CL na Copa: A anfitriã Rússia começa os trabalhos

Por Diego Giandomenico

Ser anfitrião tem suas vantagens. Jogar com o apoio da torcida, ter sua vaga garantida e ter clima todo ao seu favor são alguns dos atrativos que envolvem a equipe. No geral, os anfitriões acabam se saindo muito bem em competições em casa. Em 1994 os EUA passaram para as oitavas de final, em 98 a França venceu, em 2002 Japão passou para a segunda fase e Coreia do Sul chegou às semifinais, 2006 Alemanha parou na semifinal e em 2014 o Brasil chegou entre os quatro melhores, mesmo que a sensação tenha sido de total vergonha. Perceberam que eu pulei um ano? Pois então, a África do Sul é o único país que não passou de fase sendo anfitrião. A campanha não foi ruim, mas acabou perdendo para o México no saldo de gols e dando adeus à competição.

A convocação

A missão russa não é simples, apesar do seu grupo parecer mais fácil do que de outros cabeça-de-chave, o selecionado soviético terá que mostrar muito mais futebol do que vem apresentando no momento.

Na Copa das Confederações não chegou a fazer feio, mas foi presa fácil frente a México e Portugal, conseguindo ganhar apenas da fraca Nova Zelândia. O técnico Stanislav Tchertchesov acaba optando sempre por jogadores da sua terra natal e se antes víamos jogadores como Arshavin, Zhirkov, Smertin, Pavlyuchenko e outros serem reconhecidos fora do seu país, hoje é artigo de luxo ter um russo atuando fora do campeonato local. Os convocados finais são:

Goleiros: Akinfeev (CSKA Moscou), Vladimir Gabulov (Brugge) e Lunev (Zenit);

Defensores: Granat e Kudryashov (Rubin Kazan), Kutepov (Spartak Moscou), Sergey Ignashevich (CSKA Moscou), Semenov (Terek Grozny), Smolnikov (Zenit) e Mário Fernandes (CSKA Moscou);

Meio-campistas: Gazinsky (Kuban Krasnodar), Golovin e Dzagoev (CSKA Moscou), Erokhin, Zhirkov e Kuziyev (Zenit), Zobnin e Samedov (Spartak Moscou) e Cheryshev (Villarreal);

Atacantes: Dzyuba (Arsenal Tula), Miranchuk (Lokomotiv Moscou), Smolov (Kuban Krasnodar), Chalov (CSKA Moscou).

Se você prestou bem atenção, encontrou um ou outro jogador que atua fora da Mãe Pátria. Os escolhidos do exílio são o goleiro Vladimir Gabulov, que atua na Bélgica,  o teuto-ucraniano Roman Neustädter, que atua na Turquia e o meio-campista Denis Cheryshev, ex-Real Madrid que atua no também espanhol Villarreal.

O time

Dentre os jogadores russos, o nome mais conhecido por aqui é do goleiro Akinfeev. Já teve seus tempos mais gloriosos, mas ultimamente tem sido conhecido mais pela inconsistência e falhas do que pelo seu bom desempenho. Aliás, isso mostra como a “geração russa” não vem bem debaixo dos três paus. Se Akinfeev tem mais de 100 jogos pela seleção, os outros 3 goleiros que disputam as duas vagas restantes tem apenas 11 jogos combinados. São os goleiros dos principais time da Rússia: Lunev (Zenit) tem 3 jogos pela seleção e parece ser o reserva imediato.  Gabulov é um experientíssimo arqueiro que fez sua história no Dínamo Moscou e hoje defende o Club Brugge. O brasileiro naturalizado russo Guilherme jogador do Lokomotiv Moscou acabou perdendo espaço na preferência de Cherchesov e ficou de fora da pré-lista.

Porém na zaga temos talvez o principal jogador da Rússia no momento que vem direto de solo brasileiro. O nome dele é Mário Fernandes. Incrível pensar que nessa discussão que temos aqui no Brasil sobre a lateral-direita, talvez fosse mais fácil termos uma opção se Mário Fernandes não tivesse negado jogar por aqui. O fato é que ele hoje é o jogador mais valioso da Rússia e uma das principais armas para tentar dar um pouco de balanço para o setor defensivo russo, No centro de zaga temos o eterno Ignashevich, um dos três remanescentes da campanha de 2008. O zagueiro de 38 anos que estreou em 2002 na seleção e já possui mais de 500 jogos pelo CSKA Moscou, tem a missão de levar o selecionado russo a uma campanha digna.

O problema da defesa russa é a idade. Samedov (29) e Granat (30) são as possíveis escolhas de Cherchesov, que chamou Ilya Kutepov (24) para ser uma opção de renovação.

Já no meio campo temos a eterna promessa Alan Dzagoev. O meia de 27 anos já será mais o novo Arshavin, como bem podemos perceber, mas é dele que passa o pouco de criatividade dos russos no comando de ataque. Dzagoev possui bons números para um meia com 74 gols e 88 assistências em seus pouco mais de 300 jogos pelo CSKA Moscou. Falta repetir essa boa performance nos jogos da seleção, já que são apenas 9 gols em 55 jogos. Outro jogador que pode ajudar a carregar o piano no meio é o experiente Zhirkov. O jogador que se apresentou ao mundo em 2008 como lateral-esquerdo, acabou indo para o meio com o passar dos anos. Mesmo que talvez não seja tão utilizado, ainda é um dos poucos que tiveram experiência internacional, o que em grandes jogos é importante.

