade apareceu e ele me colocou para narrar.

CL: Quais suas maiores referências na narração esportiva?

Isabelly Morais: Não sei se tenho uma referência específica, mas um que eu gosto muito é o Osvaldo Reis Pequetito. Ele é da Rádio Super aqui de BH, tava na Rádio Globo, e já passou pela Inconfidência, inclusive. Ele coloca muita emoção nos gols dele, eu acho que é o que me encanta na narração.

CL:  Qual narração de gol ou lance marcante mais te impactou? Tem algum que você guarda com carinho e gostaria de ter narrado?

Isabelly Morais: Houve duas que impactaram muito. Uma foi a narração do Pequetito no gol do Nilton contra o Botafogo pela vigésima segunda rodada brasileirão 2013. O Cruzeiro era o líder, o Botafogo vice líder do brasileiro com 4 pontos de diferença, ou seja, era um confronto diretíssimo na 22° rodada do campeonato quando os times se enfrentaram no Mineirão, e o Nilton fez um gol no finalzinho do primeiro tempo. Ele pegou uma bola de voleio e fez 1×0 para o Cruzeiro. Outra narração que adorei do Pequetito foi a defesa do Victor no pênalti do Riascos na Libertadores 2013. Foi nas quartas de final no Independência e estava 1×1, aí o Riascos foi cobrar o pênalti no finalzinho do jogo a favor do Tijuana do México e aí o Victor defendeu com a perna,  foi uma classificação emblemática e a  narração do Pequetito na defesa do Victor foi super emocionante.

 

CL: Muitos comentários positivos ressaltam a emoção que você passou transmitindo durante o momento dos gols do Coelho. O grande poeta Eduardo Galeano disse que “O gol é o orgasmo do futebol.” Você acha que é possível transmitir a mesma emoção para os torcedores dos diferentes clubes mineiros da mesma forma?

Isabelly Morais: Eu acho que sim! Porque se eu me dedicar para narração, eu preciso ter essa maturidade de compreender o quanto o profissionalismo dentro dessa área é fundamental. Como já disse em outra oportunidade quando me perguntaram sobre isso: Eu quero narrar para torcedor de futebol sabe? Sem distinção. Então quando eu estiver narrando gol do Cruzeiro, quero passar minha emoção para o torcedor cruzeirense, idem para Galo, para os torcedores do América-MG ou para qualquer outro time. Então eu acho que eu preciso é ter maturidade e essa consciência de que o torcedor tá me ouvindo ele precisa ouvir com emoção a minha narração. Então é super possível transmitir com a mesma emoção.

CL: Como você lida com os críticos?

Isabelly Morais: Olha, eu sou muito tranquila para reagir a muitas críticas mais pesadas sabe? Acho que eu consigo ponderar bem o que é bom para mim, o que não é. Então nesse processo todo onde eu tô sendo bombardeada com mensagens legais e ao mesmo tempo recebo mensagens com críticas. Eu tô tentando me situar e pegar para mim o que é bom para o meu crescimento e deixar um pouquinho de lado que o que vem de pessoas que não querem meu bem.

CL: Sabemos que infelizmente o futebol ainda é um ambiente muito machista, você já foi vítima de preconceito por ser mulher e trabalhar com futebol?

Isabelly Morais: Sim. Foram situações onde me viram primeiramente como uma mulher e depois como uma jornalista sabe? Foram situações que até me surpreenderam um pouco, não foram situações com torcedores, foram situações com pessoas o meio do futebol, não necessariamente de jornalistas, mas pessoas do meio do futebol e que me viram primeiramente como uma mulher. E eu não quero ser visto como uma mulher antes de ser vista como profissional. Pelo contrário, eu quero ser vista primeiramente como uma jornalista.

CL: Como você enxerga a possibilidade de equipes exclusivamente composta por mulheres realizando transmissões esportivas? Você se considera vanguarda e acha que com a sua presença será comum ter cada vez mais mulheres na narração esportiva?

Isabelly Morais: Há possibilidade real. Inclusive dentro da rádio Inconfidência isso pode acontecer. A gente levantou essa possibilidade e pode ser que aconteça em breve uma transmissão totalmente feita por mulheres, o que seria incrível né! Acho que a Rádio Inconfidência continuaria quebrando barreiras. Quanto vanguarda, eu acho que sim! Não totalmente, pois outras mulheres já narraram. Já teve a Luciana do Valle, teve a Rádio Mulher no século passado, teve uma mulher narrando jogo da Copa do Mundo… Mas no meu Estado sim, então me considero. E eu espero muito que a minha presença na narração abra caminhos para outras mulheres. Eu recebi mensagens de mulheres que disseram que a minha narração reacendeu nela a paixão pelo jornalismo esportivo. Espero que muitas mulheres possam se encorajar a partir da minha coragem! Acho que é isso que a mensagem que eu deixo. Que as mulheres se movam também, possam se levantar e buscar aquilo que elas sonham.

CL: Você tem apenas 20 anos e já escreveu seu nome na história do rádio. Quais os próximos planos que você possui para a sua carreira?

Isabelly Morais: Assim, me surpreende um pouco né. Eu graças a Deus já passei por muitas situações bacanas, tive muitas oportunidades com apenas 20 anos que eu fiz no mês passado! É realmente uma experiência muito incrível! Meus próximos planos são continuar muito focada e dedicada ao jornalismo esportivo. Eu lido com esporte todos os dias e todas as noites e acho que agora é continuar muito dedicada a tudo que eu me propus quando decidi sair de Itamarandiba. Eu propus a mim mesma que eu ia me dedicar muito, que eu ia me esforçar muito pelo jornalismo esportivo, como eu tenho feito. Acho que agora seguindo esse caminho, preciso estudar mais a narração, estudar a minha própria narração recebendo conselhos bons, críticas boas e tentar aperfeiçoar. Mas claro, sem deixar de realizar minhas outras funções dentro da Rádio Inconfidência, porque eu também espero continuar comentando, reportando como eu já fazia antes.

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