CL na Copa: Argentina, 25 anos sem títulos e ainda é a terra do verdadeiro amor pelo futebol

Os argentinos e seu verdadeiro amor pelo futebol (Stefano Rellandini/ Reuters)
Por Carlos Garcia, SP

Terra da boa carne, do bife de chorizo, do bom turismo, de Puerto Madero, do Caminito, de Buenos Aires querida, de Juan Manuel Fangio, a Argentina é também a terra do carrinho, da cotovelada, da mais pura catimba, de Boca, River, Independiente e também do mais puro amor pelo futebol. O argentino gosta tanto de futebol que muitos na Europa acreditam que a capital do Brasil, o chamado país do futebol, é Buenos Aires. Acredite, esses caras amam o futebol como ninguém.

Mas esta terra abençoada chamada Argentina não vive apenas da melhor picanha do mundo, de Valeria Mazza, Julieta Prandi e de caos com sua seleção. “La mano de Dios” fez com que por lá nascessem Di Stefano, Maradona e Lionel Messi, os três maiores craques da história daquele país e que certamente ocupam o quadro de honra do futebol mundial. E o melhor de tudo é que um deles ainda está em atividade, brilhando pelo Barcelona e é presença garantida na Copa da Rússia.

E não apenas Messi embala a Argentina em 2018. O histórico recente também anima, afinal los hermanos trazem na bagagem o vice-campeonato mundial, após derrota por 1×0 para a Alemanha no Maracanã em jogo que você certamente lembra. Você e Gonzalo Higuaín, de tantos gols perdidos naquele dia. Alguns nomes, como Dybala, Romero e Messi, empolgam o torcedor argentino, que deposita neles as suas esperanças. E para por aí, pois não dá para deixar de citar que a fase não é muito boa e que o otimismo anda em falta por lá. Além disso muitas lesões assombraram a equipe de Sampaoli, que teve de apostar em jogadores versáteis em sua lista final.

E é nessa hora que sobe o tango triste, pois essa Argentina de tanta história e dois títulos mundiais, encontra na história recente de sua seleção uma verdadeira tragédia. Desde 1986, quando conquistou sua última Copa, a seleção conquistou apenas mais três minguados títulos: a Copa América de 1991, a Copa das Confederações de 1992 e a Copa América de 1993. Se por um lado os 3 anos seguidos levantando taças mostravam um futuro promissor para aquela geração, de lá pra cá eles não conquistaram mais nem um titulozinho sequer. Lá se vão 25 anos de seca, na mais pura prova de que “la misma mano de Diós que les da, es la misma mano de Dios que les saca”.

CONFIANÇA ABALADA

A classificação para a Copa é um dos sinais desse desespero todo. Ela veio apenas na última rodada contra o Equador, contra a altitude de Quito e contra a torcida de metade do continente. Uma derrota tiraria a Argentina da Copa, mas 3 gols de Messi selaram o terceiro lugar e empurraram Peru para a repescagem e o Chile fora do mundial. Inclusive, tirar os chilenos da Copa teve um gosto doce para os argentinos, já que a derrota nos pênaltis na final da Copa América de 2016 foi um dos fatores que agravou a crise pelo qual os argentinos passam até hoje. Isso porque já haviam perdido para os mesmos chilenos a final de 2015 também.

A convocação é outro sinal de que as coisas não vão muito bem para nossos ilustres vizinhos. Outrora conhecida pelo seu bem postado sistema defensivo, dessa vez a seleção apresenta problemas exatamente nesse setor. Embora conte com bons defensores, o técnico Jorge Sampaoli, que leva seu estilo ofensivo e de posse de bola para sua segunda Copa seguida – ele treinou exatamente o Chile em 2014, tem problemas para acertar taticamente o time que herdou de Edgardo Bauza e Tata Martino.

Mas nada supera a crise na AFA, a Associação de Futebol da Argentina. Em 2016, quando faltava apenas uma semana para a estreia na Copa América, o presidente da república Maurício Macri, que curiosamente também é ex-presidente do Boca Juniors, coordenou uma intervenção na entidade, que passou a responder ao governo federal, que por sua vez suspendeu as eleições previstas para acontecer em 90 dias. A alegação era de que graves irregularidades administrativas ameaçavam o futebol do país. O caso inclusive chegou até a FIFA, que proíbe que os governos se envolvam nas entidades futebolísticas, e por muito pouco a AFA não foi suspensa pelo órgão máximo do futebol.