Para contrastar a experiência de Zhirkov, temos a juventude de Miranchuk. Revelado na base do Lokomotiv Moscou, o jovem de 22 anos foi emprestado ao Levadia da Estônia aos 19 anos e fez um sucesso grande por lá, sendo trazido ao clube russo novamente no outro ano. Depois disso foi utilizado em 29 dos 30 jogos do Lokomotiv deste ano e ganhou chance do Cherchesov e agora tem grandes chances de fazer sucesso em casa. Outro jovem que promete ser o centro das atenções do selecionado russo é Aleksandr Golovin, com apenas 21 anos já acumula mais de 100 jogos com a camisa do CSKA Moscou, tendo sido convocado com apenas 18 anos ainda quando a Rússia tinha Fábio Capello no comando.

Já no comando de ataque, uma das principais peças do time não está num grande clube russo. O nome dele é Artem Dzyuba. Ele fez 8 gols em 8 jogos nas eliminatórias para a Eurocopa de 2016, o jogador do modesto Arsenal Tula. Na verdade ele acabou sendo emprestado pelo Zenit pois estava rendendo muito pouco no ataque da equipe de São Petersburgo. Resultado? Dzyuba jogou contra o Zenit e anotou o gol que tirou o clube da disputa da taça. Aos poucos ele recuperou o bom futebol de antes e garantiu seu nome. Também terão Smolov com 15 gols e 6 assistências, seguido pelo próprio Dzyuba com 8 gols e 4 assistências, Fedor Chalov, de 20 anos apenas, com 6 gols e 5 assistências.

O treinador    

A campanha russa em 2014 não foi das melhores. Num grupo relativamente equilibrado, a Rússia viu sua vaga para as oitavas de final ruir diante da boa Argélia. Mesmo não conseguindo um resultado satisfatório, Fabio Capello se manteve no cargo no que parecia um projeto duradouro que levaria o selecionado russo para a glória em sua casa. Porém o sonho acabou em julho de 2015 e o treinador que já dirigiu equipes como Juventus e Real Madrid, teve que se contentar com a demissão.

Após Fábio Capello, a Federação Russa procurou alguém da casa e assim surgiu o nome de Leonid Slutsky, que seria o responsável por mostrar ao mundo a seleção russa na Eurocopa de 2016. Mas o que o mundo viu não foi nada bonito, já que a Rússia arrancou um empate no último minuto com a Inglaterra, perdeu para a Eslováquia e tomou uma sarrafada do País de Gales.

Isso levou a demissão de Slustsky e coube a Stanislav Cherchesov levar a Rússia a uma campanha digna na Copa do Mundo.

Cherchesov participou da primeira Copa do Mundo da Rússia como nação depois da dissolução da União Soviética em 1994. Seu currículo não é o dos mais impressionantes, antes da passagem pela Rússia, Cherchesov passou por Spartak Moscou, Terek Grozny, Amkar Perm, Dínamo de Moscou e por último estava no Legia Varsóvia, da Polônia.

Com 54 anos de idade, o ex-goleiro foi escolhido para renovar a seleção e ao mesmo tempo fazer uma participação minimamente decente. Ele trouxe alguns novos nomes como Anton Miranchuk e Golovin para tentar trazer algo diferente. O retrospecto até o momento é o seguinte: 5 vitórias, 5 empates e 8 derrotas. Dentre as vitórias, Coreia do Sul e Gana talvez sejam as mais expressivas. Um empate que chamou a atenção foi contra a Argentina no final do ano passado, por 3 a 3. Neste ano foram dois amistosos e duas derrotas contra Brasil e França.   

O histórico

A Rússia como nação independente tem apenas as participações de 1994, 2002 e 2014. Já como nação soviética, foram 7 participações. O melhor resultado foi em 1966, quando chegou até a semifinal. Passando por um grupo que tinha Itália, Chile e Coreia do Norte, os soviéticos bateram a Hungria nas quartas de final, até caírem para a Alemanha Ocidental. Na disputa de terceiro lugar, acabaram sucumbindo diante de Portugal de Eusébio.

Já as participações recentes não foram lá muito brilhantes. Em 1994 a Rússia caiu na fase de grupos perdendo para o Brasil por 2 a 0, para a Suécia por 3 a 1, mas venceram Camarões por 6 a 1, com 5 gols de Oleg Salenko. Insuficiente para passar de fase.

Em 2002 conseguiram vencer por 2 a 0 Tunísia, mas perderam para o Japão por 1 a 0 e decidiram a segunda vaga para a próxima fase contra a Bélgica. Neste jogo Walen, Sonck e Wilmots fizeram os gols Belgas derrubaram a Rússia.

Em 2014, uma preparação para 2018, o selecionado de Fabio Capello empatou com Coreia e Argélia, mas caiu para a Bélgica novamente.

O grupo

O sorteio poderia ter sido bem cruel com os russos. Pegar uma combinação com Espanha, Egito e Japão talvez fosse pior. Mas os deuses do futebol sorriram para a Rússia e eles pegaram um grupo mais acessível em teoria.

Uruguai e Egito têm seus pontos fortes, mas são adversários “enfrentáveis” e a estreia contra a Arábia Saudita tende a deixar a situação mais tranquila para um início que poderia ser nervoso. Tudo vai depender de como essas seleções vão chegar à Copa. Egito vem com Mohamed Salah em grande forma, Uruguai tem Suárez, Cavani e cia, são os favoritos, mas com um pouco de bom aliado à sorte, pode ser que vejamos a seleção russa avançando de fase.

Já atingir a expectativa da Federação que é de chegar às semifinais, parece ser algo bem inalcançável.

E aí, o que você acha que acontecerá com a Rússia?

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