O ápice dessa crise foi exatamente a derrota da Argentina na final da Copa América de 2016 para o Chile. A derrota veio nos pênaltis, quando nem Messi se salvou das críticas após desperdiçar uma cobrança. Naquele domingo a Argentina perdeu o técnico Tata Martino e viu seu maior craque anunciar que não jogaria mais pela seleção de seu país. A verdade é que o dinheiro secou, a crise surgiu, a seleção se viu ameaçada, mas Messi voltou e no fim das contas eles estão lá mais uma vez. E quando a Argentina está numa Copa todo mundo fica de olho.

O PESO DA CAMISA

Mario Kempes marca contra a Holanda na final da Copa de 1978 (Getty Images)

Mas é preciso ter sempre muita calma para falar de Argentina. Devido a sua gloriosa história, o avião que os levará até a Rússia corre o risco de sofrer com excesso de bagagem, afinal estamos falando de uma seleção que carrega consigo o peso de dois títulos mundiais (1878 e 1986) e três vices (1930, 1990 e 2014), além de quatorze títulos de Copa América, uma Copa das Confederações e ainda duas medalhas de ouro em Olimpíadas consecutivas (2004 e 2008).

O primeiro título veio em casa. Sob a sombra de uma pesada e cruel ditadura militar, comandada pelo general Jorge Rafael Videla, os argentinos encontraram mais uma vez no futebol um motivo para esquecer as dificuldades. E mesmo com momentos controversos, como a vitória sobre o Peru por 6×0, que eliminou a seleção brasileira, os argentinos mostraram bom futebol dentro de campo e entraram de vez no mapa do futebol mundial, embora já gozassem de inquestionável respeito. O título veio após empate por 1×1 contra a Holanda no tempo normal e um 2×0 na prorrogação. Foi também a Copa de Mario Kempes, que deixou sua marca duas vezes na final e tem seu nome lembrado com carinho pelos argentinos até os dias de hoje.

“La Mano de Dios” de Maradona ajuda a decidir contra a Inglaterra em 1986 (Getty Images)

Em 1986 os argentinos conquistaram no México sua segunda Copa. Liderados por Diego Maradona, dessa vez os argentinos não deixam nenhuma margem para contestações. Ou quase nenhuma, já que o gol de Maradona contra a Inglaterra, a já citada “la mano de Dios”, pode ser considerada um dos momentos chave do mundial. De qualquer forma foi contra a mesma Inglaterra que Maradona driblou o time rival inteiro marcando um dos mais bonitos gols da história das Copas, em um 2×1 inesquecível contra um rival que extrapolava as quatro linhas devido a um conflito recente entre os dois países envolvendo as Ilhas Malvinas.

Na final a Argentina venceu a Alemanha Ocidental por 3×2, gerando um histórico pesado de vingança nos mundiais seguintes, já que foram derrotados pelos alemães na final de 1990 e também nas copas de 2006, 2010 e 2014, esta última mais uma vez na final. Já se somam assim, cinco confrontos entre Argentina e Alemanha, o mais repetido da história das Copas.

A Argentina ficou fora da Copa em apenas quatro ocasiões, sendo que, quando classificada, foi eliminada na primeira fase apenas uma vez, na Copa do Japão e da Coreia. Foi o pior momento dos nossos vizinhos em Copa do Mundo. Outro dado curioso é que nas cinco vezes em que chegaram às semi-finais eles nunca perderam. Ao longo das Copas do Mundo os argentinos ainda ostentam vitórias contra alguns de seus principais rivais, como o Uruguai, a Inglaterra e o Brasil, que foi eliminado pelos irmãos em 1978 e 1990, no famoso gol de Cannigia. É preciso respeitar muito esses caras.

A CAMPANHA PARA A RÚSSIA

Jorge Sampaoli observa a equipe em sua estreia contra o Uruguai fora de casa (Goal.com)

A crise na AFA, que culminou, entre outras coisas, na utilização de três técnicos diferentes, atrapalhou um pouco as coisas para os argentinos nas eliminatórias para a Copa da Rússia. Como citado anteriormente, a classificação veio apenas na última rodada com os três gols de Messi contra o Equador. Mas ninguém chega à última rodada sem vaga garantida para uma Copa do Mundo sem ter tropeçado bastante pelo caminho.

Tata Martino, Edgardo Bauza e Jorge Sampaoli, os três comandantes argentinos na competição, enfrentaram momentos complicados, derrotas amargas e uma chuva de críticas.

Martino havia fracassado no Barcelona, não deu padrão tático para a Argentina, perdeu duas finais de Copa América para o Chile e não conseguiu controlar um elenco cheio de qualidades, culminando na renúncia de Messi à camisa da seleção após a segunda derrota para os chilenos.

Já Edgardo Bauza deixou o São Paulo Futebol Clube após levar o clube à semi-final da Libertadores e surpreendeu o mundo ao assumir a seleção de seu país. E faltando apenas quatro rodadas para o fim das eliminatórias, Patón não suportou a pressão e o sério risco de ser eliminado da Copa e foi demitido, afinal a Argentina ocupava apenas a quinta posição na tabela.

Já Sampaoli teve apenas quatro jogos para colocar a Argentina na Copa. Ele assumiu na quinta posição e logo de cara empatou com o Uruguai fora de casa (0x0), com a Venezuela em casa (1×1) e com o Peru fora (0x0). O desespero já havia tomado conta quando ele venceu o Equador por 3×1 e se garantiu na Rússia.

Os piores resultados da Argentina nas eliminatórias foram as derrotas para Brasil (3×0) e para a Bolívia (2×0), para o Equador em casa (1×0) e também os empates com a Venezuela fora (2×2) e em casa (1×1). Nos amistosos o futebol apresentado pelos argentinos também não vem agradando, com destaque para a goleada sofrida contra a Espanha por 6×1, igualando as piores derrotas da história do futebol argentino, que já havia perdido pelo mesmo placar para a Bolívia em 2009 e para a Tchecoslováquia na Copa de 1958, na Suécia.

Messi e Lavenzi não disputaram o jogo contra a Espanha por falta de condições físicas, outro alerta que deve ser aceso na preparação para o mundial.

O FATOR MESSI

Não é querer jogar toda a responsabilidade nas costas de apenas um jogador, mas estamos aqui falando de um dos três maiores jogadores da história do futebol argentino e um dos maiores do mundo. Messi não resolve sozinho, mas ao mesmo tempo que sua ausência dificulta muito as coisas, sua presença enche seus companheiros de confiança. É para ele que se toca a bola quando as coisas estão difíceis e é “La Pulga” que pode resolver sozinho em um momento de aperto. Todos querem Messi em campo.

Lionel Messi, o cara que pode desequilibrar tudo (AFP PHOTO / Kirill KUDRYAVTSEV)

Junto a ele há um grupo de excelentes jogadores – diferente, por exemplo, do que vive Cristiano Ronaldo em sua seleção – que dão um pouco mais de si quando Messi está em campo impondo medo em seus adversários, atraindo a marcação e disposto a pensar sempre à frente. É Messi que joga quietinho, é discreto na seleção, mas que também foi o melhor jogador do mundial 2014 e que carimbou o passaporte para a Rússia 2018. Esqueçam o resto, o fator que desequilibra a favor da Argentina é Lionel Messi. E seria assim caso ele jogasse em qualquer outra grande seleção do mundo.

O ESQUADRÃO

Os 23 convocados para a Copa do Mundo foram anunciados no último dia 21 de maio, dias após uma confusa lista prévia com 35 nomes. Talvez a grande ausência tenha sido de Mauro Icardi, da Inter de Milão. O ex-são paulino Ricardo Centurión, que hoje joga no Racing, teve a seu favor o lobby da imprensa argentina por uma vaga, mas também ficou de fora.

Já Cristian Ansaldi, lateral do Torino, foi a grande surpresa. Ele não jogou nenhuma vez pela seleção com Jorge Sampaoli, mas ganhou vaga devido à possibilidade de se colocar como alternativa ao ainda lesionado Gabriel Mercado, que deve se recuperar até a Copa. No mais, apenas 8 jogadores que estiveram no Brasil em 2014 voltam a disputar uma Copa: Sérgio Romero, Marcos Rojo, Javier Mascherano, Lucas Biglia, Ángel di Maria, Gonzalo Higuaín, Sérgio Aguero e, claro, Lionel Messi, melhor jogador do último mundial segundo a FIFA.

Goleiros: Sergio Romero (Manchester United-ING), Wilfredo Caballero (Chelsea-ING) e Franco Armani (River Plate-ARG)

Defesa: Cristian Ansaldi (Torino-ITA), Gabriel Mercado (Sevilla-ESP), Nicolás Otamendi (Manchester City-ARG), Javier Mascherano (Hebei Fortune-ARG), Federico Fazio (Roma-ITA), Marcos Rojo (Manchester United-ARG), Marcos Acuña (Sporting Lisboa-POR), Nicolás Tagliafico (Ajax-HOL).

Meio-Campo: Cristian Pavón (Boca Juniors-ARG), Maximiliano Meza (Independiente-ARG), Ángel Di María (PSG-FRA), Manuel Lanzini (West Ham-ING), Giovani Lo Celso (PSG-FRA), Ever Banega (Sevilla-ESPN), Lucas Biglia (Milan-ITA), Eduardo Salvio (Benfica-POR).

Atacantes: Paulo Dybala (Juventus-ITA), Lionel Messi (Barcelona-ESP), Gonzalo Higuaín (Juventus-ITA), Sergio Agüero (Manchester City-ING).

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